O governo Biden e a política externa dos EUA, por Walter Sorrentino


Já está clara a conduta do governo Biden na cena internacional, mas não suas consequências. Nestes 60 dias desde a posse, ele certamente marcou a diferença com o antecessor no ambiente interno, com grande avanço da imunização contra a COVID-19 e com o programa  “Plano de Resgate Americano”, de 1,9 trilhões de dólares, para amenizar os efeitos da crise sobre as famílias e estimular a economia.

No plano externo, também para demarcar com Trump, sinalizou o respeito ao multilateralismo ao reposicionar os EUA dentro do Acordo de Paris, que rege medidas de emissão de gases do efeito estufa, igualmente na OMS, voltou a pagar a cota de 250 milhões de dólares para a entidade. Além disso, anunciou candidatura dos EUA para  mandato permanente no CDH/ONU.

São medidas importantes. Entretanto o que está em xeque é a real condição que têm os EUA em repor o antigo papel na ordem global com a orientação do cosmopolitismo liberal (e guerreiro) dos Democratas, como reflete o estudioso José Luis Fiori. De vários modos, os EUA hoje são mais questionados e estão enfraquecidos no mundo. Como disse Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, estagnou há décadas a economia do país porque promovem guerras contínuas contra outros povos e nações.

As nevrálgicas relações com China e Rússia comandam o eixo de intervenção externa do governo dos EUA. Aí tem se desvendado por completo a política de Biden. Procurando recompor a influência com os aliados anteriores a Trump, os EUA intitulam tais relações como de cooperação e contenção. Mas isso é linguagem diplomática, até porque o país não reúne as condições de impor o que quiser, ou seja, foi superada a fugaz Pax americana, a ordem unipolar instituída com o colapso do campo socialista.

O que está em curso é a estratégia que se pode chamar de uma guerra contínua e multilateral, por todos os meios e com armas de todos os tipos, para derrotar a China e conter militarmente a Rússia, com vistas à disputa hegemônica do mundo pela ponta tecnológica, na qual o dinamismo dos EUA está posto em questão. O confronto prevalece e pode se agudizar ou amenizar segundo as conveniências e o curso das disputas internacionais.

Como já é claro, esse confronto é uma política de Estado, não de governo, ditada pelo establishment financeiro e econômico que comanda inúmeras instituições estatais.

É nessa ordem que se alinham os fatos recentes. Biden mobiliza forças para mandar sinal militar para China e Rússia. Os EUA criaram uma força-tarefa contra Pequim, enviando porta-aviões para o mar do Sul da China, também no Estreito de Taiwan, e bombardeiros para o Ártico. Uma clara ameaça.

“O foco da força-tarefa é conter os esforços chineses”, afirmou o governo dos EUA. Mas todos sabem: a unidade da nação chinesa é o maior vespeiro em que podem se meter os EUA.

Nesse cerco à China, Biden renova aliança com Austrália, Índia e Japão na aliança conhecida como QUAD, em desafio explícito à China. As nações da QUAD já haviam realizado exercícios navais na Baía de Bengala e no Mar da Arábia, semanas depois de representantes estrangeiros dos quatro países se reunirem em Tóquio. A Austrália participou pela primeira vez em mais de uma década.

Biden também sinalizou uma abordagem mais dura em relação a Moscou do que seu antecessor, Donald Trump. Pôs em pauta a prisão do líder oposicionista Navalny, a situação da Ucrânia, a suposta cyber-espionagem russa nos EUA e a prorrogação por cinco anos do acordo nuclear Novo Start (assinado em 2010 por Obama e Medvedev). Depois, anunciou sanções dos EUA e da UE contra a Rússia, tendo como mote o suposto tratamento dispensado ao opositor Navalny. Num lance constrangedor, ao chamar Putin de “mentiroso” publicamente, recebeu uma resposta humilhante do altivo presidente da Rússia, Putin.

Ainda no tabuleiro de xadrez geoestratégico, lembremo-nos que no dia 25 de fevereiro os EUA atacaram posições na Síria que alegam serem ocupadas por milícias iranianas. Neste caso, o ataque foi uma mensagem ao Irã, em torno do contencioso do retorno ou não dos EUA para o acordo nuclear. Os iranianos dizem que querem esse retorno nos termos do acordo firmado em 2015, mas os norte-americanos querem impor novas condicionantes, alimentando o impasse. Lembremo-nos também que os EUA ainda possuem cinco bases militares no Iraque.

Mas nada se compara ao espetáculo pouco edificante das conversações dos EUA com a China, no Alaska, neste mês de março. Ali foi explicitado o diapasão de confronto de Biden.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, e o conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan enumeraram uma lista de áreas onde os dois lados estão “fundamentalmente em desacordo”.  Referiu-se às ações da China em Xinjiang, em relação a Hong Kong, Tibete, cada vez mais Taiwan, bem como as ações que está realizando no ciberespaço”

Até aí, nada de novo. Os EUA acusam que a China ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global. “É por isso que não são meramente assuntos internos e nos sentimos na obrigação de levantar essas questões aqui hoje”, disse o emissário de Biden.

Novo foi o padrão do tiroteio. O diplomata chinês respondeu: ”vocês querem falar com a China de uma posição de força? Então, tudo isto hoje foi planejado e orquestrado? É assim que você esperava conduzir este diálogo? Esta não é a maneira de lidar com o povo chinês”, disse ele. E  precisou lembrar: “muitas pessoas nos Estados Unidos realmente têm pouca confiança na democracia dos Estados Unidos”, mencionando as pesquisas. “Se os Estados Unidos querem lidar adequadamente com o lado chinês, então vamos seguir os protocolos necessários e fazer as coisas da maneira certa.”

Nesse diapasão, Yang devolveu a bola desmascarando a falácia da retórica dos EUA sobre os direitos humanos; mencionou o Black Lives Matter e os problemas profundos do racismo americano, a desigualdade social e econômica na América e assim por diante.

E cravou: “Não acho que a esmagadora maioria dos países do mundo reconheceria os valores universais defendidos pelos Estados Unidos, ou que as opiniões dos Estados Unidos poderiam representar a opinião pública internacional. E esses países não reconheceriam que as regras feitas por um pequeno número de pessoas serviriam de base para a ordem internacional.”

Depois seguiu: “A China salvaguardará firmemente sua soberania nacional, segurança e interesses de desenvolvimento”, acrescentando que o desenvolvimento e o crescimento da China são irreversíveis. “O que a China e a comunidade internacional seguem ou defendem é o sistema internacional centrado nas Nações Unidas e a ordem internacional sustentada pelo direito internacional, não o que é defendido por um pequeno número de países da chamada ordem internacional baseada em regras”. Isso é menção aos regramentos mais ou menos arbitrários com que os EUA lidam com as relações internacionais e que podem mudar ao sabor de suas conveniências.

É interessante registrar que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, visita nesta semana a China para se encontrar com Wang a pedido do lado chinês. A aliança entre os dois países é estratégica em todos os planos e pode impulsionar, em algum momento, a substituição do papel do dólar como única moeda de reserva de valor internacional. A Rússia tem frieza no trato de problemas tão complexos, e a China é sábia em conduzir a situação com paciência estratégica e contenção, mesmo em um ambiente hostil.

Como se vê, temos uma transição de hegemonia internacional jamais ocorrida em tempos pacíficos e ela promete desenvolvimentos disruptivos cujos desfechos são incertos. Essa é a principal marca da ordem global na atualidade.

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