Seminário mostra que Partido Comunista sempre avalia sua trajetória no tempo

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Neste sábado (14), o PCdoB, por meio da Comissão do Centenário, e a Fundação Maurício Grabois promoveram a segunda mesa do Seminário “PCdoB centenário e contemporâneo”. Realizado de forma híbrida, na sede do Partido em São Paulo e pelas redes sociais, o evento faz uma reflexão sobre a trajetória de um século de lutas da legenda comunista, bem como sobre as batalhas que trava no presente para restaurar a democracia, retomar o desenvolvimento e garantir vida digna ao povo.

A mesa realizada no período da manhã teve como tema O PCdoB nos ciclos da história. Da fundação à atualidade. O escritor e ex-senador da Itália, José Luiz Del Roio, falou sobre a Fundação do Partido. Ele descreveu a personalidade e trajetória fundamental de Astrojildo Pereira, o principal articulador da fundação; os grupos comunistas que realizaram a arregimentação nos estados para a viragem da corrente anarquista para a comunista; e os primeiros anos da atuação partidária.

Seu relato minucioso da trajetória de Astrojildo revela um esforço e genialidade que foi capaz de alavancar o Partido a um patamar muito acima daquele que teria, não fosse ele. Seu olhar atento ao que acontecia na Rússia e Europa estava além das possibilidades da maioria dos trabalhadores analfabetizados e da precariedade da informação recebida pelos anarquistas. 

“Ele escrevia como um louco explicando quem é Lenin, Trotsky, Bukharin, e consegue convencer 76 pessoas de todo o país a montar o partido. Ele queria fazer parte da internacional comunista e mandou o Bernardo Canelas de Paris para Moscou para mostrar que eles existiam, atravessando guerra civil na Rússia”, relata Del Roio. 

Ele cria a escola de partido, funda o jornal A Classe Operária e cria a juventude comunista e a revista da Juventude Operária e funda a central sindical, CGTB. “O que Astrojildo faz é infernal. Ele que vai na Bolivia, leva livros marxistas a Luis Carlos Prestes e o conduz ao Partido Comunista. Tudo tinha a mãozinha de Astrojildo”.

Em seguida, o professor aposentado da Unicamp e dirigente nacional do PCdoB, filósofo João Quartim de Moraes mostrou que o comunismo chegou ao Brasil antes do marxismo. A construção da corrente revolucionária de matriz marxista, atuou a partir da tradição das lutas brasileiras, das orientações da Internacional Comunista e, a seguir, interpretou o Brasil a partir do marxismo.

Quartim destacou a conjuntura em que Agrarismo e Industrialismo, de Otávio Brandão, foi escrito e sua importância para o futuro do pensamento desenvolvimentista brasileiro. Ele descreveu as particularidades da formação do pensamento revolucionário no Brasil, principalmente desta sobre o papel do positivismo de esquerda na formação do partido.

A professora e historiadora Marly Vianna diz que, numa leitura superficial, erramos muito, ma numa leitura da história do Brasil, da época e da sociedade brasileira, esses pioneiros da fundação do marxismo só têm que ser louvados. “Deram seu sangue e coração para o que havia de melhor na sociedade brasileira”. 

Diz-se que o erro era a falta de base teórica, numa sociedade com maioria de analfabetos e com poucas publicações. Mas ela admite que o caráter da revolução brasileira não é enfrentada nos congressos, no entanto, não tinham base segura no movimento operário. 

Num país imenso, numa sociedade atrasada culturalmente, O Capital (Karl Marx) foi traduzido cem anos depois, em 1968, enquanto na Argentina foi traduzido um ano depois de ser publicado.

Marly indaga que, apesar de Lênin falar da importância da aliança operário-camponesa, sem nenhuma proximidade com a burguesia, como pensar uma aliança assim no Brasil? “Tínhamos meeiro, parceiro, morador, lavrador espalhados pelo Brasil inteiro. Só no sul fomos ter camponeses, depois. A realidade do Brasil era buscar a aliança com as camadas urbanas e operárias”. 

“Eram os tenentes que apareciam como o grupo possível de fazer aliança”. 

“Os anarquistas odiavam as eleições”, diz ela sobre a importância de Astrojildo usar as eleições para fazer o Partido aparecer por meio da criação do Bloco Operário Camponês. 

