O fracasso dos EUA no Afeganistão expressa o declínio imperialista


Há 20 anos, na sequência dos eventos de 11 de setembro de 2001 de ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque, nos EUA, o PCdoB foi uma das forças políticas brasileiras que denunciou o que a proclamada Guerra ao Terror do então governo Bush filho poderia provocar de destruição pelo mundo. A política de invadir países alegando defesa e prevenção de possíveis ataques tem sido uma prática nefasta do imperialismo estadunidense nas últimas décadas e que resulta no que agora se descortina com o cenário afegão.

A guerra promovida pelos EUA e que arrastou países aliados contra o Afeganistão foi cruenta e causou a morte de mais de 170 mil pessoas. O mundo está vendo o que resultou da prometida “paz e prosperidade” após 20 anos de ocupação. Restou um país empobrecido, política e socialmente desestruturado, com 70% de sua população em condição de insegurança alimentar.

As cenas da fuga do corpo diplomático norte-americano e europeu demonstram que após duas décadas de presença no país, as forças ocidentais nunca deixaram de ser vistas como ocupadoras e intervencionistas. Hostis ao povo. Por isso, a correlação com as cenas da saída norte-americana de Saigon, ao fim da Guerra do Vietnam, é instantânea e reveladora da animosidade e revolta popular frente aos que se arvoram os donos do mundo e chegam para impor seu modus operandi, sequestrar e saquear nações que não operem em consonância com seus propósitos.

Os talibãs que expulsaram os ocidentais de Cabul foram forças outrora alimentadas e instrumentalizadas pelos próprios EUA para pôr fim à presença soviética no Afeganistão. A facção fundamentalista islâmica armada demonstrou sua capacidade de resiliência e técnica de guerra prolongada capaz de surpreender a maior força militar do planeta ao executar em dias uma tomada que se previa não ocorrer ou no mínimo demorar meses. Enquanto o exército afegão era treinado ao modo americano, seus compatriotas guerrilheiros dominavam o terreno objetiva e subjetivamente, via redes familiares, intrincados acordos tribais e penetração no interior das próprias forças armadas estatais.

Entretanto, foi possível ver nas cenas de pânico e fuga do próprio povo afegão com a chegada dos talibãs a Cabul que há também temor frente à memória do regime anterior do Talibã, entre 1996 e 2001, após a guerra com os soviéticos. Após a expulsão soviética, foi aplicada a interpretação arcaica e brutal do Islã, com punições físicas como chicotadas e amputações, por crimes como roubo. As mulheres foram isoladas em domicílio, forçadas a se cobrir com a burca e proibidas de estudar ou desenvolver qualquer atividade. O obscurantismo reinou e o povo que não comungava de sua ideologia foi brutalmente perseguido. Algo do que nenhum comunista comunga e somos os primeiros a denunciar diante da ocorrência.

Portanto, o povo afegão, ao qual nos solidarizamos ao longo das últimas décadas e cuja solidariedade reiteramos neste momento e no futuro próximo de reconstrução, vive agora o paradoxo da expulsão dos invasores estrangeiros e as profundas contradições internas inerentes a um novo domínio Talibã.

E é dentro deste cenário que se dá mais um capítulo do declínio do imperialismo estadunidense, que abandona sua Guerra ao Terror e se volta para uma guerra contra a China e de modo colateral contra Rússia, Irã e todos que se interpõem diante da manutenção de sua hegemonia. Sair do Afeganistão como se estivessem ali de passagem e sem responsabilidade pelo drama afegão foi mais uma revelação da essência do governo Biden no plano internacional.

Solidariedade e luta anti-imperialista é o que seguiremos fazendo em prol do povo afegão. Cabe a ele definir os rumos de seu país. Algo que apoiaremos sem nos furtar de denunciar violações aos direitos humanos e a promoção da desigualdade e opressão às mulheres.

Secretaria de Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

17 de agosto de 2021

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