João Policarpo Rodrigues Lima e Abraham Benzaquen Sicsú: A Desglobalização e o Mercosul, a Oportunidade da Inserção de um Bloco Periférico



A queda do Muro de Berlim, em 1989, levou muitos especialistas a acreditarem que estávamos numa fase nova, em que o Mundo se tornaria unipolar, em que a hegemonia americana seria inquestionável, em que as relações econômicas gravitariam em torno das lógicas definidas pelos Estados Unidos. Acreditava-se que a globalização se exacerbaria que as vantagens competitivas se baseariam fundamentalmente em aspectos econômicos, em relações quase marshallianas, e que a inserção internacional se daria apenas pela diminuição de custos e otimização de processos.
Poucos puderam antever o surgimento da China como contraponto a esse cenário que se afigurava. China que, ainda na lógica econômica, viria a alcançar escalas inimagináveis para a produção, para a estruturação de novas cadeias de suprimento que ameaçavam a hegemonia mundial e, no mínimo, apontava para um mundo bipolar.
Associado a esse movimento, aflorou um novo processo que modificou o panorama mundial. Uma revolução tecnológica que apontava para processos extremamente transformadores. A Manufatura 4.0, a nova matriz tecnológica dá sinais de consolidação. Mesmo antes da pandemia. Se tínhamos claro, ainda na década de 70 e 80 do século passado, que a microeletrônica seria o alicerce da nova matriz produtiva que se configurava, o decorrer dos anos e o início do século XXI mostra que isso se amplia em demasia. Uma convergência de novos campos tecnológicos se apresenta: novos materiais surgem, a nanotecnologia se aprofunda, a biotecnologia passa a ser a base da agricultura moderna, novas fontes de energia vão ganhando espaço, entre outros. O Complexo Tecnológico transformador ganha maior abrangência. Esse aponta para um perfil de crescimento diferenciado daquele que apontava simplesmente a microeletrônica. Automação, controles e interconectividade são sua lógica, seu modelo dinâmico de produção. Essa lógica será a base dos investimentos mais significativos nos próximos anos e, portanto, do processo de desenvolvimento e inclusão num mundo extremamente competitivo.
De uma maneira bastante esquemática, pode-se dizer que o mundo globalizado, foi fracionado. Não há apenas o fator econômico como determinante da lógica de integração. Três grandes blocos, sob liderança de Estados Unidos, China/Eurásia, inclusive Rússia, e Alemanha vão se estruturando. Nesse mundo, existem outros fatores geopolíticos como determinantes da integração. Não só os aspectos econômicos são considerados. Segurança no suprimento, alianças políticas, nacionalismos e identidades de povos e nações, dentre outros, passam a ter importância na articulação inter nações. A própria guerra entre Rússia e Ucrânia aponta para isso. Uma nova configuração nas relações internacionais.
Discutir esse mundo é complexo, não é nossa intenção fazê-lo neste breve texto. Nossa preocupação aqui é entender como um Bloco periférico, o Mercosul, que tem fortes relações com duas potências hegemônicas, China e Estados Unidos, mas nitidamente na área de influência deste último, pode desempenhar papel relevante nessa nova configuração.
Cabe ressaltar que são necessárias pontes entre os diferentes blocos. Regiões que lhes permitam interagir de maneira fluida, sem grandes turbulências. Evidentemente, aspectos políticos e econômicos podem dificultar esse processo, e essas articulações. Porém há que serem encontradas regiões que melhor desempenhem esse papel e façam as conexões que serão indispensáveis.
Nesse cenário, a existência de Blocos periféricos pode ser relevante e estratégico. Blocos que tenham relevância política e econômica e onde as articulações entre países permitam escalas para inseri-los nas cadeias globais de suprimento. Não apenas como produtores de commodities, mas, inclusive na nova matriz tecnológica que se configura. Blocos em que políticas comuns permitam ampliar escalas e aproveitar nichos em construção, ou que ainda permitam a inserção de competidores globais, por diferentes lógicas, inclusive a de segurança no suprimento.
Nesse contexto, ressurge a relevância do Mercosul como Bloco. Embora mais na área de influência estadunidense, tem importantes articulações com o mundo oriental. Há aqui a possibilidade de uma maior integração e pode o mesmo ser um elo de ligação importante entre esses dois mundos que se digladiam. Políticas comuns podem dar consistência e solidez ao Bloco.
Evidentemente, mudanças são necessárias para viabilizar tal inserção. Não só nas políticas atuais de integração, bastante fragilizadas, mas também nas posturas requeridas para uma nova inserção mundial. Novos fatores surgem como pré-requisitos para consolidar o desenvolvimento. Regras éticas passam a ser decisivas nas relações internacionais. Valorizar a sustentabilidade, em detrimento do crescimento a qualquer custo, respeitar a diversidade e os direitos das minorias e maior igualdade de gênero. É básico ter esses princípios como norte.
Nesse quadro, é mais uma janela de oportunidades que se fechará, caso não revertamos a dinâmica desenhada para as políticas do Bloco, em particular as de Ciência, Tecnologia e Inovação. Esse é o cenário que pode ser previsto, caso não haja modificações significativas na falta de investimentos, de inovação, de crescimento e, consequentemente, de desenvolvimento.
Os atuais modelos de gestão do Bloco terão que incluir o Planejamento do Futuro como algo importante, alicerçado por uma visão ambientalista e tendo como mecanismos de consolidação, os avanços da mente humana, que se concretizam na tecnologia e na inovação.
