José Bertotti: Loucura com método


No início de 2019 assumi a responsabilidade de ser o gestor da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Em um dos despachos com o Governador Paulo Câmara, encontrei o amigo e camarada Clodoaldo Torres, figura singular da política pernambucana, eleito deputado estadual ainda jovem, quando era o presidente do combativo Sindicato dos Urbanitários. Em seu mandato, assumiu a Presidência da Assembleia Legislativa de Pernambuco e como arguto conhecedor da política e estudioso dos problemas brasileiros, deu grandes contribuições como gestor público e empresarial. Clodoaldo, por sua trajetória exemplar, passou a ser uma das minhas referências sobre conjuntura política.

Evidente que neste encontro, o assunto ‘política’ tinha que estar na pauta de nossa conversa, ainda mais quando temos a oportunidade de nos encontrar no Palácio do Campo das Princesas, espaço emblemático que presenciou momentos históricos da vida política brasileira, como a prisão do então Governador Miguel Arraes de Alencar durante o golpe de 1964. Naqueles dias, tivemos os primeiros contatos com o que veio a ser a mais desastrosa experiência de um presidente da República – Jair Messias Bolsonaro. Na época, Bolsonaro afirmou que “não ajudaria nenhum governador do Nordeste que chegasse de pires na mão em Brasília”. Deixando claro com estas palavras já naquela época que ele não tinha a mínima noção do que significa ocupar um cargo no executivo federal, nunca teve o entendimento do que significa federação, onde ninguém pede nada para ninguém. Os gestores dos diferentes níveis do Poder Executivo cumprem com os deveres atribuídos por definição constitucional e cada um tem a responsabilidade de identificar as necessidades mais prementes sob sua guarda, dialogando com todas as instituições, independentemente de coloração partidária e ideologias para cumprir suas obrigações.

Em nosso encontro, eu e Clodoaldo lembramos do comentário que já se cristalizava naquela época: “esse cara (Bolsonaro) é um louco”. Vale salientar que naquele momento ele ainda não bradava contra vacinas e nem carregava sobre os ombros o peso de mais de 600.000 mortes, para serem expiadas depois que se apurar todos os crimes de responsabilidade por ele cometidos. No entanto eu procurei elucubrar e arrisquei uma análise, nessa loucura tem um método. Nesse momento meu amigo Clodô tentou contra argumentar: “Não existe possibilidade de se estabelecer uma linha de raciocínio para esse indivíduo”, disse Clodô. Eu insisti, baseado em uma obra que havia lido recentemente, bastante elucidativa – Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli. Neste livro, identifiquei semelhanças no método adotado por Bolsonaro e seu time, que se baseiam em análises meticulosas de pesquisas diárias de opinião, com uso de dados ilegais oriundos de redes sociais carentes de maior regulamentação. Ainda em abril de 2021, comentei sobre o livro “Os Engenheiros do Caos” ao responder uma tuitada do youtuber e empresário Felipe Neto

Os dados coletados e devidamente tratados identificam como manter em setores específicos da sociedade a unidade de determinados grupos sociais com interesses legítimos ou não. Essas informações, devidamente dirigidas, tem tido a capacidade de formar verdadeiras manadas, com opiniões polarizadas, sem debater os verdadeiros problemas que nos atingem de forma mais contundente, como desemprego, fome, estagnação econômica, falta de infraestrutura, analfabetismo, mas sim de trazer à tona debates banais dos mais diferentes aspectos da vida cotidiana.

Para mim fica cada vez mais claro que Bolsonaro é o homem que está no lugar errado e na hora errada, que não tem capacidade, nem preparo, nem competência para ocupar o cargo que ocupa, mas que houve uma aposta de um grupo da elite brasileira, para usá-lo como mentor do retorno do país à precarização das relações trabalhistas e do entreguismo internacional. O método em curso não foi criado por ele, mas hoje ele continua sendo o personagem que melhor se encaixa para manter o projeto de entrega do patrimônio nacional, e pauperização da população baseada na precarização do trabalho e abstenção de qualquer tentativa de construção de um planejamento para coesionar nossa nação em busca do desenvolvimento, focado na resolução das amarras estruturais que nos levaram ao paradoxo de ser um país rico com a maior concentração de renda do mundo.

Passados quase dois anos de pandemia, Clodô hoje admite que eu tinha certa razão, mas o que de fato nos une é a certeza de que precisamos sair desse disjuntiva e retomar a opção de buscar nosso caminho próprio de desenvolvimento baseado na solução dos verdadeiros problemas que nos afligem, empregando e valorizando a inteligência e a força de trabalho de todas e todos que realmente carregam nosso Brasil.

Artigo publicado originalmente no Portal Vermelho

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