Moacyr de Oliveira Filho: 22 centenários da alma brasileira


2022 é um ano simbólico. Um ano em que se comemoram importantes centenários de eventos e pessoas que ajudaram a moldar a alma brasileira. Na política, na literatura, no teatro, na música, no futebol.

A começar pelo Bicentenário da Independência, nossa certidão de nascimento como Nação, que se comemora nessa quarta-feira, 7 de setembro.

Cem anos depois, em 1922, vários episódios importantes aconteceram e inúmeras personalidades vieram ao mundo, e, este ano, comemoram seu centenário.

Para registrar essas datas, escolhemos 22 centenários, que se comemoram em 2022, e que ajudaram a forjar a alma brasileira, começando pelo Bicentenário da Independência.

Além dessa data, 2022 marca o centenário da Semana de Arte Moderna, que forjou as bases da literatura modernista, rompendo com os padrões estéticos europeus. Realizada de 13 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana reuniu diversas apresentações de dança, música, recital de poesias, exposição de obras – pintura e escultura – e palestras.

Os artistas envolvidos propunham uma nova visão de arte, a partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias. Juntos, eles buscavam uma renovação social e artística no país. O evento chocou parte da população e trouxe à tona uma nova visão sobre os processos artísticos, bem como a apresentação de uma arte “mais brasileira”. Houve um rompimento com a arte acadêmica, contribuindo para uma mudança estética e para o Movimento Modernista no Brasil.

Mário de Andrade foi uma das figuras centrais e principal articulador da Semana de Arte Moderna de 22. Ele esteve ao lado de outros organizadores: o escritor Oswald de Andrade e o artista plástico Di Cavalcanti.

Esse ano se comemora, também, o centenário de fundação do Partido Comunista do Brasil, berço de praticamente todas as lutas políticas e sociais do Brasil, que atuou a maior parte de sua existência na ilegalidade, passou por várias divisões internas, mas se manteve vivo e sempre em atividade na defesa da democracia, da liberdade e do socialismo.

O Congresso de fundação do Partido foi realizado no Rio de Janeiro e em Niterói, nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922. O Partido tinha apenas 73 membros inscritos, espalhados pelo Brasil. Destes 73 membros filiados, compareceram ao Congresso apenas nove delegados. Participaram do encontro em Niterói intelectuais e operários representantes de Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Foram escolhidos para compor a Comissão Central Executiva (CCE), integrada por cinco membros e cinco suplentes: Abílio de Nequete, eleito secretário-geral; Astrojildo Pereira, Antônio Bernardo Canellas, Luís Peres e Antônio Gomes Cruz Júnior. Para suplentes foram indicados: Cristiano Cordeiro, Rodolfo Coutinho, Antônio de Carvalho, Joaquim Barbosa e Manuel Cendón.

Outro evento histórico que comemora seu centenário em 2022 é a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Em 5 de julho de 1922, no Rio de Janeiro, ocorreu a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Foi a primeira ação do movimento tenentista contra a República Velha. A Revolta pretendia derrubar o governo vigente e demonstrar insatisfação com a maneira que ocorreu a eleição para presidente.

No dia 4 de julho de 1922, o capitão do forte, Euclides Hermes da Fonseca — filho do Marechal Hermes da Fonseca que estava preso, apoiado pelo tenente Siqueira Campos, preparavam o forte para revolta que se iniciaria pela manhã do dia seguinte.

Os planos iniciais da revolta eram que alguns estados brasileiros e áreas militares do Rio de Janeiro participariam do levante. Porém, no final, a revolta só ocorreu no forte, pois o governo federal já sabia da organização militar e a impediu.

No dia 5 de julho, o Forte de Copacabana foi bombardeado fortemente a mando do governo. Euclides Hermes da Fonseca e Siqueira Campos receberam um telefonema do Ministro da Guerra, solicitando a rendição dos militares. Dos 301 militares que estavam no forte, renderam-se 272. O capitão Euclides Hermes saiu do forte para negociar com o Ministro da Guerra, e acabou sendo preso. Os que permaneceram no forte sob o comando do tenente Siqueira Campos, não bombardearam a cidade como o plano inicial, mas saíram em marcha pela Av. Atlântica, porém alguns militares abandonaram a revolta e restaram apenas 18 militares. No fim da marcha, os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes ficaram feridos além de dois soldados, o restante morreu em combate desigual.

A Revolta dos 18 do Forte de Copacabana não obteve êxito, mas foi a primeira ação articulada contra a República Velha. Após essa revolta iniciaram-se outros movimentos com a mesma ideologia como a Comuna de Manaus (1924), a Revolução de Paulista (1924) e a Coluna Prestes (1925-1927), todas com a mesma finalidade: destituir a oligarquia cafeeira.

