Elifas Andreato: minha arte é uma devoção e convicção


“Sou humilde, e quando faço algo me inspiro na vida. E tudo que eu fiz até hoje, fiz por convicção”. Foi como Elifas Andreato resumiu, ao Vermelho, durante alguns intervalos na preparação da festa dos 90 anos do PCdoB, no Vivo Rio (Rio de Janeiro), sua jornada pela terra até aqui.

O Portal Vermelho republica essa entrevista em homenagem a esse grande artista brasileiro falecido nesta terça-feira (29)

por Joanne Mota

Ilustração: Elifas Andreato

Nascido no Paraná, em 1946, considerado um dos mais importantes artistas gráficos do Brasil, como muitos brasileiros, Elifas conviveu com o analfabetismo, foi operário e militante político perseguido pela ditadura.

Iniciou sua carreira aos 14 anos e, sem instrução formal mas com muito talento e ousadia, tornou-se referência no meio intelectual e artístico do país por falar e retratar a realidade brasileira. E, sem nunca ter passado por um banco de escola, Elifas Andreato chegou a ser professor de Artes na Universidade de São Paulo (USP).

Contribuiu não só para a cultura nacional, mas também para o entendimento e fortalecimento de nossa identidade brasileira, e encantou com seus desenhos muitas gerações. Imprimindo uma personalidade única a cada trabalho apresentado. É possível dizer-se que não há brasileiro que, da década de 1970 para cá, nunca tenha tido contato com uma obra de arte sua: uma capa de disco (ele foi um inovador neste item), uma capa de livro, um cartaz de teatro, o cenário de uma peça ou de um show….

“A arte se liga à história da vida, da minha vida, das vidas assemelhadas à minha, e serve para contar o que entendemos que seja o mundo, a justiça, a liberdade”, resume o artista

Elifaz Andreato, que ajudou a construir a festa dos 90 anos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e, na conversa com o Vermelho, expressou sua felicidade em contribuir na construção de um país diferente e avançado. Segundo ele, sua história de luta se mistura à da militância. “Uma vida profissional dedicada ao combate”.

Leia a entrevista:

Nesse momento de festa, no qual o PCdoB completa 90 anos, como você vê sua contribuição nessa história. Que papel você tomou para compor esta peça?

Elifas Andreato: Toda a minha vida profissional foi dedicada ao combate, então a minha arte me aproxima muito do Partido. E quando isso começou? Começou lá no combate ao Regime Militar. E depois essa parceria se afinou em outras frentes, especialmente nas causas defendidas pelo Partido. Então, bandeiras como a luta pela redemocratização do país, do aperfeiçoamento desse espaço, tão importante para nós foi algo que tentei retratar na minha militância e em minha arte. Sempre atendi o que a história me convidou a fazer, sempre estive ao lado das causas que representaram a sociedade.

De onde vem sua inspiração? Como consegue colocar política em seus traços?

O Ferreira Gullar tem uma frase inspirando que pode responder a sua pergunta. “A arte só existe porque a vida não basta”. Penso que vou por aí. Todos nós de certa forma fazemos arte, ou mesmo trabalhamos com comunicação, estamos sempre enfrentando desafios. E cada novo trabalho é um desafio.

Sabendo que você atua em diferentes trabalhos, como o Elifas artista traduz suas ideias?

Bom! O Elifas artista é o cara que aprendeu a encontrar a tradução certa em uma única imagem para um conteúdo que é sempre mais importante que o meu trabalho. Eu fiz da minha arte uma devoção. E sempre que fiz arte, sempre fiz pensando, humildemente, na minha contribuição, na tradução dos acontecimentos. E sempre levando em conta que a obra maior não era minha, mas sempre dos outros. E nunca me imaginei fazendo outra coisa que não fosse o que faço.

E quando as pessoas dizem que meus desenhos possuem componentes fortes, que elas se emocionam, é porque, como um brasileiro típico, vivo nossa realidade e tento colocá-la em traços, de forma a expressar através da arte o que acontece de forma concreta.

Você falou da realidade concreta. É daí que parte sua inspiração?

Penso que a inspiração é um aprendizado, com o passar do tempo a gente descobre a maneira de fazer, os caminhos para atingir nosso objetivo. Penso que me coloco muito nas coisas que me disponho a fazer, todos os lances que compõem a minha experiência acabam compondo de certa maneira minha arte. Penso que para realizar qualquer coisa a gente tem que se entregar, tem que ter doação. Pra mim, tudo na vida depende de paixão de acreditar no que se está fazendo. E tudo que eu fiz até hoje, fiz por convicção.

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