Sorrentino analisa luta dos comunistas e o Brasil no cenário mundial


O vice-presidente e secretário nacional de Relações Internacionais do PCdoB, Walter Sorrentino, conversou com o Portal do PCdoB sobre o cenário mundial e a posição do Brasil; a atuação do governo Bolsonaro no âmbito internacional; o Centenário do partido e as perspectivas para 2022. “Pela primeira vez no Brasil, por iniciativa do PCdoB, é possível unir vastas forças progressistas e dar-lhe dimensão eleitoral, por meio das federações partidárias. Esse é o anseio maior das forças mais avançadas do país e é uma esperança de dias melhores para os brasileiros: unir o povo e as forças progressistas numa grande corrente para construir a hegemonia de ideias avançadas necessárias às grandes transformações requeridas, com um projeto ousado e inovador”, disse Walter Sorrentino. 

Acompanhe abaixo os principais trechos da entrevista.

Política externa do Brasil sob Bolsonaro

“Foram tantas as desmoralizações do país, não é mesmo? Creio que jamais isso se evidenciou tão fortemente no mundo. As viagens de Bolsonaro ao exterior foram totalmente escapistas e diversionistas, não era o Brasil falando, mas uma excrescência de extrema-direita anticivilizatória. Aliás, isso foi reclamado explicitamente nos principais países, querendo o ‘Brasil de volta’”.

“A sabotagem à estratégia de combate à Covid-19 foi desmascarada por diversas instituições. A derrota de Trump foi mais um prego no caixão para Bolsonaro. Vastos setores econômicos e sociais do país (do agronegócio às organizações empresariais, do Congresso à academia, praticamente toda a grande mídia) fizeram ver a Bolsonaro que, pelos interesses do país, não poderíamos entrar em briga com a China, nem com o Mercosul. Presidindo e sediando o BRICS, a posição do Brasil foi uma nulidade”.

Isolamento de Bolsonaro

“O presidente e seu governo foram crescentemente isolados no plano político interno e externo. As políticas de frente ampla democrática contra a agenda da extrema-direita lograram, então, abalar a política do Itamaraty nos dois anos precedentes, um dos polos conduzidos pelo núcleo ideológico do bolsonarismo. A China, por seu embaixador, e vários dirigentes europeus, além dos latino-americanos, se manifestaram abertamente contra Bolsonaro. Biden ainda não deu sinal de graça a ele nem o convidou à mobilização pela “democracia”, mesmo que fantasiosa”.

Potencialidades do Brasil

“O Brasil, grande nação que precisa de projeção global, saindo da condição de nação semiperiférica, tem a oportunidade de utilizar as imensas vantagens estratégicas de sua economia em geral, de uma política exterior altiva e ativa, de utilizar as alavancas do BRICS, do Mercosul e do acesso ao T-MEX – acordo do México progressista e os EUA -–, e alcançar maior integração regional do subcontinente em um forte bloco econômico, alavancando o desenvolvimento soberano de nossos países. Falo mesmo em desenvolvimento soberano, objetivamente contra-hegemônico, ou seja, para nós comunistas, anti-imperialista. Essa é a condição essencial e primeira para elevar o padrão de vida de nossas sociedades e a renda de nossas populações”.

Perspectivas para 2022

“Em 2022, o PCdoB vai dar prosseguimento às linhas de trabalho em curso na área internacional, mas agora com expectativas políticas elevadas, porque melhora o ambiente político de lutas em várias partes do mundo, contra a onda senil do neoliberalismo e da neocolonização. Os países sob orientação socialista estão avançando muito e fortalecer os laços entre nossos partidos é sempre um item prioritário. Nós temos compromissos com fortes articulações do movimento comunista internacional e o Foro São Paulo, entre outros”.

“Manteremos grande empenho em acompanhar o desenvolvimento da geopolítica, a tendência à multipolaridade, por isso muita atenção ao que ocorre nos EUA e na União Europeia. E um foco especial no BRICS e no Mercosul, com vistas a que o Brasil volte a fortalecer os laços de união e integração com a América do Sul e Caribe, além de maior articulação com os países da África”.

