Prefácio do livro: Uma Economia Política da grande crise capitalista


Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo*

Lá se vão uns 20 anos, quando insisti no viés ontológico troncho das explicações neoclássicas à dinâmica do capitalismo hodierno. No prefácio ao livro1 do professor José Carlos Braga, lembrava das duas disposições lógicas dessa ontologia: uma epistemologia entranhada no positivismo cientificista, onde os fenômenos são concebidos via a experiência sensível – apenas. E uma filosofia metafísica, pois quando lhe interessa se agarra a um movimento da matéria, nulo ou inerte, de causalidade exterior e linear.

A economia dominante vinha então sobrevivendo aos solavancos de seu ideário do invólucro atomístico, cujos nexos sociais não só eram negados, como reproduziam a esquisita história de uma sociedade composta por indivíduos racionais e maximizadores: o equilíbrio parecia estar sempre ali, na esquina.

Foi providencial que a tormenta de agosto de 2007, consagrada no setembro de 2008 nos EUA, que a economia monetária da produção de Marx e Keynes transformasse os sonhos daquele verão numa tenebrosa nevasca. Aliás, foi novamente quando emergiu plena a ideia, desses dois ilustres pensadores, da esperança existente, do regime do capital, numa reprodução de riqueza abstrata, livre de seus empecilhos materiais para produzirem-se mercadorias.
Pouco antes da crise, em 2005, comentei num outro prefácio – desta feita ao livro do professor François Chesnais – que os mercados financeiros desses nossos tempos reiteravam forte inclinação a fabricar ciclos de euforia e de excessiva alavancagem. E adverti literalmente que, no novo arranjo pós-Bretton-Woods, sob a hegemonia norte-americana, a “exuberância irracional” então já contaminava quatro mercados: bônus, imóveis, commodities e moedas de países emergentes. Não deu outra, e logo, no mês de agosto, uma temeridade nossa!

Naquele 2007, o eloquente ex-secretário do Trabalho do governo Clinton, professor Robert Reich, remetia palavras, abrindo a edição brasileira de seu alegórico “Supercapitalismo”, a saudar uma nossa suposta “tradição de socialdemocracia inexistente entre os americanos”.

Essa generosidade do professor Reich, ao contrário, não elude a vibrante crítica que realiza nesse estudo sarcástico e perspicaz, no qual disseca o processo de desregulamentação da economia dos Estados Unidos, desde a década de 1970, e alerta especialmente para a ascensão da desigualdade e para o declínio da democracia. Mas, suas motivações altruístas enxergam no “triunfo do supercapitalismo” a oportunidade para que a concorrência empresarial assuma responsabilidades sociais nas relações entre consumidores e investidores.

Ora, o fenômeno da concorrência desbragada no neoliberalismo, com a globalização das cadeias produtivas e a integração financeira à moda americana, forjara uma “separação” entre o consumo e o investimento: produção manufatureira na Ásia e ampla expansão do consumo, especialmente nos EUA. Foi o que tentei explicar em mais um prefácio, então ao didático livro do ex-banqueiro e culto escritor Charles Morris, mostrando o que levou ao “descolamento” da evolução da renda, notadamente de salários e do emprego, onde o efeito riqueza e o endividamento comandavam o espetáculo do consumo familiar americano.

Os cinco anos anteriores à crise financeira gestaram dessa ma neira a eclosão. A “Terra das bolhas”, a do Tio Sam, como descreveu Morris, ganhava sua escritura, lembrando ele o grande colapso das hipotecas residenciais em 1994, o violento crash do mercado acionário em 1987, e o imbróglio de 1998, com a falência do Long-Term Capital Management, quando temeu o Fed (banco central americano) que se “pudesse pôr abaixo todo o sistema financeiro global”.

Comentei ainda que o avanço da desregulamentação financeira, dirigida por Wall Street foi decisivo para o impulso daquela “metástase produtiva” asiática, levando também à ampliação da abertura comercial e ao déficit comercial americano crescente. E que os bancos tinham se transformado em supermercados financeiros, pois, uma vez terminada a separação entre comerciais e de investimentos, passaram a securitizar recebíveis de toda ordem: empréstimos hipotecários, dívidas de cartões de crédito, mensalidades escolares. Mas “empacotando” créditos bons, ruins ou péssimos, junto à artimanha de removê-los dos balanços através dos Veículos Especiais de Investimentos (SIV). Papéis de curto prazo para “carregar” os mais longos, as inovações financeiras e o “banco sombra” completaram o cardápio dos novos mercados da riqueza ou da “ontologia” da instabilidade e das crises devastadoras.
Pois bem, dez anos depois dessas linhas ao estudo do calejado Morris, vejo-me às voltas com mais um prefácio, o do livro resultante do doutorado de Aloisio Sérgio Rocha Barroso. Meu ex-aluno, Barroso teimou em percorrer uma pesquisa detalhada do caminho das transformações desse capitalismo, mais ou menos no roteiro até agora descrito. Mas vai adiante, quando discute a natureza teórica da crise iniciada em 2007-2008, retomando a crítica ao que denomina de “caricatura” das recalcitrantes teorizações neoclássicas camufladas no
neoliberalismo, para enxergar, no fundo do “pote de ouro”, as trágicas aventuras da imensa riqueza financeira criada pelo capital fictício.

Discute a contribuição de um grande número de autores a desvendar as novas metamorfoses do capitalismo, da sua sociabilidade rarefeita até a descrença cada vez maior da democracia que sempre lhe serviu de invólucro, mas alerta para as transfigurações materiais que sustentam a “fuga para a frente” perante os abalos sísmicos que ameaçam a valorização do capital: as rupturas inovadoras de suas bases técnicas. Mas, no estudo de Barroso, a “hiperindustrialização” emoldurada na indústria 4.0 aparece simultaneamente aos impasses talvez inéditos dos processos de acumulação e reprodução desse mesmo capitalismo. E também, segundo o nosso autor, sistemicamente não sucumbe à epistemologia do estagnacionismo, tampouco ao colapso pré-agendado historicamente pelo economicismo.

A culminância do solipsismo econômico, matriz do economicismo deplorado por Barroso, é o “agente representativo” dos corifeus das expectativas racionais, a teoria econômica de Robert Lucas deu à
luz um Robinson Crusoé de causar inveja a Daniel Defoe.

O autor deste precioso livro demonstra cabalmente que a crise financeira se esgueirou silenciosa nos subterrâneos da economia globalizada, enquanto os acólitos midiáticos e acadêmicos evangelizavam o público com as crendices sobre os mercados eficientes e “competitivos” povoados por agentes racionais e otimizadores.
Na contramão do solipsismo econômico, mas com os mesmos métodos, alguns críticos do capitalismo sucumbem ao determinismo, soterrando a plasticidade desse modo de produção na cova rasa das velhas e encarquilhadas teorias do colapso final. Muitos críticos à esquerda imaginam estar prestando homenagem à boa tradição de seu pensamento, cedendo passo a supostos automatismos e inevitabilidades que estariam implícitas na dinâmica do capitalismo. Karl Marx se contorce na tumba.
Essas manobras ideológicas escondem as possibilidades da ação humana coletiva, oportunidades que emergem das mutações da estrutura socioeconômica e de sua compreensão transformadora pelas camadas sociais empenhadas na luta democrática.

*Professor Titular de Economia (Unicamp).

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