Frederico Mazzucchelli: sobre o livro Uma Economia Política da grande crise capitalista


“Uma Economia Política da Grande Crise Capitalista [2007-2017] – Ascensão e Ocaso do Neoliberalismo” [Anita Garibaldi – Fundação Maurício Grabois – Edufal], de Aloísio Sérgio Rocha Barroso, é um livro que – com 173 páginas de texto, 326 designações onomásticas, 320 referências bibliográficas e 231 notas de rodapé – exibe uma profusão incansável de informações. O exaustivo trabalho de investigação do autor converte a obra em uma referência imprescindível ao estudo do capitalismo contemporâneo.
Como expresso no título, o livro trata do ocaso do neoliberalismo, que – em nenhum momento – deve ser confundido com o ocaso do capitalismo. Este é, aliás, um das principais argumentos expostos por Barroso: o impacto e os desdobramentos da crise de 2007-2008 evidenciaram o estrepitoso fracasso do neoliberalismo, porém não autorizam uma conclusão precipitada sobre a estagnação irreversível e, muito menos, o colapso fatal do capitalismo. Em sua dinâmica contraditória, em meio a crises sucessivas, o regime do capital não está – e nunca esteve – fadado ao Juízo Final. Mesmo se opondo sistematicamente aos interesses gerais da sociedade, sua dominação é implacável. O alerta do autor é que a capacidade de reinvenção e transformação do capitalismo jamais pode ser ignorada ou subestimada.
As transformações iniciadas nos anos 1980, que resultaram na desregulamentação, no afrouxamento das normas prudenciais, na multiplicação das inovações financeiras, na alavancagem exponencial das operações, e na dominação cada vez maior do capital e da lógica financeira expuseram os países a instabilidades recorrentes, que culminaram com o desastre da crise dos subprime.
Apenas o socorro imediato do Estado evitou o mergulho no desconhecido. As promessas do “novo renascimento”, do “fim da História”, da “grande convergência” ou dos “mercados eficientes” se chocaram com a dura realidade das assimetrias crescentes entre as nações, com os sobressaltos oriundos das orgias especulativas, com o enfraquecimento do “espírito de empresa”, com a mercantilização impiedosa de todas as esferas da vida, com a quebra da solidariedade e, pior, com o aumento do desemprego, da informalidade, e da precarização do trabalho. Ao se abraçar a seu conceito (dinheiro na busca incessante de mais dinheiro, D-D’) o capitalismo da era neoliberal entronizou o domínio absoluto das finanças sobre a economia real e aprofundou, de maneira dramática, as desigualdades sociais.
A reconfiguração espacial da produção manufatureira em direção à Ásia – acelerada a partir da década de 1980 – fez-se acompanhar da 3ª Revolução Industrial (fundada na microeletrônica). Ao contrário do padrão tecnológico do pós-guerra (automobilística e bens de consumo durável), o complexo eletrônico revelou uma baixa capacidade de encadeamento industrial e de geração de empregos. No início do século XXI a China se transformou progressivamente na “oficina do mundo” e o parque industrial em inúmeros países ocidentais passou a perder densidade. Não há dúvida que dinamismo do capitalismo ocidental se arrefeceu: entre 2005 e 2020, por exemplo, a taxa de crescimento anual do produto em nenhum ano foi superior a 2,5% na França, na Itália e no Japão (exceto em 2010). No Reino Unido, entre 2007 e 2020, apenas em 2010 a referida marca foi alcançada. Na Alemanha, a taxa média de crescimento entre 2012 e 2019 foi de 1,4% ao ano. Nos Estados Unidos, o crescimento espasmódico ao longo dos anos recentes foi incapaz de criar condições dignas de vida para milhões de cidadãos (em sua maioria negros).
Após a hecatombe dos derivativos de 2007-2008, a inteligência artificial, a internet das coisas, a nanotecnologia, a impressão em 3D e a robótica avançada passaram a configurar um novo paradigma tecnológico. Como salienta o autor, “a 4ª Revolução Industrial gesta-se no seio das crises financeiras da era neoliberal da financeirização”. O capitalismo, definitivamente, não se presta a vaticínios simplórios: em meio à tragédia das finanças desregulamentadas e à notória degradação das condições de vida das
sociedades, o progresso técnico – ao mesmo tempo em que promove a devastação das relações salariais e ameaça a criação de empregos – abre esperanças renovadas para a neurociência, a biotecnologia e a medicina.
A repulsa ao neoliberalismo ensejou as mais variadas reações. Mesmo antes da tragédia do coronavírus os supostos e as promessas da autorregulação dos mercados já haviam sofrido uma dura crítica. Afinal, para quase todos, a “terra prometida” não passara de uma miragem, quando não de um calvário. A crise de 2020 aprofundou esta crítica; a necessidade de ampliar o escopo das políticas sociais, de deslanchar o investimento público, de aprofundar a regulamentação financeira e estabelecer critérios mais progressivos de tributação tornou-se praticamente consensual.
Em um estilo contundente e apaixonado, Barroso não foge a essas discussões centrais. Fiel à tradição de Marx e Lênin (que é inclusive brindado com um cuidadoso capítulo), suas reflexões são abertas à história e às contribuições de outras vertentes teóricas. Seu esforço foi plenamente recompensado.

*Professor do Instituto de Economia/Unicamp

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