China: A Nova Economia do Projetamento e os trabalhadores, por Elias Jabbour


A China não se resume aos “idealismos transcendentais” dos marxistas acadêmicos (fetiche, dinheiro, mercadoria e alienação).

A quantidade de objetivos lançados e perseguidos pelo Estado e o PCCh desde o final da década passada demandaria um grau de racionalização do processo de produção e tomada de decisões jamais imaginada na história humana. Uma dessas tarefas têm sido o de lançar dezenas, centenas de projetos simultâneos com vistas a alcançar a fronteira tecnológica. Estava começando a cimentar um processo em que “market-based planning” deveria ser substituído pelo que chamamos de “project-based planning”.

Ao lado desses ambiciosos objetivos em matéria de fronteira tecnológica uma imensa transição já estava em curso na economia chinesa: a transição de uma economia baseada na construção, em massa, de valores de troca para outra – cada vez mais assentada em valores de uso. Antigos esquemas de organização do aparato estatal e de pessoal para a execução de tais empreendimentos deveria passar por imensa renovação. Isso significa, inclusive que o PCCh deveria se preparar para comandar esse imenso e desafiador processo. Xi Jinping chega ao poder.

Uma força política à altura dos desafios autoimpostos por si mesmo deveria se reinventar. Xi Jinping passa a moldar o PCCh ao desafio de fazer a travessia. Uma grande campanha de combate à corrupção e elevação do papel da ideologia foi iniciada. A reconstrução do PCCh tem sido essencial à emergência da Nova Economia do Projetamento na China. Trata-se de uma dinâmica de acumulação onde determinadas externalidades negativas são fatais em um ambiente de disputa estratégica e existencial com o imperialismo.

A Nova Economia do Projetamento não é uma nova dinâmica de acumulação em si baseada nas novas e superiores formas de planificação econômica surgidas no país. É a forma histórica com a qual o socialismo se apresenta diante do mundo. É socialismo! É uma ideologia! Essa ideologia busca cimentar um pacto de adesão entre povo e PCCh em torno de grandes objetivos estratégico. O combate à corrupção, a punição de grandes oficiais e o papel estratégico de uma nova e combativa classe operária têm sido fundamentais. Nada disso esconde o fato de a China ainda ser um país muito desigual e imersa em contradições de ordem social. Mas a contradição não seria um dos sentidos estratégicos da razão em um governo baseado na ciência?

Essa nova classe operária formada nos últimos dez anos passou a ter peso muito grande no bloco de poder que compõe o núcleo do Estado chinês. A resposta do Estado às greves dando ganho de causa a todos os protestos não é um dado solto da realidade, resultando em aumentos salariais médios nos últimos dez anos superior a 200% e ao combate recente à precarização do trabalho anexo aos aplicativos de entrega. Trata-se de algo fundamental. É a volta do que o pesquisador do Instituto Tricontinental, Marco Fernandes, tem chamado de “linha de massas”. Essa linha tem garantido base suficiente ao PCCh para enfrentar com ciência tanto o desafio do Covid-19 como a pobreza extrema. A política explica mais do que a economia.

Neste sentido o avançar da China a formas superiores de planificação, a elevação da base técnica da economia e o ressurgimento da “linha de massas” tem tido como contrapartida o surgimento de novas sociabilidades sob forma, por exemplo, de milhões de voluntários ao enfrentamento de grandes problemas. Desde enchentes, até os programas de combate à pobreza e a grande guerra popular contra o Covid-19. A China não se resume aos “idealismos transcendentais” dos marxistas acadêmicos (fetiche, dinheiro, mercadoria e alienação).https://googleads.g.doubleclick.net/pagead/ads?client=ca-pub-4974601214562308&output=html&h=327&slotname=3154128600&adk=2763826577&adf=4191296785&pi=t.ma~as.3154128600&w=393&lmt=1636834231&rafmt=1&psa=1&format=393×327&url=https%3A%2F%2Fvermelho.org.br%2F2021%2F11%2F12%2Fchina-a-nova-economia-do-projetamento-e-os-trabalhadores-por-elias-jabbour%2F&flash=0&fwr=1&rpe=1&resp_fmts=3&sfro=1&wgl=1&uach=WyIiLCIiLCIiLCIiLCIiLFtdLG51bGwsbnVsbCxudWxsXQ..&dt=1636834231445&bpp=12&bdt=1002&idt=442&shv=r20211109&mjsv=m202111090101&ptt=9&saldr=aa&abxe=1&cookie=ID%3D4b8a59af8dae2fa2-2285adc1557a00f8%3AT%3D1615116043%3ART%3D1615116043%3AS%3DALNI_MYuxkP5Y_zPYsMCOl8qX0Dx61BSAA&prev_fmts=393×327&correlator=6889157418616&frm=20&pv=1&ga_vid=750479018.1615116042&ga_sid=1636834232&ga_hid=762046298&ga_fc=1&u_tz=-180&u_his=1&u_h=851&u_w=393&u_ah=851&u_aw=393&u_cd=24&dmc=4&adx=0&ady=3667&biw=393&bih=661&scr_x=0&scr_y=0&eid=31062423%2C31063702%2C31060475&oid=2&pvsid=3739932873395168&pem=740&eae=0&fc=896&brdim=0%2C0%2C0%2C0%2C393%2C0%2C393%2C721%2C393%2C661&vis=1&rsz=o%7C%7CEebr%7C&abl=CS&pfx=0&fu=128&bc=31&ifi=2&uci=a!2&btvi=2&fsb=1&xpc=jjPnXiAsTW&p=https%3A//vermelho.org.br&dtd=463

Ainda tenho muito a dizer sobre a atual onda de inovações institucionais voltada a um rearranjo dos esquemas de propriedade no país. Algo que não tem nada de “onda regulatória”. É mais de fundo. É estrutural e estratégico. Estudando o 14º Plano Quinquenal na China. Dado o fato de se tratarem de milhares de projetos sendo executados simultaneamente, somente um modo de produção de nível superior, capaz de gestar formas dinâmicas de planificação e execução, é capaz de alcançar os objetivos propostos. Impossível um país comandado por um punhado de bilionários e com uma base produtiva e financeira assentada na centralidade da propriedade privada construir o que os chineses estão a construir nos últimos anos.

Voltarei a escrever sobre a relação entre o surgimento da Nova Economia do Projetamento e essas questões de fundo envolvendo a política e a ideologia. Chegou o momento de enfrentar e vencer o ceticismo e o derrotismo do marxismo acadêmico quando o assunto é o socialismo e a China

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