Roberto Amaral: O trumpismo foi legitimado e segue vivo


Após dias de suspense, a vitória de Joe Biden foi, enfim, anunciada, aliviando a angústia e os temores dos que repelem a degradação da política. No plano internacional, esse resultado alimenta a esperança na retomada do diálogo multilateral. Em princípio, pois, a transmissão de cargo no dia 20 de janeiro próximo não será uma mera troca de presidentes, como já não fôra a de Obama por Donald Trump, como se viria depois.

A magra margem de votos com que Biden superou seu adversário, tema destas reflexões escritas em cima dos acontecimentos, é o outro lado de um história intrincada: a extraordinária votação obtida por Trump ao fim de um governo pantanoso, pontuado por escândalos, em meio a crise econômica e social, violência policial, acirramento do racismo e de permeio uma epidemia enfrentada com extrema irresponsabilidade, atingindo 9,5 milhões de pessoas e cobrando, até aqui, 255 mil vidas.

No momento em que escrevo as agências dão conta de que o incumbente, apesar de tudo, obteve a aprovação de cerca 48% dos eleitores, (algo como 70 milhões de votos), superando a marca obtida em 2016. Biden deverá ser diplomado com de 51% dos votos. Diferença muito pequena, como se vê. Os números escancaram a tragédia: o que Trump representa não morreu. Essa deformação político-ideológica tem ao seu lado praticamente a metade do país. A lamentável conclusão é esta: o trumpismo, entendido como a radicalização conservadora e reacionária dos republicanos, foi legitimado e segue vivo.

Trump teve mais votos do que na eleição em que se sagrou vencedor, quando apareceu como o “novo” para um eleitorado que diziam cansado da política, dos políticos e dos velhos caciques que controlam as duas siglas partidárias que engessam a abalada democracia representativa dos EUA, a cada eleição mais afastada dos fundamentos da soberania popular. Trump, porém, não é mais nem o “novo” nem o anti-establisment, é o conhecido e provado. Assim é que foi votado. Vê-se, daí, que sua eleição em 2016 não foi um acidente de percurso e que a votação de 2020 sorri-lhe como um referendo ao seu maldito governo. O trumpismo, essa espécie de populismo nacionalista de extrema-direita – uma cultura política nutrida na agressão aos oponentes (transformados em inimigos a serem liquidados) – fala à alma norte-americana, e não desaparecerá de cena quando o apresentador de TV e homem de muitos negócios deixar a Casa Branca.

Que sociedade é essa que assim expõe suas fraturas?

Uma sociedade esgarçada pela polarização política, social, racial e geográfica.

Um país dividido e ressentido.

Uma sociedade perdida na transição entre o velho e o novo: o presente (que procura preservar) e o futuro (que teme), entre o hegemonismo e a competição, o unilateralismo e o multilateralismo, angustiada diante da decadência inelutável do império. A sociedade do super-homem se descobre vulnerável e entra em crise. Noutros tempos, crises profundas da nação produziram Lincoln e Roosevelt. Desta feita, depois dos dois Bush, produziu Donald Trump. O presidente que sai personifica o conflito de que depende para sobreviver, estimulando preconceitos, recalques, o primitivismo político, social e religioso, o moralismo hipócrita da sociedade branca, rural e segregacionista, explorando o rancor dos esquecidos pela globalização dos ricos.

E fez discípulos mundo afora. No Brasil temos um clone. Como o original, sem qualquer apreço pela política, pela lei, pela verdade, pelo decoro.

Trump, com o discurso do ódio, a desmoralização das instituições que dão sustentação ao sistema de poder norte-americano, deixa o país convulsionado. É o último estágio de uma “guerra civil” moderna, que não está nas catalogações da história nem nos manuais de teoria política por fugir aos modelos clássicos, de que a “guerra da secessão” é paradigma. Trata-se de “guerra” não declarada, sem disputa de território, sem “teatro de operações”, mas com muitas vítimas. Uma “guerra” que se processará na violência do dia-a-dia de uma sociedade armada até os dentes. Os conflitos gerados por uma sociedade do consumo conspícuo mas que não atende às necessidades das grandes massas desalojadas do mercado de trabalho, empobrecidas, embora vivendo no país mais rico do mundo.

O que salta aos olhos é a divisão do país em partes perigosamente simétricas. São estes os EUA que Biden e sua vice – uma ex-promotora de Justiça linha dura – receberão de Donald Trump, prevalecendo, como certamente prevalecerão, as regras do jogo.

