A mudança começa nas cidades – mais que um slogan, uma esperança!


Toda cidade brasileira, nesse ano de 2020, ouviu ao menos uma vez um candidato ou candidata falar sobre mudança. O sentimento de mudança é inato aos seres humanos e naturalmente a publicidade explora essa palavra e sensação das formas mais diversas (e até bizarras) nas propagandas eleitorais. E de tanto uso, essa palavra tão preciosa entrou no eixo da banalização, fica caminhando ali, naquela linha tênue entre o esvaziamento e a ressignificação.

No ambiente político em que vivemos o sentimento de mudança é muito forte. No mundo inteiro, polarização, guerra, miséria, retrocessos. No Brasil, um governo ultraliberal na economia, que desrespeita a Constituição, atropela direitos básicos do povo e da sociedade em geral, aprofunda as desigualdades sociais e estimula o ódio, a intolerância, os preconceitos e o negacionismo. Uma crise de múltiplas faces — política, sanitária e econômica — empurra a faixa mais vulnerável da população para a miséria, atinge a classe média e espalha a desesperança até mesmo em militantes mais resistentes, que seguem nas trincheiras de defesa da civilidade, combatendo os desmandos do Governo Federal. A fome voltou a fazer parte da realidade dos brasileiros e a internet, entre notícias falsas e sensacionalismo, segue evidenciando o rancor de uma elite que sonha em voltar aos tempos do colonialismo.

Foto: Diego Galba
Assim chegamos às eleições de 2020. Na defensiva e, para piorar, fragilizados por uma pandemia que modificou completamente nossos hábitos e costumes e nos impôs uma dura rotina de temores_, perdas, adoecimentos, isolamento e distanciamento social. Nesse cenário, mais do que nunca a palavra mudança ganha mais força e precisa fazer mais sentido. E é olhando para o passado que busco a concretude para, mais que uma palavra, ela seja uma ideia forte, um combustível para alimentar ações, pensamentos e aspirações para o futuro neste novembro, vésperas de eleições municipais.

Há 20 anos vivíamos uma situação de desesperança parecida com a atual. São fortes as lembranças do arrocho provocado pelas políticas neoliberais de Fernando Henrique Cardoso, dos ataques contínuos à Educação, do desmonte do SUS, da entrega do patrimônio público à iniciativa privada. Ali, daqueles tempos de luta e resistência, surgia a semente da esperança que, dois anos depois, tomou conta do país e promoveu uma grande revolução com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva, o primeiro representante dos trabalhadores a dirigir o Brasil. Em 29 de outubro de 2000, Olinda e Recife elegiam prefeitos de esquerda e renovavam a energia de combatividade daqueles que acreditavam que o Brasil poderia trilhar um futuro de desenvolvimento social e de combate à desigualdade.

Luciana Santos foi a primeira pessoa eleita pelo PCdoB para um cargo executivo em Olinda. Uma mulher, jovem, negra, nordestina e comunista mudaria os rumos da cidade patrimônio, abriria caminhos para dizer que lugar de mulher é na política sim e que competência, credibilidade e boa gestão não dependem de gênero. No Recife, João Paulo, na época no Partido dos Trabalhadores, também era eleito. O voto popular conduzia um operário à prefeitura da capital pernambucana. O sentido verdadeiro da palavra mudança, que começou naquele momento ainda, está impresso nas mentes e corações recifenses. A sua principal obra: cuidar das pessoas, garantiu que ele saísse do governo com quase 90% de aprovação e um legado de combate à desigualdade, de modificação do espaço urbano, de inclusão, respeito e trabalho pela dignidade de cada homem e cada mulher, da orla aos altos.

Olho para esses dois casos e repenso o slogan. É nas cidades que a mudança começa. Se procurarmos na história recente encontraremos muitos outros exemplos. É nas cidades que a mudança começa. Com candidaturas que olhem nos olhos das pessoas, que tenham compromisso com a mudança do mundo, com o desenvolvimento sustentável, com o respeito à cidadania e que entendam o quanto é sagrada a dignidade de cada ser humano. A mudança começa nas cidades. Conosco. Com a consciência de que o que digitamos na urna é mais que um número, é mais que um voto em uma pessoa ou em um partido. Com a certeza de que nosso voto é mais um tijolo numa construção muito maior, muito mais ampla. É um passo numa caminhada que é árdua, longa e que só pode ser feita coletivamente. A mudança começa nas cidades porque é lá onde moramos, porque são as cidades que guardam nosso peito cheio de esperança, nossos punhos erguidos e nosso desejo de viver em um mundo mais justo, onde todas as pessoas tenham, minimamente, o direito de ser feliz.

Ana Cristina Santos
Jornalista, pesquisadora sobre comunicação alternativa e popular e doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília.

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