“Voto em Macron foi barreira contra Le Pen, não endosso a seu governo”

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O cientista político Luis Fernandes avalia que as eleições legislativas de junho devem apontar para avanço da esquerda no parlamento francês, mas também uma recomposição da extrema-direita com o resultado de Marine Le Pen.

por Cézar Xavier

Os números eleitorais na eleição presidencial da França são claros sobre a polarização crescente provocada pela extrema-direita, representada pela candidatura de Marine Le Pen, do Encontro Nacional, antes, Frente Nacional. É como o cientista político e professor da PUC-RJ e UFRJ, Luis Fernandes, analisa o resultado do segundo turno eleitoral, neste domingo (24), apontando para uma recomposição do quadro partidário na França, após uma longa hegemonia dos partidos Socialista e Republicano.

Em sua análise concedida ao portal Vermelho, o professor diz que o resultado do domingo representou, do ponto de vista do resultado eleitoral, propriamente dito, “uma derrota da ameaça de extrema-direita xenófoba, racista, que estava representada no segundo turno pela candidatura de Marine Le Pen”. 

Luis Fernandes observa, entre o primeiro turno e o segundo turno, um realinhamento principal de forças de centro-direita, centro e esquerda em torno da candidatura à reeleição de Emmanuel Macron. “Essa candidatura Macron, vitoriosa no segundo turno, foi um canal possível para evitar um mal maior para a democracia na França, que era a ameaça do triunfo da candidatura de Le Pen e das forças autoritárias e xenófobas que ela representa”, considera ele. 

Números

Numericamente, na opinião dele, isso pode ser visto muito claramente. No primeiro turno das eleições, Macron teve 27,8% e atingiu no segundo turno 58,8%, ou seja, houve um deslocamento de 31% do eleitorado francês, que não havia votado em Macron no primeiro turno, para a sua candidatura no segundo turno, “fundamentalmente para barrar a ameaça representada pela candidatura da Le Pen”.

Ao passo que a candidatura da Le Pen, que havia obtido 23,2% dos votos no primeiro turno, ampliou sua votação em 18%, ou seja, chegando a 41,2%. “Portanto, o deslocamento que houve do eleitorado francês foi majoritariamente para Macron. 31% para Macron versus 18% para Le Pen no segundo turno”, avalia.

Assim, o que se verificou foi um voto de barreira, de acordo com as contas de Luis Fernandes. “Um voto de contenção da ameaça que era representada por essa extrema-direita xenófoba e racista, expressa na candidatura Le Pen”.

Resultado do primeiro turno mostra como esquerda se recompôs no segundo turno para derrotar Le Pen. PS e LR, partidos hegemônicos, até então, tiveram resultados pífios.

Recomposição de forças

Mas Luis Fernandes sugere algumas reflexões mais amplas, do ponto de vista desses números. A primeira, é que, apesar de derrotada eleitoralmente, essa extrema direita francesa vem se fortalecendo em relação à eleição anterior, que também opôs Macron a Le Pen.

Ele havia obtido cerca de dois terços dos votos, contra um terço dela. Ou seja, houve um aumento da votação de Marine, de 33,5% para 41,2%, nesse segundo turno, e houve um recuo da votação em Macron de 66,5% na eleição anterior, para 58,8% agora no segundo turno de domingo.

“Assim, apesar de derrotada eleitoralmente, o processo sinaliza um fortalecimento desse polo de extrema-direita na França, assim como vem acontecendo em outros países da Europa”, pontua o analista.
A França terá em junho suas eleições legislativa e Luis Fernandes acredita que assistiremos uma recomposição do quadro partidário francês. Isso, porque as forças políticas tradicionais da França, no caso, o Partido Socialista e os Republicanos, que dominaram a vida política francesa durante a maior parte do pós-guerra, “estão praticamente em frangalhos”. “Seus candidatos tiveram votações pífias, não chegando a 2% dos votos”, observa.

O professor é otimista em relação ao resultado de Jean-Luc Mélenchon para a esquerda francesa. “Tende a haver, para as eleições legislativas, um processo de recomposição das forças de esquerda, lembrando que a candidatura do Mélenchon, ficou apenas 1% atrás de Marine Le Pen, no primeiro turno das eleições francesas”.

Então, por pouco, de acordo com a análise dele, não houve uma candidatura de esquerda se contrapondo à candidatura centrista de Macron. “Foi por muito pouco. Acho que haverá uma recomposição dessas forças de esquerda, agora visando as eleições legislativas, de onde emergirá uma composição do parlamento francês que elegerá o primeiro ministro da França”. 

Como o regime da França é uma espécie de semi-presidencialismo, onde o parlamento tem muita força e a chefia do governo é exercido pelo primeiro-ministro eleito pelo parlamento, ele acredita que esta eleição será uma das mais importantes para o país.

Mas ele também admite que tenderemos a ver uma recomposição das forças de extrema-direita, a partir do relativo sucesso de Marine Le Pen nessa disputa. “ Outros candidatos extremistas de direita que chegaram a ameaçar ficar na frente da candidatura de Marine Le Pen, sendo ainda mais extremistas do que a própria candidatura dela, tendem agora a recompor essas forças para tentar participar de forma mais unificada, com mais peso, voz e força nas eleições legislativas de junho na França”, diz. Ele refere-se, por exemplo, o grosseiro extremista de direita Éric Zemmour, que com seus mais de 7% dos votos ficou em quarto lugar na disputa. 

Isso tudo torna a eleição legislativa de junho uma eleição muito importante, a ser observada com atenção, porque assistiremos uma recomposição do quadro partidário francês. “É possível que a esquerda se apresente com mais força, mas também é possível que a extrema-direita se reorganize e apareça com muita força para disputar o Parlamento”.

Crise de representatividade

O cientista político também destacou o alto grau de abstenção, nessa eleição, que cresceu em 3% atingindo o maior grau. O voto na França não é obrigatório, portanto, depende de mobilização política, vontade para participar, explica ele, o que também reflete um certo desencanto com as alternativas que se apresentaram no segundo turno.

Ele lembra que as candidaturas de Macron e Le Pen, juntas, tiveram metade dos votos lançados a candidatos no primeiro turno das eleições desse ano na França.

“Há uma espécie de crise de representatividade também em relação próprio governo Macron. Ele ganhou muito mais ancorado no voto que visava impedir o triunfo da extrema direita, do que um endosso de sua plataforma, que é essencialmente liberal ou neoliberal na economia, e vem acarretando graves problemas sociais e econômicos, e muitos protestos que marcaram toda a sua gestão”, descreve Luis Fernandes.

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