Manuela d’Ávila: A violência política de gênero


Depois de enfrentarmos a máquina de produção e distribuição de notícias falsas de Bolsonaro em 2018, achei que nada poderia ser pior em termos de violência política de gênero. Naquela eleição, se entrelaçavam duas questões: o desconhecimento da sociedade e mesmo dos partidos políticos acerca da máquina de ódio da extrema-direita e a ideia de que as vítimas da violência de gênero são responsáveis pela violência que sofrem, bastava não ter feito “algo” que não estaria envolvida naquela situação.

Por Manuela d’Ávila*

Daí vieram as eleições municipais em 2020, em que fui candidata à prefeitura de Porto Alegre, e me provaram que sim, que a violência de gênero podia ser ainda maior e mais cruel, uma vez que os mecanismos de incitação ao ódio são cumulativos: a Manuela candidata não deixou de ser hipócrita, “drogada” e profanadora de símbolos sagrados do cristianismo, temas de fake news anteriores, de 2018. A isso se somaram novas violências, novas mentiras. Dias depois de a eleição terminar, mais uma vez pensei: “Não há como ser pior do que foi”. Tragicamente, assisti à Isa Penna sendo apalpada no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

O ano vira e a violência política segue sua escalada: Érika Hilton é permanentemente ameaçada, a vereadora Benny Briolli deixou o Brasil após ameaças de morte, eu e minha filha de 5 anos somos ameaçadas de morte e estupro, Jandira Feghali é alvo de repetidas ameaças, Talíria Petrone também. O caminho é sempre o mesmo: personificar para dar margem à leitura que é sobre uma de nós, sobre a escolha que fizemos individualmente, sobre a nossa vida e não sobre a vida de todas nós.

Situações como as que vivi (e vivo) podem começar a ser inibidas com a aprovação do projeto de lei de combate à violência política contra a mulher, que aguarda votação no Senado. É um primeiro passo que representa avanço. A violência política é um dos principais instrumentos utilizados para afastar as mulheres dos espaços de decisão e poder.

A violência contra as mulheres na política tem um impacto que vai além das mulheres que a sofrem diretamente, dado que cumpre o duplo papel de buscar alijar aquela que é alvo das agressões da política e diminuir o alcance de sua atuação, bem como passar uma mensagem para todas as outras mulheres que indique que a esfera pública não é o seu lugar.

A impunidade na resolução dos casos é a tônica do processo de exclusão de quem quer tentar se inserir ao meio. Assim, a violência política de gênero, aliada ao histórico de exclusão das mulheres da esfera pública e aos símbolos com os quais ainda hoje essas são identificadas, nos afasta cada vez mais dos espaços que decidem os rumos do País. Num país democrático, mulheres deveriam poder optar pela vida pública sem que se tornassem alvo de preconceito, ódio, assédio e discriminação.

Carecemos de mecanismos de proteção e garantia de espaços seguros para que exerçamos os nossos direitos políticos em sua integralidade. É preciso, por exemplo, considerar de forma específica a violência contra mulheres negras, que advém do racismo e, portanto, se manifesta de forma ainda mais grave. Há também que se olhar de forma específica para transexuais agentes políticas, vítimas em repetidos atos de violência.

Não nos iludamos, a misoginia, irmã siamesa da violência política de gênero, foi central na construção do golpe contra Dilma e, uma vez aberta a porta do ódio contra as mulheres, fez-se ferramenta da construção política da extrema-direita no País. Pode parecer um elemento dissociado do projeto de país que eles defendem, mas não o é: a crise econômica e as medidas de austeridade diminuem o tamanho do Estado e todas as políticas públicas relacionadas aos cuidados. Quem os assume? As mulheres. A crise desemprega milhares de trabalhadores e trabalhadoras. Qual é o ideal de masculinidade na nossa sociedade? Não é o de provedor? É possível conciliar esse ideal de masculinidade com desemprego? Então, como diz a antropóloga Rosana Pinheiro Machado, é impossível dissociar o bolsonarismo do machismo. Enfrentar o machismo, a misoginia e a violência política de gênero é enfrentar a extrema-direita.

Para que mais mulheres se enxerguem nesses espaços, é preciso segurança e proteção. É no nosso compromisso com as outras e com a superação das profundas desigualdades que encontramos forças para enfrentar tamanha crueldade até que um dia o Brasil perceba que é fundamental que exista o protagonismo das mulheres e da pluralidade de pensamentos e opiniões. Que a gente tenha força para não desistir de lutar.

*Manuela d’Ávila, jornalista, ex-deputada do PCdoB e criadora do Instituto E Se Fosse Você?

(Artigo originalmente publicado na revista CartaCapital)

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