Nas artes, em 2022 se comemora o centenário da turnê dos Oito Batutas a Paris, que mudou a música brasileira e foi alvo de racismo.

Em fevereiro de 1922, sete músicos brasileiros desembarcavam no porto de Bordeaux, sudoeste da França. O destino do grupo era Paris. Pixinguinha, Donga, entre outros batutas, fizeram apresentações durante seis meses no que é considerada a primeira turnê europeia de um grupo de música popular brasileira.

O evento, no entanto, não teve a mesma recepção no Brasil, onde a imprensa publicou críticas racistas de quem não aceitava a música popular tocada por negros como imagem da cultura de seu país.

O sucesso dessa viagem foi fundamental para o desenvolvimento do choro e do maxixe no Brasil, e mudou a carreira de Pixinguinha.

Relembramos, também, em 2022, os cem anos da morte do escritor, jornalista e cronista carioca Lima Barreto, criador de uma das obras mais plurais e inovadoras da literatura brasileira.

Autor de clássicos como Triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações do escrivão Isaías Caminha e O Cemitério dos Vivos, nascido de pais livres, mas neto de escravizados, Lima Barreto expôs com muita ironia questões como o racismo, o nacionalismo ufanista, a corrupção política e moral das elites e a desigualdade social.

A oralidade em sua obra representava o cotidiano que vivia pelas ruas do Rio de Janeiro, do subúrbio ao centro. Lima Barreto pode ser considerado o fundador da literatura periférica no país.

No dia 7 de setembro de 1922, houve a primeira transmissão radiofônica no Brasil por ocasião do centenário da Independência.

O discurso do presidente Epitácio Pessoa foi transmitido por uma antena instalada no morro do Corcovado e alcançou receptores em Niterói, Petrópolis e São Paulo. Nascia ali o rádio brasileiro, com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Edgar Roquette-Pinto, em 1923.

O discurso do presidente, em meio ao clima festivo do evento, abriu a programação da exposição, tornada possível por meio de um transmissor de 500 watts, fornecido pela empresa norte-americana Westinghouse e instalado no alto do Corcovado. Apenas 80 receptores espalhados na capital e nas cidades fluminenses de Niterói e Petrópolis acompanharam a transmissão experimental, que teve ainda música clássica – incluindo a ópera O Guarani, de Carlos Gomes – durante toda a abertura da exposição. À frente da iniciativa estava o cientista e educador, Edgar Roquette Pinto, considerado o pai da radiodifusão brasileira.

Em 2022, se comemora o centenário de nascimento de três importantes políticos brasileiros: Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e Hélio Bicudo.

Leonel de Moura Brizola foi governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, sendo o único político eleito pelo povo para governar dois estados diferentes em toda a história do Brasil. Teve papel destacado na resistência ao golpe militar de 1964, quando criou a Rede da Legalidade, para resistir ao golpe. Como governador do Rio de Janeiro ficou conhecido pelas políticas de valorização da educação, especialmente a criação dos CIEPs.

Darcy Ribeiro foi antropólogo, historiador, sociólogo, escritor e político brasileiro, filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e conhecido por seu foco em relação aos indígenas e à educação no país. Suas ideias de identidade latino-americana influenciaram vários estudiosos latino-americanos posteriores. Como Ministro da Educação do Brasil realizou profundas reformas, o que o levou a ser convidado a participar de reformas universitárias no Chile, Peru, Venezuela, México e Uruguai. Durante a ditadura militar brasileira, como muitos outros intelectuais brasileiros, teve seus direitos políticos cassados e foi obrigado a se exilar, vivendo durante alguns anos no Uruguai.

Durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro, como vice-governador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP), um projeto pedagógico visionário e revolucionário no Brasil de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal – dando concretude aos projetos idealizados décadas antes por Anísio Teixeira. Foi responsável pelo projeto de lei que deu origem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) – Lei 9.394/96.

Em 1995, publicou O Povo Brasileiro, obra em que aborda a formação histórica, étnica e cultural do povo brasileiro, com impressões baseadas nas experiências de sua vida.

Hélio Bicudo, como Promotor de Justiça de São Paulo, se notabilizou por sua luta contra o Esquadrão da Morte. Foi Secretário Municipal de Assuntos Jurídicos de São Paulo durante a gestão de Luiza Erundina, de 1989 a 1990, anos em que foi eleito deputado federal, e vice-prefeito de São Paulo, de 2001 a 2004, na gestão de Marta Suplicy.

Em fevereiro de 2000, foi empossado presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, com sede em Washington. Criou e presidiu, entre 2003 e 2013, a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos (FidDH), entidade que atuou junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, denunciando e acompanhando casos de desrespeito aos direitos humanos no Brasil.

