Fernando Garcia: Campanha da legalidade 1985


O Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois publica o documentário sobre a legalidade do PCdo Brasil feito pelas Secretarias de Agitação e Propaganda do estado de São Paulo e nacional, em 1985. Tem como narrador Walter Sorrentino, Secretário de Agitação e Propaganda do PCdoB-SP. São entrevistados Gilberto Natalini, Antônio Barbosa (Barbosinha), Rogério Lustosa, Vital Nolasco e Maria Saraiva.

Um conjunto de fotos, no início do documentário, mostram um panorama da história do Partido desde 1922 até a campanha das diretas; representando 63 anos de lutas, na maioria de clandestinidade e perseguição. Em festa, os comunistas retratam a inauguração da sede que abriga a Comissão da Legalidade do Partido Comunista do Brasil.

Em ato de aniversário de 63 anos, o PCdoB mostra sua força, suas pautas e que a verdadeira democracia só pode existir com a ampla parcela de pensamentos progressistas livres para suas atividades, dentre eles, o Partido Comunista do Brasil.

No ato, mostra o documentário, falam a favor da legalidade do PCdoB, o vice-governador de São Paulo, Orestes Quércia, o Presidente da UNE, Renildo Calheiros; o prefeito de São Paulo, Mário Covas; o deputado federal, Aurélio Peres; e o presidente do PCdoB o ex-deputado constituinte, reorganizador do Partido e comandante da guerrilha do Araguaia, João Amazonas.

Entre os que não apareceram no documentário, falaram também a atriz, dramaturga e deputada Ruth Escobar, o secretário de planejamento do estado José Serra, o deputado Airton Soares, Luiz Antonio, do Sindicato dos Metalúrgicos; Valdemar Chubaci, presidente do PMDB-SP; Ida Maria, vereadora do PMDB; Marcos Mendonça, presidente da Câmara Municipal de São Paulo; Oswaldo Carlos, prefeito de Guarulhos; Almino Afonso, secretário dos negócios metropolitanos; Fernando Silveira, deputado estadual PTB-SP; Aluísio Nunes, líder da Assembleia Legislativa; David Lerer suplente de deputado federal do PDT-SP. O ato foi dirigido pelo ator Renato Consorte.

Convidado, mas não pode estar presente, o poeta Patativa do Assaré enviou singelo e simbólico gesto de confraternização em versos:

Meus prezados companheiros
Com esses versos rasteiros
Quero dizer com razão
Que um motivo de doença
Proibiu minha presença
Aí na reunião.
 
Não posso comparecer
Porém cheio de prazer
Eu digo por minha vez
La está meu coração
Todo cheio de emoção
Palpitando por vocês
 
Em vez de fazer viagem
Envio minha mensagem
Comemorando este dia
Desejo sucesso mil
Para o PC do Brasil
Que agora aniversaria
 
Se tudo agora mudou
Nova República chegou
E o presidente é civil
É boa oportunidade
De criar a legalidade
Para o PC do Brasil.
 
Uma festa operária e democrática

Uma multidão de 15 mil pessoas lotou, dia 23, o ginásio do Pacaembu, São Paulo, exigindo “legalidade já” para o Partido Comunista do Brasil e festejando seu 63º aniversário com muita música, discursos e emoção. A marca do ato foi a presença maciça e entusiasmada de operários, ao lado de várias das principais lideranças políticas do estado.

Foi um espetáculo como há muito não se via, as caravanas enchendo aos poucos o ginásio, vindas de mais de 120 municípios interioranos ou da periferia de São Paulo. Em geral, traziam faixas, cartazes, bandeiras, anunciando ora a presença da cidade proletária de Santos, ora do Sindicato dos Borracheiros ou dos operários da Phillips.

O povo sofrido e lutador das periferias formava a esmagadora maioria do público, com destaque para a classe operária. As maiores caravanas da capital – Campo Limpo e Mooca – dão uma ideia dessa composição.

