Luciano Siqueira: Não estamos na China, estamos no Brasil


São tantas nossas carências e tão atropeladas as vias pelas quais as novas gerações são formadas, em todas as áreas de atividade produtiva e do conhecimento, que seria um desperdício injustificável a dispensa antecipada de homens e mulheres que, embora com muito tempo de serviço nas costas, viessem a ter a sua contribuição subestimada.

– Pois é, amigo. Em nossa faixa etária você tem que matar um leão todo dia e não basta mostrar a juba, tem que divulgar amplamente nas tais redes sociais…

O comentário irônico é de um professor e pesquisador que se aproxima dos 80 anos de idade, mas se mantém ativo e influente. Inclusive realizando trabalhos de pesquisa e consultoria e publicando, assiduamente, artigos em conceituados órgãos de divulgação científica.

O tema preconceito para com idoso veio à tona numa conversa breve, em que à guisa de reencontro pós pandemia, tomamos um cafezinho e trocamos informações sobre nossas vidas e de muitos amigos comuns.

Eu lhe dei razão.

De fato, a despeito do progresso que a sociedade em geral experimenta na abordagem dos idosos, inclusive com as novas conceituações adotadas pela Organização Mundial da Saúde — na esteira da ampliação da expectativa de vida —, segue sendo o preconceito o mal maior que atinge gente que já passou dos 60 e vê os cabelos embranquecerem.

É como se no século 21, em metrópoles razoavelmente desenvolvidas, ainda se devesse preservar a imagem de antanho, do idoso afastado de suas atribuições profissionais e sociais, dedicado a atividades lúdicas ou ao passar das horas numa poltrona, a ler ou ver TV e que tais.

No ambiente doméstico, mesmo de famílias cujas necessidades materiais básicas foram satisfatoriamente resolvidas, não raro se constata a pessoa idosa submetida a constrangedor isolamento.

Está ali, mas não está ativamente presente.

Até como depositário do conhecimento acumulado pela experiência vivida já não tem tanta importância assim, pois qualquer criança se informa em tempo real consultando o Google…

Na China, em que é preciso dar oportunidade a mais de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, se adota o regime de aposentadoria compulsória para os que ultrapassam os 60 anos de idade.

Na primeira vez que lá estive, em 2005, dirigentes governamentais me disseram ser uma política de estado.

Depois, em 2007 e há 2 anos, em duas novas visitas ao gigante asiático, esqueci de conferir se essa política ainda prevalece.

Creio que sim, pois um importante diplomata com o qual me reuni por duas vezes no Departamento de Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista da China, vim a saber recentemente que se aposentara por esse critério.

Mas é claro que no Brasil seria uma impropriedade algo semelhante.

São tantas nossas carências e tão atropeladas as vias pelas quais as novas gerações são formadas, em todas as áreas de atividade produtiva e do conhecimento, que seria um desperdício injustificável a dispensa antecipada de homens e mulheres que, embora com muito tempo de serviço nas costas, viessem a ter a sua contribuição subestimada.

Vale para a área de atuação em que meu amigo professor e pesquisador está inserido; vale também, em especial, para o ambiente da luta política.

Os partidos comunistas, por exemplo, tradicionalmente valorizam, no seu lastro de quadros dirigentes, a benéfica mesclagem entre velhos e testados militantes e jovens que começam a se destacar nas porfias práticas e teóricas e ideológicas.

A necessária renovação há que ocorrer com equilíbrio e critério, evitando precipitações.

Sem necessidade dos mais antigos, à semelhança do meu amigo cientista, terem que alardear publicamente suas competências e práticas ativas atuais.

Cá com meus botões de quem segue em plena atividade e mantém amplas e diversificadas relações sociais e políticas, admito que é preciso distinguir as coisas e ter consciência de que estamos no Brasil, não estamos na China.

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