Reflexões sobre José Carlos Ruy, meu pai


Para expressar um pouco da história do meu pai, da minha perspectiva como filha, devo dizer, em primeiro lugar, que em toda sua vida, a busca intelectual reinou sobre todas as coisas. Isso não é um demérito da nossa relação, pelo contrário. Nem uma forma de frieza afetiva. Como filho de uma família operária, uma família pobre e grande, cujos membros sempre foram orientados pela necessidade do trabalho, ele encontrou na atividade intelectual uma forma de viver e se expressar.

O seu pai, meu avô Orlando, era operário têxtil, e depois que se aposentou foi ser corretor de imóveis, e minha vó, Dona Pétria era costureira, costurava para fábricas, mas era autônoma, e depois trabalhou como merendeira em uma escola. Ou seja, sempre trabalharam até o fim da vida. E tiveram nove filhos.

Eles moraram na vila operária que pertencia à fábrica onde meu avô trabalhou e na década de 1970 compraram uma casa, em São Bernardo, nos arredores da fábrica da Volkswagen, uma Rua que era entrada daquela Av Maria Servidei, que é onde fica a enorme montadora. Meu pai chegou trabalhar lá, na Volks, embora meus tios tenham feito outras atividades.

Este trabalho intelectual com o qual meu pai teve a oportunidade de ter contato na juventude foi um caminho de engrandecimento para ele. Engrandecimento como pessoa, como caráter e até mesmo profissional e social. Ele pôde compreender a vida operária, que era sua realidade, através de teorias sofisticadas, pelas quais se apaixonou desde a juventude. Pôde dimensionar sua própria condição, entender-se como um operário brasileiro e, a partir disso buscar entender a realidade e a história do país e dos trabalhadores do mundo.

Claro que ele contou com pessoas que o influenciaram, com mestres neste caminho alternativo que trilhou e que fez dele um intelectual influente. O primeiro e acho que o principal foi o sociólogo Clóvis Moura, com quem meu pai teve uma relação muito profícua e com quem aprendeu muito, principalmente sobre escravidão e racismo, que foi um tema no qual ele se aprofundou ao longo de sua vida.

No prefácio escrito pelo Julio Vellozzo, do livro Biografia da Nação está escrito: “outra força determinante deste livro é Ruy ter escolhido dar lugar decisivo ao escravo em sua interpretação do período anterior à abolição”. Isso mostra como o racismo estava no centro de suas preocupações. E ele, inclusive, deixou um livro pronto sobre racismo, que ele chamou de “Há racismo no Brasil?” e que ainda não foi publicado.

Também cito aqui o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, com quem meu pai trabalhou no jornal Movimento. O trabalho na redação do Movimento com o Raimundo foi para ele uma oportunidade rara de formação na área do jornalismo. Foi a sua escola de jornalismo.

Com isso, não é exagero dizer, que ele, que parou de estudar no segundo colegial, construiu um trabalho e desenvolveu importantes estudos e pesquisas, com o mesmo nível daqueles que passaram pelo mais alto grau da formação acadêmica. E com a vantagem de não estar preso aos padrões engessados das faculdades. Posso afirmar sem medo que ele fazia um trabalho extremamente sofisticado, apurado e que sempre nos levava a pensar além do óbvio.

Ter sido educada por ele, exposta a este ambiente intelectual e ao mesmo tempo, à realidade de uma família operária e trabalhadora, foi um grande privilégio para mim e para minhas irmãs Luciana e Mariana. Isso nos deu uma formação política e cultural desde sempre. Plantou em nossa consciência uma visão crítica da sociedade e a paixão pela arte, pelas ciências e pela história.



Quer dizer, uma vida cultural rica e sofisticada, e uma educação de um bom nível, era o nosso normal, ao mesmo tempo em que era nossa realidade também, principalmente para mim e para Luciana, que somos da mesma geração, ir para São Bernardo de ônibus e metrô nos fins de semana, visitar os avós, tios e primos, passar férias em São Bernardo e brincar nas cegonheiras da Volks, que ficavam estacionadas em frente à casa da minha avó – moro em São Paulo desde criança, no bairro de Pinheiros onde ficava o jornal Movimento.


José Carlos Ruy, durante o lançamento da versão brasileira da revista Jacobin, conquistou a simpatia dos presentes, a grande maioria jovens l Foto: Jacobin Brasil
E não foram apenas nós, suas três filhas, que tivemos o privilégio desta influencia. Muitos de seus irmãos, ele era o mais velho de nove irmãos, seguiram seus passos e foram contagiados pelo amor ao conhecimento. Como o Marcos, a Maria Lucília que também são do PCdoB, a Pétria, o Mario, enfim. Todos se formaram em faculdades. Além dos seus amigos do PCdoB, do Movimento, da Editora Abril, que certamente o valorizavam e reconheciam toda a grandeza da contribuição intelectual que ele deu para a política e para os movimentos sociais.

Nos últimos anos nossa cumplicidade se aprofundou, quando ele voltou a morar em São Paulo. Isso o ainda aproximou tanto de mim, da Luciana e também do João, Juruna, meu companheiro, que também teve a oportunidade de ser um bom amigo do meu pai.



Nós chegamos a assinar um artigo juntos no ano passado, e isso é muito bom, porque esse trabalho de ler, debater e escrever é, enfim, a nossa vida. Até acontecer o que aconteceu, que me deixou muito abalada.

O André Cintra disse que a morte do Ruy causou grande comoção porque pegou todos de surpresa. Acho que foi isso mesmo. E também ela veio em uma sequência muito triste de perdas, o Augusto Buonicore, a Christiane Britto, que era a companheira do meu pai, o Tisiu, e tantos outros. Um processo muito difícil para nós que ficamos. Conversei com o Renato Rabelo por telefone após a morte do meu pai e ele disse que o Ruy era um irmão para ele e que essas perdas serão irreparáveis, que concretamente vai demorar muito para conseguir dar conta dessas perdas, enfim.

Então isso é o que eu quero destacar sobre o legado do meu pai. A grande paixão pelo conhecimento, pelo pensamento, cultura e arte que fez dele o importante intelectual, a grande pessoa que ele foi. Uma paixão contagiante e generosa que mudou para melhor a vida de todos à sua volta.

Texto adaptado da participação na live promovida pela CTB em homenagem à José Carlos Ruy.

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