Em Campo Limpo, uma só empresa metalúrgica, de médio porte, estava representada por 85 operários. Um deles, Sebastião, relata: “Os operários acham que o PCdoB é um partido de luta. Se o partido estivesse na legalidade, ainda atraía mais gente.”

Outra metalúrgico da mesma região, Anselmo, ainda acha que a presença poderia ser maior, argumentando que “foi o regime militar que retirou a classe operária das grandes mobilizações. Tenho certeza que no dia que o partido sair para a legalidade o Anhembi vai ser pequeno.” Infelizmente nas fábricas da Mooca, dona de antigas tradições operárias, saíram nove ônibus: dois ocupados por jovens, em grande parte trabalhadores nas fábricas; e sete com populares, dos quais 70% eram operários.

A caravana de Campinas tinha cerca de 800 pessoas; e também ali foi um bairro operário – o Parque Shangai – que encheu o maior número de ônibus. As outras delegações interioranas na maioria traziam estampadas no rosto das pessoas sua composição popular e operária.

Um certo número de trabalhadores rurais também compareceu. Ali estava, por exemplo Sebastião Pereira, o tesoureiro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Paraguaçu Paulista, área de assalariados. E cinco membros da comissão sindical do município de Sertãozinho, a maior concentração de canavieiros do estado. E também um dos líderes das duas greves de assalariados agrícolas ocorridas nos laranjais de Bebedouro.

A quantidade de gente, o clima de alegria e entusiasmo popular comoveram muita gente. Um veterano lutador proletário, de cabelos brancos, ativista no bairro de Ermelindo Matarazzo, na periferia leste, abraçava os amigos com olhos em lágrimas e dizia: “Até que enfim conseguimos aparecer abertamente. Quem imaginava, há cinco ou dez anos atrás, que um dia íamos realizar uma manifestação tão bonita, alegre, cheia de vibração !? Valeu toda a nossa luta, as centenas de reuniões, as madrugadas sem dormir. Está aí o povão mostrando que confia no PCdoB”.

Desde as 14 horas iniciaram-se as apresentações artísticas, sob a batuta do ator Renato Consorte, que batizou o ato de “o comício da certeza”. Às 17:30, começou a parte em que falaram as lideranças políticas e sindicais, manifestando sua solidariedade à causa da legalização e ao aniversário do PCdoB.

O deputado federal e operário metalúrgico Aurélio Peres, que falou em nome dos parlamentares presentes, destacou o valor do PCdoB. “São – assinalou – 63 anos de vida, perseguido desde o seu início mas nunca acabado, nunca derrotado. Quantos partidos já se criaram neste Brasil e já não existem mais? E o PCdoB está aqui, vivo e crescendo, com sua trajetória aberta para o futuro. Por que este partido não foi destruído? Porque traz na sua veia, no seu sangue a aspiração do povo sofrido, dessa classe operária oprimida e castigada que aspira pela liberdade e pela sua emancipação total.”

O último orador foi João Amazonas, saudado com um vibrante coro de “Viva o Partido Comunista do Brasil”. Amazonas não se restringiu ao enaltecimento do partido ao qual pertence há meio século, e que representou como deputado constituinte em 1946. Salientou o caráter democrático e unitário do evento. “Não se trata unicamente – disse – de um ato pela legalidade do PCdoB. Trata-se ao mesmo tempo de um ato de unidade das forças democráticas e progressistas de nossa terra. Nele nós podemos constatar que aquela unidade que se vem forjando nas memoráveis jornadas de praça pública, na luta contra o regime militar, não era superficial nem acidental. Eu estou convencido de que a unidade das forças populares e democráticas é mais indispensável do que nunca, porque as tarefas que nós temos por diante não são pequenas e nem podem ser resolvidas por determinado segmento da população brasileira. Há muito que fazer muito pelo que se deve lutar. Mas estou convencido de que esse arranco do povo brasileiro pela liberdade e pela democracia não vai ceder senão quando a nossa pátria for efetivamente livre e independente.”
Jornal Tribuna da Luta Operária, nº 210 de 1º a 7 de abril de 1985, p. 10.

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