Alencar Furtado: quando o “talvez” foi uma denúncia


Cearense, que fez carreira política no Paraná, Alencar Furtado merece o reconhecimento do papel combativo que teve por toda sua vida, lutando contra o arbítrio e pela liberdade.

Por Haroldo Lima

As lutas libertárias são integradas e robustecidas por gestos intrépidos e fatos marcantes. Delas fazem parte uma música que arrebatou corações, um grupo que se declarou inconciliável com a tirania, uma frente de luta que descortinou um horizonte novo, ou um discurso metafórico que desnudou tragédias e estremeceu a Nação.   

Na época da ditadura, setores resistentes ao regime de força vibravam com esses gestos de alcance histórico. Os que viviam e lutavam na clandestinidade entusiasmavam-se.  

Quando Geraldo Vandré lançou no Festival Internacional da Canção, em 1968, no Maracanãzinho, o seu “Caminhando e cantando…”, a explosão de empatia com a música foi imediata, nem Vandré conseguiu moderar a empolgação da multidão pela descoberta do Hino que unificaria a resistência dali por diante.    

Ao surgir em julho de 1971, em Recife, um grupo nacional que encabeçou o lançamento da Carta de Recife, com pregação transformadora, o apoio foi rápido. Esse grupo passou à história como “grupo autêntico”, tinha 23 deputados, aguerridos, barulhentos, indomáveis, como Alencar Furtado, Francisco Pinto, Fernando Lyra, Lysâneas Maciel, Amauri Müller e tantos outros.  

Em abril de 1972 correu a notícia de que surgira no sul do Pará, na região do Araguaia, uma resistência guerrilheira, dirigida por comunistas, e esperanças cresceram entre os que se empenhavam na luta contra a tirania. 

No dia 27 de junho de 1977, o MDB levou ao ar seu programa de televisão. Há três anos não falava ao povo. Havia dúvidas se deixariam exibi-lo. Mas ele apareceu, e lá estavam o presidente do partido Ulysses Guimarães, seu líder no Senado, Franco Montoro (SP), o presidente do Instituto Pedroso Horta, deputado Alceu Colares (RS) e o deputado federal pelo Paraná e líder do MDB na Câmara, Alencar Furtado. 

 A crítica ao regime foi unânime. A ditadura foi vergastada. Chegou a hora de falar Alencar Furtado.  E os brasileiros pararam. 

O cearense, que fez carreira política no Paraná, esmerou-se em denunciar, de forma retocada, não agressiva, porém ferina, um dos aspectos mais clamorosos do drama vivido pelos brasileiros naquela época, o dos desaparecidos políticos. O país democrático se emocionou.  

Para falar de tema tão candente e tão severamente proibido, Alencar deixou de lado o estilo aberto, nominativo, e apelou para a forma metafórica e poética de expor. Tocou fundo a sensibilidade dos brasileiros, quando mostrou a necessidade da liberdade “para que não haja no Brasil lares em pranto; para que as mulheres não enviúvem de maridos vivos, quem sabe, ou mortos, talvez -viúvas do quem sabe e do talvez; para que não tenhamos filhos de pais vivos ou mortos, órfãos de quem sabe e do talvez”. 

Esse trecho de Alencar Furtado atingiu o coração dos brasileiros, pois retratava, com a sutileza que o momento exigia, a realidade pungente que esperava uma denúncia imorredoura. 

Pagou caro o preço de sua coragem o deputado pelo Paraná. A ditadura não perdoava. Três dias depois, seu mandato foi cassado por decisão do general-presidente da República Ernesto Geisel. Mas sua denúncia ficou como uma marca registrada da prolongada resistência de nosso povo à ditadura militar de 1964. 

Depois da Anistia, Alencar Furtado retorna à Câmara onde eu o encontro ao lado de Chico Pinto, de Lysâneas Maciel, de Marcos Freire, de Fernando Lyra, de Paes de Andrade, de Amaury Müller e tantos outros do “grupo autêntico”, veteranos da paliçada democrática. Destes, muitos já se foram, deixando saudade e exemplo. Os que ainda estão aí, estão se virando conosco, que também estamos nos virando com os mais novos na nova e necessária resistência que se estrutura contra o governo antinacional, obscurantista, genocida  e corrupto de Bolsonaro. 

Agora que Alencar Furtado desaparece, é de justiça que façamos esse reconhecimento do papel combativo que teve por toda sua vida, lutando contra o arbítrio e pela liberdade. Sinto-me no dever de homenageá-lo aqui, em nome do Partido Comunista do Brasil, que sempre admirou e batalhou junto com esse bravo e consequente lutador pela democracia. Nossas homenagens estendem-se também a seus familiares. 

Haroldo Lima
É engenheiro, ex-diretor-geral da ANP, membro do Comitê Central do PCdoB e foi deputado federal na Assembleia Constituinte.

2 comentários

  1. São pessoas quem mudam a história. Não são sistemas de governo nem formas de Estado os protagonistas. Acreditar em esquemas políticos e ideológicos seria dar um passe livre para qualquer idiota imbecilizado para governar sob certo sistema mágico autônomo. A autarquia utópica da potência do método sobre o prático. Não existe sistema melhor nem pior. Apenas líderes competentes ou estúpidos encontrareis isto em qualquer regime político em qualquer parte.

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