Diretor-presidente da Anvisa diverge de Bolsonaro sobre vacina e cloroquina


O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, disse nesta terça-feira (11) que se posicionou contra a mudança na bula da cloroquina para indicar o medicamento ao tratamento da Covid-19, conforme defendeu Bolsonaro numa reunião no Palácio do Planalto. Barra Torres, que depõe nesta terça-feira (11) na CPI da Covid do Senado, disse que falas do presidente contra vacinas, feitas desde 2020, não refletem a posição da Anvisa.

Ele confirmou o que declarou na comissão o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sobre a pressão de Bolsonaro no sentido de alterar a indicação do medicamento para o uso contra o coronavírus. Afirmou que foi contrário à proposta de mudanças na bula da cloroquina e alertou que isso só poderia ser feito por solicitação do detentor do medicamento na Anvisa.

Ao citar o depoimento de Mandetta, o relator Renan Calheiros (MDB-AL) lembrou que o ex-ministro afirmou que Bolsonaro contava com um “aconselhamento paralelo para tomar as suas decisões na contramão da orientação técnica do Ministério da Saúde”. E logo em seguida questionou: “Quem elaborou ou quem defendeu o documento, ou a mudança na bula?”, indagou. “Esse documento foi comentado pela doutora Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação, eu confesso, até um pouco deseducada ou deselegante minha. A minha reação foi muito imediata de dizer que aquilo não poderia ser”, respondeu Torres.

O diretor também deixou claro sua posição sobre o medicamento: “Senador, existe hoje, no Brasil, ainda, um estudo em aberto chamado Coalizão 5, que avalia dados de uso em casos leves. Ele tem previsão de acabar dia 31 de dezembro do corrente ano. Até o presente momento, no mundo todo, os estudos apontam a não eficácia comprovada em estudos ortodoxamente regulados, ou seja, placebos controlados, duplo-cego e randomizados. Então, até o momento, as informações vão contra a possibilidade do uso na Covid-19.”

O relator fez a Barra Torres o mesmo questionamento direcionado ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, sobre as declarações de Bolsonaro contra a vacinação. “O presidente disse que não compraria vacinas da China, chamou a CoronaVac de ‘vacina chinesa do João Doria’ ao dizer que o governo não as compraria. Comemorou com a frase ‘mais uma que Jair Bolsonaro ganha’ a suspensão temporária dos estudos de Fase III da CoronaVac em razão da morte de um voluntário, que, na verdade, tinha se suicidado”, lembrou Calheiros.

Citou ainda as declarações mais conhecidas de Bolsonaro sobre a vacina da Pfizer, “uma piada de mal gosto, nociva e antipedagógica”. “Se você virar um jacaré, é problema seu. Se virar um super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso”, leu o relator.

Calheiros questionou o diretor sobre a avaliação dele a respeito do impacto das declarações do presidente em relação à vacinação no Brasil. “Todo o texto que Vossa Excelência leu e trouxe à memória agora vai contra tudo o que nós temos preconizado em todas as manifestações públicas, pelo menos aquelas que eu tenho feito e aquelas de que eu tenho conhecimento, que os diretores, gerentes e funcionários da Anvisa têm feito. Então, entendemos, ao contrário do que o senhor acabou de ler, que a política de vacinação é essencial; nós temos que vacinar as pessoas. Entendemos também que não é o fato de vacinar que vai abrir mão de máscara, de isolamento social e de álcool-gel imediatamente, não vai acontecer”, respondeu Torres.

O diretor ainda completou: “Então, discordar de vacina e falar contra vacina não guarda uma razoabilidade histórica inclusive. Vacina é essencial e essas outras medidas inclusive. Então, eu penso que a população não deve se orientar por condutas dessa maneira. Ela deve se orientar por aquilo que está sendo preconizado, principalmente pelos órgãos que têm linha de frente no enfrentamento da doença”.

Arrependimento

Barra Torres também manifestou arrependimento ao participar, em 15 de março de 2020, de uma manifestação a favor do presidente sem máscara e diante de uma grande aglomeração, “Senador, destarte a amizade que tenho pelo presidente, a conduta do presidente difere da minha nesse sentido. As manifestações que faço têm sido todas no sentido do que a ciência determina”, comentou o fato.

De acordo com ele, foi um dia infeliz. “De minha parte, digo que foi um momento em que não refleti sobre a questão da imagem negativa que isso passaria. E, certamente, depois disso, nunca mais houve esse tipo de comportamento meu, por exemplo”.

O relator e senadores da oposição avaliaram como positivo o depoimento do diretor da Anvisa, pois ao contrário do ministro Queiroga, não fugiu aos questionamentos e nem tergiversou nas respostas.

Sputnick V

Sobre a autorização emergencial para a vacina Sputnick V, que os governadores do Nordeste e consórcio querem importar, o diretor da Anvisa afirmou que o imuniante foi submetido ao mesmo “rigor regulatório” imposto a cinco vacinas já aprovadas no Brasil. Para ele, 15 pontos da documentação apresentada pelo Instituto Gamaleya precisam de esclarecimento.

“É muito importante que se entenda que esse processo que fizemos de interrupção ou de negativa da autorização excepcional de importação, aí é outra questão, não deve somar a esta marca Sputnik V nenhum pensamento negativo. Isso faz parte do processo. Infelizmente, uma série de acusações e questionamentos feitos pelo próprio desenvolvedor nos obrigou a colocar de maneira mais clara os motivos desse nosso indeferimento do pedido de importação excepcional por parte de governos”, explicou.

Agenda

Na quarta-feira (12), a partir das 10 horas, vai ser ouvido o advogado e publicitário Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo federal. A CPI vai ouvir ainda, na quinta-feira (13), o representante do laboratório Pfizer, a partir das 14 horas.

Fonte: Portal Vermelho

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