A crescente pobreza da classe trabalhadora dos EUA


Milhões de famílias da classe trabalhadora nos Estados Unidos são tão pobres que não podem mais fazer compras em supermercados. Em vez disso, eles estão comprando comida em “lojas de 1 real”.

Kyle Dishman, morador de Ohio, disse ao Washington Post que sabe que “qualquer comida que você possa comprar por apenas um dólar não é a melhor para você”. Mas ele tem apenas 40 dólares por semana para gastar em mantimentos para sua família de duas pessoas.

Como milhões de trabalhadores, Dishman teve suas horas de trabalho cortadas desde o início da pandemia de Covid-19. Apesar do mercado de ações estar em alta, há 5,7 milhões de trabalhadores a menos empregados em comparação com fevereiro de 2020.

A Dollar General, a maior rede de lojas de 1 real dos EUA, tem 32% mais clientes do que antes do coronavírus. Espera-se que cerca de 1.650 novos pontos de venda destas lojas sejam abertos este ano.

Muitas das 34 mil lojas de 1 real estão localizadas em “desertos alimentícios”, bairros onde o supermercado mais próximo fica a pelo menos um quilômetro de distância. Isso torna mais difícil para os seus moradores comprarem frutas, vegetais e outros alimentos frescos.

Essas condições ajudam a roubar anos de vida das pessoas. Os residentes do próspero empreendimento Battery Park, na parte baixa de Manhattan, vivem em média quase 86 anos. A uma viagem de metrô de distância, na comunidade predominantemente negra e latina de Brownsville, no Brooklyn, a expectativa de vida é 11,5 anos menor.

Não há nada de novo em famílias da classe trabalhadora serem forçadas a comprar comida de péssima qualidade. Frederich Engels, companheiro intelectual de Karl Marx, descreveu o que estava disponível para os trabalhadores em Manchester, Inglaterra, na década de 1840: “As batatas que os trabalhadores compram são geralmente de má qualidade, os legumes murchos, o queijo velho e de má qualidade, o bacon rançoso, a carne magra, dura, retirada de gado velho, muitas vezes doente ou de outros que morreram de morte natural, e mesmo assim, nunca fresca, muitas vezes meio deteriorada.” (As Condições da Classe Trabalhadora na Inglaterra)

A agora falida rede de supermercados A&P foi boicotada nas décadas de 1960 e 1970 por sua comida estragada e racismo nas contratações. Ativistas seguiram um caminhão da A&P que transportava produtos estragados jogados fora por uma loja de Massapequa, no subúrbio de Long Island, Nova York, para serem vendidos no Harlem.

A comida não é o único item que os pobres e os trabalhadores mal podem pagar. Mesmo durante os períodos de “prosperidade”, milhões de pessoas compram roupas e móveis usados ​​na Goodwill ou no Exército de Salvação. Em 2019, 7,5 milhões de idosos não tinham condições de pagar os remédios prescritos por seus médicos.

Entre 2007 e 2016, os banqueiros executaram hipotecas – ou seja, roubaram – de quase 7,8 milhões de casas de famílias. Apenas em 2015, os proprietários despejaram cerca de 2,7 milhões de família.

Milhões de pessoas podem ficar desabrigadas quando expirar a proibição de despejos e execuções hipotecárias por conta da Covid-19. Temos que nos mobilizar para cancelar o aluguel e as hipotecas!

Aqueles que são expulsos de casa costumam pedir ajuda aos familiares. Entre 1980 e 2010, o número dessas famílias “expandidas” aumentou quase quatro vezes, de 1,15 milhão para 4,3 milhões.

Moradias superlotadas são um grande motivo pelo qual as mortes por coronavírus são duas ou três vezes mais altas nas comunidades negras, indígenas e latinas. No bairro de East Elmhurst em Queens, Nova York – onde Malcolm X morava com sua família –, um em cada 129 residentes morreu de Covid-19.