Mas no final dos 1920, o Partido quase se dissolve. No início dos anos 1930, a influência dos tenentes vai ser muito grande até os anos 1980, com a maior parte da executiva do PCB sendo a mesma que vem de 1935. Marly faz alguns comentários sobre os anos posteriores, com seus erros e acertos, a partir das oscilações que ocorrem nas decisões diante das turbulências que tomam o mundo até 1945.

Entender essas questões, segundo ela, é importante para ter claro que não se tratava de “um bando de palermas ou heróicos sempre”. Na opinião dela, conseguiram extrapolar seus limites teóricos em vários momentos. Sem falar, que ela considera que os críticos desprezam a violência da classe dominante brasileira, indisposta a admitir qualquer concessão e disposta a golpes e ditaduras a todo momento. “É a brutalidade e violência na sua mais alta potência”.

Para piorar, ela conclui que, até a década de 1970, entrávamos nas favelas, “mas, hoje, se as milícias e evangélicos não permitirem, não entramos”.

Fernando Garcia, que é historiador e coordenador do Centro de Documentação e Memória — CDM, comentou como as efemérides do 25 de março foram capazes de produzir sínteses históricas fundamentais para a compreensão da história do Partido e orientar seus rumos.

Através destas sínteses é possível distinguir seis etapas da história do PCdoB. Ele comenta a importância dos documentos dos 30 anos, em 1952, publicado em A Classe Operária, de 5 de abril, com um roteiro cronológico para a história do PCB. É um documento que sistematizou as grandes lutas que antecederam a fundação do Partido, quando não havia livros ou revistas sobre isso.

Na reorganização de 1962, houve uma elaboração sobre política e tentativa de tirar lições da história. Mais madura que 1952, mas se deparava com a cisão. 

É em 1972 que foi elaborado, em plena clandestinidade, o documento que se tornou obrigatório para recrutamento de militantes, até a década seguinte. Entre os 60 e 70 anos, o Partido já fazia as aparições públicas. Em 1982, Fernando conta que já havia orientação para um curso de recrutamento militante. Já houve um ato no Sindicato dos Jornalistas com João Amazonas, Barbosinha e Aurélio Peres, com uma faixa que dizia: Viva os 60 anos de luta do partido da classe operária!

Em 1992, houve também um artigo de Amazonas, “70 anos do partido que se tempera na luta”, com um tom autocrítico, com foco no fim da URSS, período de crise e análise das perspectivas com a queda do muro de Berlim, após o 8o. Congresso.

Em 2002, o aniversário foi comemorado em meio a uma campanha eleitoral contra um governo neoliberal desgastado, com possiblidade de chegar ao governo central por via eleitoral. O PCdoB se propunha unir o povo e a oposição para instaurar um governo de reconstrução nacional.

“Os documentos de efeméride de 25 de março são a própria história em movimento”, diz o historiador.

Sobre o documento de 2022, ele observa que a história centenária foi revisitada, a partir de um ponto da atualidade, mas sem incorrer em anacronismos. O documento atual inclui a história pouco proclamada da participação das mulheres no Partido e as políticas sobre mulheres. Pela primeira vez, se fala de militância de mulheres e suas organizações fundadas, assim como publicações como a revista Momento Feminino, além da 4a Conferência, “que ficava na sombra”, mas tratava justamente sobre o trabalho feminino no Partido.

O documento atual também menciona a luta antirracista, já que o Partido sempre teve larga parcelas de negros e negras em suas fileiras. Nos anos 1930, esses militantes participaram de congressos que expulsaram do movimento as correntes racistas que imputavam aos negros a miséria no Brasil. Claudino Jose da Silva, operário perspicaz, foi eleito deputado constituinte em 1945 e chegou a propor a lei de punição ao racismo, antes de Afonso Arinos.

Além disso, o documento trata largamente das questões sindicais, que foram matriz de maior energia política e programática, e fundamental na luta de classes.

Cada documentos elaborado naquelas efemérides colocam o seu tempo presente, na opinião de Fernando, um cunho ideológico de coesão e amálgama político de conhecimento e autoconhecimento que se veem refletidos na história.

A mediação da mesa foi feita por Madalena Guasco Peixoto, diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP.

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