Nelson Sargento (1924-2021), um baluarte da Mangueira e do samba


O cantor e compositor Nelson Sargento, presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira e um dos maiores nomes do samba, morreu de Covid-19, na manhã desta quinta-feira (27), aos 96 anos. Ele chegou a ser entubado na véspera, mas não resistiu. Sua morte ocorre no dia em que o número de vítimas da pandemia no Brasil deve ultrapassar a marca de 455 mil pessoas.

Autor de canções memoráveis – como Acabou Meu Sossego, Agoniza, Mas Não Morre, Cântico à Natureza e Falso Amor Sincero –, o sambista estava internado no Instituto Nacional do Câncer (Inca) desde sexta-feira (21), para tratar um câncer de próstata. No mesmo dia, ele testou positivo para o novo coronavírus.

“E lá vem a foice dessa pandemia horrorosa ceifar mais uma vida brilhante. Nossa lenda do samba, meu amigo Nelson Sargento”, lamentou Elza Soares. “Vou lembrar de você assim, com esse olhar sempre doce. Faça festa no céu, my love.”

A cantora e compositora Leci Brandão também comentou, em suas redes, a partida do grande baluarte da Mangueira e do samba. “Quanta tristeza! Nelson Sargento nos deixou! Tenho muita gratidão por esse grande artista brasileiro. Que Deus lhe receba de abraços abertos”, registrou. Leci – que também é deputada estadual pelo PCdoB-SP – recordou os momentos em que teve contato com o compositor.

“Lembro-me quando eu tinha 11 anos, em 1955, vi a Mangueira desfilar com o samba-enredo Cântico à Natureza. Foi uma grande emoção para mim. Eu era muito jovenzinha ainda, mas aquela música composta por ele tinha entrado na minha vida para sempre!”, afirmou Leci.

“Mais tarde, já em 1971, é o Nelson quem bate o martelo na comissão da Mangueira para a minha entrada na ala dos compositores da Escola. Em 2014, participei do Show 90 Anos de Nelson Sargento, no Sesc Pompeia. Nelson era a cultura brasileira viva!”, completou a cantora e compositora brasileira.

Nascido no Rio de Janeiro em 1924, Nelson Mattos passou a ser chamado de Nelson Sargento após entrar no Exército. Ainda jovem, aos 23 anos, passou a integrar a Mangueira, da qual se tornaria integrante da ala de compositores e presidente de honra. “Vai, amigo Nelson, com seu jeito fino e elegante, se juntar a Cartola, Nelson, Jamelão e outros bambas, fazer uma roda de samba e olhar por nós”, afirmou hoje a escola de samba, em nota sobre sua morte.

Em 1955, Sargento compôs, em parceria com Alfredo Português, o samba-enredo Primavera (As Quatro Estações), seu primeiro sucesso. Na década seguinte, ao lado de nomes como Zé Kéti, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, integrou o célebre grupo A Voz do Morro. Agoniza Mas Não Morre, sua composição mais popular, é considerada uma das mais belas homenagens a este gênero “inocente, pé-no-chão”, genuinamente brasileiro: “Samba / Agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre / Antes do suspiro derradeiro”.

Além da música, Nelson Sargento se dedicou ao cinema e à pintura. Ele participou de filmes como É Simonal (1970), de Domingos de Oliveira; O Primeiro Dia (1998), de Walter Salles e Daniela Thomas; e Orfeu (1999), de Cacá Diegues. Além disso, foi homenageado no curta-metragem biográfico Nélson Sargento da Mangueira (1997), de Estêvão Ciavatta Pantoja, pelo qual o sambista recebeu um prêmio Kikito no Festival de Gramado pela melhor trilha sonora para curtas. O filme conta com a participação de parceiros do sambista, como Paulinho da Viola e Carlos Cachaça.

Como pintor – de paredes e de quadros –, Nelson Sargento só foi reconhecido aos 57 anos, em 1981, quando o jornalista Sérgio Cabral promoveu uma mostra de suas telas em estilo naïf. Posteriormente, seu trabalho foi exposto no Museu do Folclore, no Arquivo da Cidade, no Museu da Imagem e do Som, entre outras instituições. Sargento ainda escreveu livros de poemas (Prisioneiro do Mundo), de contos (Samba Eu) e de pequenos ensaios (Pensamentos).

Por André Cintra

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