Centenário do PCdoB

“A maioria esmagadora dos partidos comunistas do mundo é oriunda da III Internacional Comunista, criada por Lênin e os bolcheviques após a vitória da revolução soviética. Então entre 1919 e alguns poucos anos depois, criaram-se secções da IC, entre as quais a do PC do Brasil. O que quero dizer é que estamos festejando junto a muitos e muitos partidos irmãos nestes anos do século 21 e isso enseja reflexões de fundo sobre a importância da atuação desses partidos quanto às conquistas revolucionárias ou progressistas dos trabalhadores, das nações e povos, sempre com elementos em comum: liberdade, direitos, equidade social e espírito patriótico, anti-imperialista, como caminhos para o socialismo”.

Comemorações

“Nas comemorações do PCdoB, haverá a participação virtual das delegações estrangeiras e estamos pensando num evento específico envolvendo essas delegações. É um momento importante também para rememorar os 100 anos de solidariedade internacionalista que tem sido um dos fundamentos da educação dos quadros e militantes, com os trabalhadores e povos envolvidos em lutas progressistas e democráticas. Em especial, nunca faltamos ao compromisso da defesa dos países vitoriosos em revoluções de orientação socialista ou vitórias progressistas e democráticas. O mesmo, e nos orgulhamos disso, quanto à luta pela paz no mundo, marca indelével da ação dos comunistas”.

Melhora no ambiente político na América Latina

“O ciclo de governos progressistas instalado desde o início do século foi abalado por uma contra-ofensiva brutal dos EUA, mas não logrou ser desarticulado. Resistiu. Há altos e baixos, claros e escuros, mas o fato é que México, Argentina, Bolívia, o Peru recentemente, Venezuela – que a duras custas vai se estabilizando —, Nicarágua, Honduras, além da resistência em Cuba, são baluartes dessas posições. Isso sem falar da resistência crescente que se faz presente e acumula forças no Uruguai, na Colômbia, Equador e outros países do Caribe. A isso se somou o Chile: a vitória de Boric nas eleições presidenciais prenuncia os novos tempos ansiados pelos latino-americanos, por liberdades e direitos, contra o autoritarismo e por uma alternativa econômica ao neoliberalismo”.

Senilidade do neoliberalismo

“Hoje, o campo neoliberal nem sequer tem outros consensos a oferecer, como na era do Consenso de Washington no âmbito daquela globalização imperialista e cosmopolita, o que deixou uma herança maldita. E não gera nenhuma esperança para as populações. Enquanto isso, fica cada vez mais evidente que os países que melhor se situam quanto ao desenvolvimento – e o enfrentamento à  pandemia o demonstrou – são aqueles que preservaram mecanismos de regulação do Estado nacional para impulsionar investimentos públicos e abrir caminho à retomada do desenvolvimento”.

“Então, o fundo do problema é que nossos países podem, querem e devem ser países inteiramente desenvolvidos e não semiperiféricos. No Brasil e América Latina devemos falar mesmo em abrir novo ciclo civilizatório para nossas nações. Quer dizer, desenvolvimento soberano, que demanda um Estado nacional soberano, romper com a dependência e soerguer o padrão de vida do povo, eliminando a pobreza e elevando a renda do trabalho. O limite maior a isso são os interesses imperialistas, sobretudo dos EUA, que fincaram raízes nos setores econômicos hegemônicos internos de nossos países. Falo mesmo em uma corrente de patriotismo popular para novo projeto nacional de desenvolvimento, para um direcionamento ao socialismo”.

Derrotar Bolsonaro

“O fato alvissareiro em todo o mundo é que temos neste momento expectativa de derrotar Bolsonaro e perspectiva de poder nas eleições presidenciais. Mais ainda: pela primeira vez no Brasil, por iniciativa do PCdoB, é possível unir vastas forças progressistas e dar-lhe dimensão eleitoral, por meio das federações partidárias. Esse é o anseio maior das forças mais avançadas do país e é uma esperança de dias melhores para os brasileiros: unir o povo e as forças progressistas numa grande corrente para construir a hegemonia de ideias avançadas necessárias às grandes transformações requeridas, com um projeto ousado e inovador”.

Por Priscila Lobregatte

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