O contexto mais recente das relações políticas e econômicas mundiais é indicativo de uma nova conformação das chamadas cadeias produtivas globais. Episódios como a pandemia covid-19 e a guerra Rússia x Ucrânia desnudaram as vulnerabilidades para os membros periféricos, principalmente, das cadeias produtivas globais alicerçadas nas enormes economias de escala postas em prática na China e países asiáticos. Vulnerabilidades essas que já estavam sendo alvo de correções de rumos com políticas protecionistas, diga-se de passagem, antes dessa ocorrência. Como se sabe, na pandemia de covid 19 até mesmo países desenvolvidos (na União Europeia e os Estados Unidos) sentiram o golpe de ficarem sem suprimentos de peças e componentes, ou mesmo de produtos finalizados. Foi o caso inclusive de produtos sem grandes sofisticações tecnológicas como suprimentos hospitalares, seringas e máscaras, que se tornaram difíceis de adquirir nos mercados locais por terem suas cadeias de fornecimento baseadas na Ásia, mais apropriadamente falando, na China.
Num mundo globalizado, onde o discurso do livre mercado deu liberdade e pavimentou o caminho para as deslocalizações industriais na direção de países e regiões com menores custos de produção, não só de mão de obra, diga-se, poderia soar como heresia semelhante proposição. Ocorre que as pressões e contrapressões postas por essa ordem globalizada estão indicando que o bloco formado pela China e países asiáticos, onde a Rússia também está inserida, ameaça planos de manutenção de hegemonia presentes nos Estados Unidos e em alguns países, em menor grau, como a Alemanha, Reino Unido ou França. Com isso, já podem ser vistos movimentos geopolíticos e de política econômica de matriz keynesiana e protecionista, que têm a pretensão de recolocar nos trilhos destes países atividades industriais em declínio, que foram deslocalizadas por razões de custos de mão de obra e de escalas.
Tendo esse movimento em mente, podemos pensar que países e blocos de nível intermediário de desenvolvimento possam também planejar, articuladamente com o capital privado doméstico e externo, a adoção de políticas industriais em determinados segmentos onde as escalas não são tão cruciais, ou onde os mercados internos atuais e futuros permitam que ganhos de escala também lhes sejam favorecedores, pensando também em atender os mercados externos. Voltamos aqui à discussão bastante presente na literatura do desenvolvimento econômico, que recomendava tratamento preferencial protetivo às “infant industries”, ou ao que se chamou de políticas de industrialização via substituição de importações, ou ainda políticas desenvolvimentistas. Mesmo que soem como heresias aos ortodoxos e filiados ao mainstream econômico.
Afinal, depois de algumas décadas de neoliberalismo, o capitalismo contemporâneo não logrou a esperada e apregoada melhoria generalizada de condições de vida, particularmente na periferia. Assim, propor políticas desenvolvimentistas parece em sintonia com o que estão fazendo, velada ou abertamente, os países desenvolvidos. Como fica cada vez mais nítido, nesses países articulam-se frações relevantes do capital doméstico com os Estados Nacionais para tentar recuperar atividades, industriais principalmente, que foram perdidas com a globalização. No nosso caso, os interesses rentistas dos capitalistas nacionais são entraves previsíveis. Porém, o quadro geral de estagnação e de desemprego é um desafio, que precisará ser enfrentado politicamente e com alternativas econômicas factíveis para que se possa avançar com políticas industriais e tecnológicas que levem a patamares mais elevados de padrões de vida.
Entendemos que o Mercosul tem um papel até certo ponto privilegiado para sediar elos importantes das cadeias produtivas mundiais pela sua proximidade com os Estados Unidos e pelas relações já bem estabelecidas com a China. Como é um mercado de relativa importância, pode atrair o interesse de empresas chinesas e americanas, mas não exclusivamente, contando ainda com a disponibilidade de recursos naturais e de mão de obra, que facilitam esse papel. Com as tendências de desglobalização em curso, o Mercosul pode, portanto, ser mais e melhor aproveitado pelos seus países membros. Para isso há que serem restabelecidos e concertados os vínculos políticos e econômicos ora em desalinho.
No entanto, torna-se relevante entender que essa inserção não se daria da forma que vinha ocorrendo nas décadas anteriores. A revolução tecnológica da Manufatura 4.0 e as crises da pandemia e da guerra do leste europeu apontam para perfis diferenciados nas cadeias globais de produção. A visão da hiperglobalização e o papel dos países periféricos centrado basicamente na produção de comodities passam a ser relativizados, sem perder importância, todavia. Nesse sentido, a busca de nichos que os coloquem como produtores de manufaturados e serviços, na nova matriz produtiva, assume papel estratégico. Nessa direção, o fortalecimento dos Blocos, incluindo o Mercosul, dá maior consistência e competitividade às suas economias. Por um lado, a proximidade ganhou importância, por outro lado, há espaços, desde que com escalas adequadas e com facilidades para superar barreiras tarifárias e não tarifárias, que abrem perspectivas de integração. É nesse contexto, dada as características históricas que os países do Bloco têm de integração com os hegemônicos, com confiabilidade e superando barreiras, que se vê fortes possibilidades para o Mercosul como Bloco Ponte e como supridor em escala mundial.
Essa estratégia se consolida, certamente, na articulação geopolítica dos países do Bloco, atuando em conjunto e exercitando assim um maior poder de barganha, que pode trazer benefícios para uma nova regionalização das cadeias produtivas de forma mais favorável aos países do Mercosul. Com isso e com o fortalecimento tecnológico poderá ser possível incorporar à economia formal parte do vasto contingente de mão de obra disponível no Brasil e ainda reforçar o suprimento local. Pensar o Mercosul como uma vantagem fundamental e atuar com políticas e com um novo planejamento, que favoreçam o seu reforço é, pois, estratégico para seus países membros.

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