A. Sergio Barroso: Dez minutos para acabar com o capitalismo¹

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Este breve artigo é um roteiro que preparei para debate na semana do VII Salão do Livro Político, “Crise estrutural agravada com a pandemia: capitalismo em diagnósticos e possibilidades”, com os professores Sofia Manzano e Daniel Feldman. O tempo seria, também, de 10 minutos. Por razões técnicas não consegui participar.

A metáfrase intituladora – ou se se quiser, a paráfrase – relembra o importante teórico marxista francês Jean Salem (1952-2018) que, instado num debate a falar em 10 minutos (!) sobre a atualidade do marxismo, teve a perspicácia de expor 10 tópicos sobre a complexa temática, assim nomeando-a. Pois bem, copio aqui a ideia e exponho sobre o tema em dez pontos, na mesma certeza da impossibilidade de liquidar o capitalismo “em dez minutos”!

1.A tabela [2] abaixo revela novo rebaixamento do crescimento econômico mundial, anteriormente estimado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em 3,6%, para 3%. Pelo que apresentamos a seguir, muito provavelmente é um número ainda superestimado. Após a ‘resposta’ à depressão pândemica (-3,5%; FMI), em 2021 (5,6%; OCDE) é visível a tendência estagnante no centro e na periferia.

2. Especialmente porque a economia dos Estados Unidos, que sofreu uma retração de 0,4% no primeiro trimestre deste ano, deve caminhar celeremente para uma nova recessão, nesse segundo semestre, com o sabido impacto global. A inflação cravou 8,5%, a taxa de juros foi para 0,75%, a maior alta em quase 30 anos! Recentemente, anunciou-se ter havido ali retração de 1,6% no segundo trimestre.

3. Com efeito, EUA e da Europa já tiveram forte desaceleração agora, em junho, tendo sido de 0,2% no segundo trimestre na EU (União Europeia); e dados eloquentes mostram que a disparada dos preços de energia e alimentos enfraqueceu mais ainda a demanda por outros bens e serviços. Os novos números sobre a atividade industrial e de serviços (PMI) ressaltam como o cenário se tornou sombrio na Europa e nos EUA. E a produção industrial nos EUA e EU tiveram queda mais drástica dos últimos dois anos. Como o FT (Financial Times) colocou em um editorial na segunda semana de junho: “a escolha é a estagflação ou a depressão deflacionária”.

4. Distintamente, no primeiro trimestre, na China a produção industrial avançou 7,5% em janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período do ano anterior, num ritmo mais forte desde junho de 2021; tendo havido avanço de 4,3% em dezembro, de acordo com a Agência Nacional de Estatísticas. No entanto, é óbvio que a China sofrerá o impacto de desaceleração mundial e da crise.

5. Conforme análise recente da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), estima-se – rebaixando – um crescimento regional médio de apenas 1,8% do PIB para 2022. E, se o FMI afirmou que 75 milhões de pessoas mergulharam na pobreza extrema, no final de 2021, para a CEPAL assim vem se avolumando especialmente o crescimento dessa pobreza absoluta:

Ainda para a CEPAL, para 2022, e em concordância com a desaceleração esperada no ritmo de crescimento da região, é previsto que o ritmo de criação de emprego seja reduzido; havendo certa confluência de uma maior participação no mercado de trabalho e de um baixo ritmo de criação de empregos, é certo que ocorrer um aumento da taxa de desocupação durante este ano. [3]

6. Nesse quadro global, Nouriel Roubini afirmou que a perspectiva de médio prazo vem a ser “a de uma longa noite escura”. Segundo pensa, há muitas razões para supor que a estagflação atualmente presente irá continuar a caracterizar a economia global nos próximos anos, produzindo inflação alta, baixo crescimento, com possíveis recessões em muitas economias. Argumenta ele: “Hoje, enfrentamos choques de oferta em um contexto de níveis de dívida muito mais altos, o que implica que estamos caminhando para uma combinação de estagflação ao estilo dos anos 1970 e crises de dívida ao estilo de 2008 – ou seja, uma crise de dívida estagflacionária”. [4]

7. Simultaneamente à ruptura global das cadeias de suprimento, fenômeno catapultado pela pandemia do Covid19, Pierre-Olivier Gourinchas, atual economista-chefe do FMI, descreve uma súbita mudança geopolítica que “revela falhas ocultas”. Ele alerta para um mundo se fragmentando em “blocos econômicos” distintos com “diferentes ideologias, sistemas políticos, padrões tecnológicos, sistemas de pagamento e comércio transfronteiriços e moedas de reserva”. [5]

