Jorge Gregory: Bolsonaro derrotado pela vacina


A pesquisa publicada pela Datafolha na semana que passou aponta que Bolsonaro atingiu o seu pior índice de aprovação desde a posse. Na história recente do país este só não é pior que o atingido por Collor. Apenas 24% dos pesquisados aprovam o governo e o índice de reprovação, dos que o consideram ruim ou péssimo, atingiu 45%. Mais significativo ainda é o dado de que 54% dos entrevistados afirmam que não votariam em Bolsonaro em 2022 de jeito nenhum. O percentual de aprovação representa uma queda de 6 pontos em relação à pesquisa de março e de 13 pontos em relação a dezembro. A rejeição cresceu 1 ponto percentual em relação a março e 12 pontos em relação a dezembro. Em outra pesquisa, também realizada pelo Datafolha e divulgada na última quinta-feira, a avaliação negativa (ruim e péssimo) sobre o desempenho de Bolsonaro na condução da crise sanitária, que era de 33% no início da pandemia, atingiu a 54% nesta última pesquisa. Aqueles que consideravam esse desempenho bom ou ótimo no primeiro semestre de 2020, que eram 35%, caíram para 22%.
É muito pouco provável que esses resultados sejam já consequência da CPI da Covid, pois ainda que já tivesse sido instalada e iniciado seus trabalhos quando da realização da pesquisa, não havia produzido nenhum fato que pudesse ter tamanho impacto na opinião pública. Pesquisas são fotografias de determinado momento e, se colocadas em uma série histórica e conhecidos os fatores que determinaram o resultado em cada situação, podem nos apresentar uma tendência futura.

Quando o vírus chegou ao Brasil, diante dos acontecimentos em países europeus, especialmente na Itália, Espanha e França, a população já começava a ter, por meio dos noticiários, uma noção da gravidade e da letalidade da doença. No entanto, naqueles primeiros meses, o mundo científico tinha mais dúvidas do que certezas sobre o novo vírus e circulavam mais desinformações que informações. As restrições de circulação da população foram entendidas como a única medida eficaz de contenção da disseminação à época, chegando vários países, naqueles primeiros meses, a adotar o lockdown.

Nas terras tupiniquins se estabeleceu um verdadeiro conflito entre o governo federal e os governos estaduais. Governadores e prefeitos passaram a adotar medidas de restrição de mobilidade e Bolsonaro passou a desferir permanentes ataques a tais medidas, estimulando a desobediência da população às iniciativas dos mandatários estaduais e municipais. Não se tratava de lockdowns, mas eram medidas para reduzir a velocidade de disseminação do vírus e evitar um colapso total do sistema de saúde nos municípios, o que foi razoavelmente bem-sucedido apesar do número de óbitos que atingimos. A tragédia poderia ser ainda maior.

Da parte do governo federal, colocando o falso dilema entre economia e saúde, a tentativa de derrotar as políticas de restrição de mobilidade tinha o objetivo de levar a população a se contaminar o mais rápido possível e atingir em curto espaço de tempo uma suposta imunidade de rebanho. Para quem ainda tinha alguma dúvida a respeito de que este era o propósito da dupla Bolsonaro/Guedes, as coisas ficaram absolutamente claras quando, nesta última semana, tornou-se público que na previsão orçamentária para 2021, formulada em agosto de 2020, o Ministério da Economia não destinou um único centavo para o enfrentamento à pandemia. Ou seja, Guedes, com a anuência de Bolsonaro, projetava que a imunidade de rebanho seria atingida antes do final do ano e que nem mesmo gastos com vacinação seriam necessários.