Trata-se de uma crise imobiliária, embora não haja falta de moradias. Os proprietários de imóveis da cidade de Nova York mantêm quase 250 mil apartamentos vazios, de modo que o aluguel permanece nas alturas. Isso é tão criminoso quanto acumular comida durante uma crise de fome. O povo unido pode assumir esses apartamentos vazios e abolir a falta de moradia.

Quase 43 milhões de pessoas devem US$ 1,6 trilhão em empréstimos estudantis. A maioria nunca será capaz de pagá-los. Essa dívida precisa ser limpa. Os salários estagnaram ou até mesmo diminuíram desde o início dos anos 1970. São necessários US$ 12,77 em julho de 2021 para igualar o poder de compra do salário mínimo federal de US$ 1,60 que foi promulgado em fevereiro de 1968.

Mas o salário mínimo federal é de apenas US$ 7,25 por hora. São US$ 5,52 roubados de trabalhadores pobres a cada hora. Se você tiver a sorte de trabalhar um ano inteiro de 40 horas semanais, o roubo de salários chega a US$ 11.481,60 – quase mil dólares por mês.

Até a Harvard Business Review admite que os salários por hora, ajustados pela inflação, aumentaram apenas dois décimos de 1% ao ano desde o início dos anos 1970. Desde então, a parcela da renda nacional para os pobres e trabalhadores caiu de quase 65% para menos de 57% em 2017.

De acordo com o Brookings Institution – um think tank do establishment –, os salários médios, ajustados pela inflação, aumentaram apenas 3% de 1979 a 2018. Mantendo a mesma taxa, os salários reais aumentariam menos de 16% em 200 anos.

A estagnação salarial – e cortes salariais para muitos trabalhadores – aconteceu apesar de um aumento fantástico na produtividade. Enquanto isso, existem 724 bilionários nos Estados Unidos, de acordo com a revista Forbes.

Os três bilionários mais ricos dos EUA – Jeff Bezos, Elon Musk e Bill Gates – possuem, em conjunto, uma riqueza acumulada de US$ 452 bilhões. Três membros da família Walton, cujos funcionários do Walmart trabalham por salários de miséria, têm uma fortuna total de US$ 181 bilhões.

Em um polo da sociedade norte-americana existem várias centenas de bilionários e, no outro, 40% das pessoas que não podem arcar com uma despesa de emergência de 400 dólares. Como isso aconteceu?

Os ricos e poderosos desfrutam de férias reacionárias desde meados da década de 1970. Uma orgia de desmantelamento de sindicatos estourou. Em 1975, Wall Street exigiu que o prefeito de Nova York, Abe Beame, demitisse 50 mil funcionários municipais.

Os sindicatos foram repelidos não tanto por greves interrompidas, mas por uma onda de fechamentos de fábricas. Milhares de fortalezas sindicais foram fechadas. Não fomos derrotados no campo de batalha. Nossos campos de batalha foram retirados.

Os trabalhadores de Flint, Michigan, enriqueceram a General Motors. Em troca, a GM fechou nove das dez fábricas de lá, empobrecendo a cidade e deixando suas crianças envenenadas pela contaminação da água potável. Os mais atingidos foram os trabalhadores negros e latinos. A renda familiar média negra no Meio-Oeste caiu 36% entre 1978 e 1982.

Em vez de jovens trabalhadores negros, indígenas e latinos conseguirem empregos nas grandes fábricas, eles foram transportados para as grandes prisões. Os 2,2 milhões de encarcerados também são trabalhadores.

A maior derrota para os pobres foi a derrubada da União Soviética socialista, que derrotou Hitler e ajudou a luta pela libertação africana. O desmembramento da União Soviética encorajou os capitalistas a nos atacar.

Agora é hora de revidar. Os 26 milhões de pessoas que exigiram justiça para George Floyd mostram que isso pode ser feito.

Fonte: Struggle – La Lucha | Tradução: Thiago Ribeiro (Revista Opera)


AUTOR
Stephen Millies

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