8. Conforme Michel Roberts, em resumo, esse quadro se caracteriza por desaceleração do crescimento, aumento da inflação e juros subindo, retorno financeiro caindo; já patente o aumento do risco de inadimplência, e pela guerra. Imaginando estarmos numa terceira época na história da ordem econômica global do pós-guerra, já Martin Wolf afirma que estamos agora entrando em “uma nova era de desordem mundial”. “É possível – talvez até provável – que o sistema mundial se desfaça”, conclui ele, concentrando seus argumentos nos trambolhos gigantescos do atual comércio mundial.[6]

9. Para nós – reafirmemos -, o conceito de crise(s) em Marx encontra-se essencialmente no Livro 3 de “O capital”, quando afirma que, “Estas são sempre apenas violentas soluções momentâneas das contradições existentes, erupções violentas que restabelecem por um momento o equilíbrio perturbado”. [7] Ou ainda, como escreveu com clareza meridiana em “Teorias da mais-valia”: “Não há crises permanentes… [mas] quase regular periodicidade das crises no mercado mundial”. [8] Há muito, pois, desmoralizadas – embora persistam – as teses de marxólogos e neotrotskistas que a cada crise gritam haver “ocaso” do sistema capitalista. Porque não se pode falsear, 1) a constituição e a dinâmica do modo de produção capitalista em suas singularidades abstrata e concreta; e mais ainda, que: 2) a finitude desse modo de produção tem como prerrogativa a sua superação política e social, e não a partir de seus impasses econômicos recorrentes.

10. Finalmente, se discordamos enfaticamente das ideias contidas no discurso (pós-crise 2007), marcando data da chegada dos “limites históricos” do capitalismo, sustentamos que maior instabilidade e incerteza, agravamento das tensões geopolíticas, novas “bolhas financeiras” e muito especialmente tecnológicas estão sim a apressar a necessidade de sua superação sociopolítica e econômica. O caráter histórico – e lógico – do regime do capital, suas contradições e iniquidades dilacerantes clamam pela transformação radical de sua própria sociabilidade mistificadora, fabricante de riqueza – e de zumbis. [9]

NOTAS

1] Trata-se do título do Posfácio de Jean Salem, no ótimo “Lenin e a revolução”, São Paulo, Expressão Popular, 2008. Para conhecimento do autor, segue um interessante ensaio de Salem. https://www.odiario.info/marxismo-uma-filosofia-da-praxis-para/

2] Ver: https://sinpermiso.info/textos/las-tijeras-de-la-depresion, de Michel Roberts.

[3]  Aqui: https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/desaceleracao-america-latina-caribe-se-aprofunda-2022-espera-se-crescimento-regional-18

[4] Ver: https://www.project-syndicate.org/commentary/stagflationary-debt-crisis-by-nouriel-roubini-2022-06, de Nouriel Roubini.

[5] Veja aqui a nova linha de argumentação do FMI: https://blogs.imf.org/2022/05/22/why-we-must-resist-geoeconomic-fragmentation-and-how/ . As consequências e a posição – e suposições – do governo Biden estão no esclarecedor artigo de Lecio Morais: https://renatorabelo.blog.br/2022/05/30/lecio-morais-janet-yellen-e-a-proposta-de-novo-acordo-breton-woods-2/ 

[6] Ver: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2022/06/em-uma-era-de-desordem-o-comercio-aberto-esta-em-risco.shtml. Mas, a questão de fundo foi assim interpretada pelo presidente russo Vladimir Putin: “Quando falei no Fórum de Davos há um ano e meio, também salientei que a era de uma ordem mundial unipolar chegou ao fim. Eu quero começar com isso, pois não há maneira de contornar isso. Esta era terminou apesar de todas as tentativas de mantê-la e preservá-la a todo custo”. (passagem do longo discurso realizado no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, 17 de junho).

[7] Ver: “O Capital”, Livro, III, São Paulo: Boitempo, 2017, p. 288.

[8] Ver: Teorias da Mais-Valia, K. Marx, vol. II, São Paulo, Difel, 1983, pp. 932-33.

[9] Os tópicos 9 e 10 estão em nosso estudo “Uma economia política da grande crise capitalista [2007-2017]. Ascensão e ocaso do neoliberalismo”, São Paulo, Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois/Edufal, 2021, especialmente nas pp. 35 e 174.

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