Em que pese vários laboratórios e governos iniciarem uma corrida alucinante para desenvolver vacinas, a expectativa de que se obtivesse um imunizante em curtíssimo tempo era pouco crível no início da pandemia. Em meados de setembro, com os bem- sucedidos testes clínicos, abriu-se a perspectiva de que para o final do ano passado, início deste, teríamos vários imunizantes com comprovada eficácia para serem aplicados.
Até então, com a população exausta pelas constantes flexibilizações e retomada de restrições de mobilidade em um verdadeiro movimento sanfona, sem o entendimento de que tais medidas tinham por finalidade o não colapso dos sistemas de saúde e vendo milhares de vidas sendo perdidas diariamente, bem como a renda sendo reduzida drasticamente, parece que se entrou em um certo estado de letargia social e conformismo com a situação. Nessas circunstâncias o discurso de Bolsonaro parecia fazer certo sentido. Não havia muito o que ser feito, pois as restrições, na opinião de grande parcela do povo, não freavam a doença e tiravam a comida da mesa. Então era melhor deixar a doença correr, tomar cloroquina se pegasse o vírus e garantir os empregos. Quanto ao governo federal, grande parte achava que estava até ajudando, pagando o auxílio emergencial.

Em tais circunstâncias, Bolsonaro deitava e rolava. Falava as besteiras que lhe vinham à cabeça. Fazendo-se de pessoa simples, ia até os carrinhos comer cachorro-quente ou churrasquinho de gato pelas ruas de Brasília, fazia rolês de moto pelas cidades satélites, fazia propaganda de cloroquina e atacava governadores e prefeitos, arrotava que não compraria a vacina chinesa de Dória e afirmava que a vacina da Pfizer transformaria as pessoas em jacaré. Sua popularidade, acima dos 30% nas mais diversas pesquisas, parecia intocável e inabalável. Contava como líquido e certo, independentemente do número de mortos, que com a imunidade de rebanho a pandemia passaria rápido e, sem um adversário à altura, construiria a reeleição em 2022 sem grandes dificuldades.

Ao final do ano passado, com a vacina da Pfizer já sendo disponibilizada, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra iniciaram a imunização de suas populações. Na contramão, Bolsonaro havia desautorizado o seu general fantoche a fechar contrato de aquisição da vacina do Butantan e afirmava que não assinaria contrato com a Pfizer, pois as cláusulas eram abusivas. Afirmava ainda que a pandemia estava terminando, pois, provavelmente assessorado por Osmar Terra e Olavo de Carvalho, acreditava que a imunidade de rebanho estava próxima.
Veio o mês de janeiro e o colapso do sistema de saúde se instalou em Manaus, com os hospitais lotados e falta de oxigênio. Com o surgimento de uma nova cepa do vírus, uma segunda onda de contaminação se espalhou pelo país com muito mais força que nos picos atingidos em 2020. Diante dos fatos, a sociedade começou a entender que não há outra saída senão pela imunização por meio das vacinas, mas o governo resistiu e Pazuello afirmou que não sabia o porquê de tanta angústia e desespero em começar a vacinação. Pressionado por setores do governo, empresários e pelo Centrão, Bolsonaro recuou, trocou os ministros da saúde e das relações exteriores e iniciou a aquisição de vacinas. No entanto, já era tarde, pois a disponibilidade de imunizantes já havia se tornado escassa. A vacinação começou a passos de tartaruga, enfrentando ainda percalços diante das crises externas provocadas pelo próprio Bolsonaro.

Diante da intransigência de Bolsonaro e da lentidão na vacinação, aqueles que acreditavam ser a pandemia uma fatalidade intransponível, passaram a identificar o verdadeiro responsável pela tragédia. Bolsonaro colocou o carimbo na testa e dificilmente conseguirá apagá-lo, pois, a esta altura do campeonato, a imunização se estenderá por meses até que a disseminação do vírus seja controlada e as consequências sociais e econômicas da crise sanitária não serão superadas do dia para a noite. Ainda não se sabe qual é o chão de Bolsonaro, mas todos os elementos indicam que a queda apresentada nesta última pesquisa é irreversível e a desidratação tende a se acentuar.

A restituição dos direitos políticos de Lula obviamente coloca a eleição de 2022 na agenda política e se constitui em outro elemento de pressão sobre Bolsonaro. No entanto, enganam-se aqueles que acreditam que este é o centro da luta política neste momento e que o embate principal está na polarização entre a esquerda e a extrema direita. O enfrentamento principal ainda continua sendo o da defesa da vida e da democracia no enfrentamento à política sanitária genocida de Bolsonaro e suas ameaças autoritárias. A polarização de fato é aquela que vai se configurando na CPI da Covid.

*Jorge Gregory é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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