De Donald Trump tudo se pode esperar. O mais provável é a continuidade da beligerância de que já dá notícia ao não reconhecer a vitória do adversário leal e acusar de fraude o processo eleitoral, enxovalhando a institucionalidade do país. Trump é suficientemente irresponsável para aprofundar o mal-estar, e pode fazer do desalento e do desespero o estopim de uma explosão social capaz de levar pelos ares o “sonho americano” dos pais fundadores.

Trump perdeu as eleições, mas fez a maioria do Senado e a maioria dos governadores, e ainda surrupiou dos democratas várias cadeiras na Câmara dos Representantes. Mostrou amplo apoio popular. Tem bala na agulha. E ainda tem cerca de dois meses de Casa Branca, podendo levar a limites inimaginados seu contencioso com os fatos.

Joe Biden precisava de uma vitória avassaladora, que não teve. O que será seu governo, é difícil prever. Sabe-se o que se espera dele, o que se deseja, mas conhecemos suas limitações institucionais e políticas, a começar pela pequena margem de votos que sobrepôs ao adversário e o fato de que governará com um Senado hostil, o que limitará em muito a execução de seu programa de governo, como a expansão do ObamaCare, o aumento do salário mínimo ou a majoração dos impostos cobrados aos mais ricos e às grandes corporações, isentados por Trump.

Os interesses estruturais e geopolíticos dos EUA não se alterarão, eis que pairam acima da disputa entre democratas e republicanos. No plano internacional, o novo presidente será festejado por aliados e pela comunidade cansada dos maus modos de seu antecessor. Os EUA retornarão à OMS e ao Acordo de Paris. Levarão um pouco mais a sério o aquecimento global e a defesa do meio ambiente. Continuará, porém, a guerra comercial (mas igualmente científica e tecnológica) com a China, talvez de forma mais silenciosa, mas a disputa com o “império do centro” seguirá sendo a prioridade da política externa, de par com a contenção militar da Rússia. Talvez Biden reveja o acordo nuclear com o Irã, rompido por Trump. A política no Oriente Médio, porém, não deve sofrer alterações, os países amigos e os inimigos continuarão os mesmos. Mas certamente não ocorrerão novas invasões, como a do Iraque (Bush filho) e a da Líbia (Obama).

Quanto ao nosso continente, a Doutrina Monroe persistirá firme como o Pão de Açúcar. A América do Sul seguirá sob controle estratégico. Cuba, Nicarágua e Venezuela continuarão como incômodos, até aqui irremovíveis. O que pode ser novidade é o descarte do intervencionismo descarado de Trump e seu entourage. Apesar da retórica imperialista de Biden, é possível uma solução negociada com a Venezuela (Maduro já pediu diálogo). Relativamente à Bolívia, o futuro presidente pode aguardar a definição do que será o governo de Luís Arce.

A OEA continuará prestigiada.

O Brasil permanecerá como um caso à parte, para o bem e para o mal, pois esse é o preço de sua importância territorial, econômica e logística. Biden não deverá dar corda ao obscurantismo de Bolsonaro, e certamente nos criará problemas na OMC, resistirá a apoiar o ingresso do Brasil na OCDE e dará aguardados pitacos na defesa da Amazônia. Os presidentes democratas são conhecidos por suas políticas protecionistas e, evidentemente, Biden não suavizará as pressões do atual governo sobre nossas exportações de álcool, alumínio, aço, etanol e commodities agrícolas. No mais, as relações entre os dois países voarão em “céu de brigadeiro”. O apego de Bolsonaro, no fundamental, é ao americanismo. As “relações carnais” com Trump são apenas a sua expressão mais abjeta. O entreguismo, que é a pedra de toque, permanecerá, e os EUA muito o cultivarão por que isso atende aos interesses da sua economia, como lhes interessa a conservação de uma política externa como a nossa atual, subordinada a Washington. Do ponto de vista norte-americano, portanto, não há o que mudar. Muito menos na área militar, pois a estratégia brasileira é, e não de agora, funcionar como força auxiliar dos EUA na América do Sul. Biden negociará com Bolsonaro, ainda que certamente tenha nojo dos súditos subservientes.

Biden tem razões para não gostar da nossa caricatura de Trump, mas não deverá criar embaraços a um governo cujas políticas servem, bovinamente, aos interesses dos EUA. Esse fato pode frustrar algumas esperanças de certos círculos da esquerda brasileira, mas igualmente devem nos alertar de que para enfrentar e derrotar o bolsonarismo precisamos contar menos com os astros, e mais com nosso engenho e arte

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