Em meio a cobranças, novo ministro chega rezando na cartilha de Bolsonaro


Em um ano de pandemia, o Brasil vai para o seu quarto ministro da Saúde no momento em que o país soma quase 280 mil mortes por Covid-19. Na noite desta segunda-feira (15), Jair Bolsonaro anunciou a nomeação do médico Marcelo Queiroga para o comando da Pasta, em substituição ao general Eduardo Pazuello.

“O Brasil tem hoje a maior média móvel de mortes por Covid do mundo e está no quarto ministro da Saúde. Essa instabilidade agrava ainda mais a situação da pandemia”, avaliou o líder do PCdoB, deputado Renildo Calheiros (PE).

A nomeação do médico repercutiu no meio político. Gerou dúvidas entre oposicionistas, que questionaram se o novo ministro terá coragem de adotar as medidas necessárias para conter o avanço do novo coronavírus, e frustração entre parlamentares ligados ao Centrão, que haviam pedido a Bolsonaro uma guinada na Pasta com a escolha de um nome técnico, como o da médica Ludhmila Hajjar, que rejeitou o comando do Ministério por discordar da cartilha bolsonarista.

A vice-líder do PCdoB, deputada Perpétua Almeida (AC), foi uma das que questionou se o novo ministro da Saúde aceitará a interferência de Bolsonaro no combate à pandemia. “Competência e defesa da ciência não combinam com o negacionismo de Bolsonaro. Ele próprio sabota o trabalho dos ministros quando quer definir os protocolos de atendimento e receitar medicamentos durante a pandemia. O novo ministro vai aceitar isso?!”.

Queiroga é mais uma escolha ligada à família Bolsonaro. O novo ministro tem relação com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e é entusiasta da figura do presidente desde 2018, tendo apoiado seu projeto de campanha. Em sua primeira entrevista, após anúncio para a Pasta, Queiroga demonstrou alinhamento com a agenda de Bolsonaro.

Para o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), “a necropolítica do governo federal segue fiel ao seu plano cruel com os brasileiros”.

Diferentemente de Hajjar, que havia defendido o isolamento social, Queiroga afirmou à CNN que lockdown é uma medida que só deve ser adotada para conter a pandemia do coronavírus em “situações extremas”.

“Esse termo de lockdown decorre de situações extremas. São situações extremas em que se aplica. Não pode ser política de governo fazer lockdown. Tem outros aspectos da economia para serem olhados”, afirmou o cardiologista, mais preocupado com a agenda econômica do que com as mortes causadas pela doença.

“Marcelo Pazuello ou Eduardo Queiroga? Nenhum dos dois: é Jair Bolsonaro o ministro da Saúde”, disse o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), em descrença com a substituição no Ministério. “Não há motivos para comemoração, já que é sabido e consabido que é Bolsonaro quem impõe o negacionismo assassino como política pública”, acrescentou.

A deputada Professora Marcivânia (PCdoB-AP) lembrou que Pazuello foi o ministro da Saúde mais fiel à cartilha bolsonarista, gerando quase 280 mil mortos por Covid-19 e desejou “coragem” a Queiroga para “adotar as medidas necessárias que o momento exige”. “O momento exige atuação consistente, eficaz, científica e postura de liderança. É o que esperamos para o bem da saúde dos brasileiros”, destacou.

Nesta terça-feira (16), no entanto, ao chegar ao Ministério da Saúde para reunião com Pazuello, Queiroga deu nova demonstração de que Bolsonaro trocou seis por meia dúzia. O médico afirmou que a definição da política “é do governo de Jair Bolsonaro”, e cabe à Pasta executar as ações.

“O governo está trabalhando, as políticas públicas estão sendo colocadas em prática. Pazuello já anunciou todo o cronograma da vacinação em entrevista ontem [segunda, 15]. A política é do governo Bolsonaro, não é do ministro da Saúde. A Saúde executa a política do governo”, disse, ao ser questionado sobre mudanças em relação à vacinação.

O líder do PT na Câmara, deputado Bohn Gass (RS) desejou sucesso ao novo ministro, sobretudo no combate à pandemia. “Chega de mortes evitáveis! Mas, sinceramente, não acredito que mudar o ministro seja suficiente. É preciso mudar o presidente”, disse.

Na mesma linha, o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) vê o problema no comando. “Bolsonaro disse que Marcelo Queiroga vai dar ‘prosseguimento em tudo o que Pazuello fez até hoje’. Não adianta trocar ministro. Para as coisas mudarem de fato quem tem que sair é o presidente da República”, afirmou.

“Seria boa notícia, não fosse a conduta de Bolsonaro: ele vai tolerar que o ministro siga a Ciência, desestimule aglomerações e promova ampla vacinação? Ou vai continuar boicotando essas medidas?”, indagou o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

Senadores

Para a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), não basta trocar o ministro é preciso uma mudança de rumo na forma como Bolsonaro encara a pandemia. “Que o novo ministro tenha total autonomia no comando do Ministério da Saúde. Enquanto o governo não entender que a ciência precisa ser colocada à frente de ideologia política, continuaremos a ver o número de mortes crescendo exponencialmente. Basta de irracionalidade”, criticou.

“Que o novo ministro Marcelo Queiroga tenha, de fato, autonomia para promover as ações necessárias para tirar o país da mais grave crise sanitária da sua história. Chega de ideologias. Esta nação precisa de medidas de saúde pública pautadas na seriedade e na ciência”, defendeu o líder do PT na Casa, Paulo Rocha (PA).

“Será que o problema são os ministros?”, questiona ironicamente o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Respeitar a ciência, agilizar a vacinação, seguir as recomendações de Saúde são medidas que esperamos do novo ministro. O Brasil tem pressa. A vida tem pressa!”, disse.

Perfil

Marcelo Queiroga é natural de João Pessoa e se formou em medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Fez especialização em cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. Sua área de atuação é em hemodinâmica e cardiologia intervencionista e atualmente Queiroga é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Queiroga será o quarto ministro da Saúde desde o começo da pandemia de Covid. Já passaram pela Pasta os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, seguido depois pelo general Eduardo Pazuello, do Exército.

O principal desafio do novo ministro será acelerar o processo de vacinação em massa da população. Até agora, o país vacinou 4,59% da população com a primeira dose de imunizantes, percentual que corresponde a 9,7 milhões de pessoas.

Fonte: Liderança do PCdoB na Câmara dos Dreputados


Por Christiane Peres

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