Apesar de ter sido um dos fundadores do PT, em 2015 foi um dos signatários do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, apresentado à Câmara dos Deputados.

Em 2022 também se comemora o centenário de Otto Lara Resende. Jornalista de notável capacidade de expressão colaborou em O Globo, Zero Hora e na Folha de São Paulo, além de outros periódicos. Pertenceu ao famoso grupo de intelectuais mineiros que teve como expoentes Emílio Moura, Guilhermino César, Hélio Pellegrino, Aníbal Machado, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade, que se destacaram não só pelos laços de companheirismo, como, principalmente pelo significativo valor de seus escritos. Na década de 1960 Otto Lara, foi Conselheiro Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa.

Outro centenário comemorado em 2022 é o de Dias Gomes. Com apenas 15 anos escreveu sua primeira peça, A comédia dos moralistas, que ganhou o 1º lugar no Concurso do Serviço Nacional de Teatro em 1939. Estreou no teatro profissional em 1942, com a comédia Pé-de-cabra, encenada no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, por Procópio Ferreira, que com ele excursionou por todo o país. Em 1948, foi para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar em várias rádios, sucessivamente: Rádio Tupi e Rádio Tamoio (1950), Rádio Clube do Brasil (1951) e Rádio Nacional (1956).

Em fins de 1953, viajou à União Soviética com uma delegação de escritores, para as comemorações do 1º de Maio. Por essa razão, ao voltar ao Brasil, foi demitido da Rádio Clube. Seu nome foi incluído na “lista negra”, e durante nove meses seus textos para a televisão tiveram que ser negociados com a TV Tupi em nome de colegas.

Em 1959, escreveu a peça O pagador de promessas, que estreou no TBC, em São Paulo, sob direção de Flávio Rangel e com Leonardo Vilar no papel principal. Adaptada pelo próprio autor para o cinema, dirigido por Anselmo Duarte, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962.

Em 1964, Dias Gomes foi demitido da Rádio Nacional, da qual era diretor-artístico, pelo Ato Institucional n. 1. A partir de então, participou de diversas manifestações contra a censura e em defesa da liberdade de expressão e teve várias peças censuradas durante o regime militar.

Contratado, em 1969, pela TV Globo, produziu inúmeras telenovelas, além de minisséries, seriados e especiais. Apesar da censura, não interrompeu a produção teatral, e várias peças suas foram encenadas entre 1968 e 1980. Em 1980, com a decretação da Anistia, foi reintegrado aos quadros da Rádio Nacional, e trabalhos seus, como Roque Santeiro, foram liberados para apresentação.

Em 1985, criou e dirigiu, até 1987, a Casa de Criação Janete Clair, na TV Globo. A novela Roque Santeiro foi levada ao ar pela TV Globo, após 10 anos de interdição pela censura.

Dias Gomes conquistou numerosos prêmios por sua atuação no rádio e por sua obra para teatro, cinema e televisão.

No teatro, três centenários são comemorados em 2022. Os de Bibi Ferreira, Paulo Autran e Tônia Carrero.

Filha de um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil, o ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi – apelido que ganhou ainda na infância – estreou nos palcos com pouco mais de 20 dias de vida. Em cena, ela apareceu no colo da madrinha, Abigail Maia, em encenação de Manhãs de sol, de Oduvaldo Vianna. Artista multimídia, Bibi ao longo da carreira fez filmes, apresentou programas de TV, gravou discos e dirigiu shows. Tudo sem nunca abandonar o teatro, uma grande paixão. Também foi enredo da Viradouro no Carnaval do Rio em 2003.

Paulo Autran se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco em 1945. Inicialmente, pensava em ser diplomata. Nessa época, participou de algumas peças de teatro amador e acabou convidado a estrear profissionalmente em Um Deus Dormiu Lá em Casa, com direção de Adolfo Celi, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. No começo relutou, afirmando não ser um ator profissional. Quem o incentivou foi a atriz e grande amiga Tônia Carrero. A peça estreou no dia 13 de dezembro de 1949 e tornou-se um grande sucesso, rendendo inclusive prêmios para o ator. Paulo Autran largou a advocacia e passou a se dedicar exclusivamente à carreira artística, dando prioridade ao teatro, sua grande paixão.

Em 1956, fundou com Adolfo Celi e Tônia Carrero uma companhia teatral, que durou cinco anos. Depois seguiu sua carreira independente, fazendo peças de sucesso, como My Fair Lady, Visitando o Sr. Green e Pato com Laranja. Sua trajetória confunde-se com a história do teatro brasileiro na segunda metade do século 20, tendo atuado com diretores consagrados e com novos talentos, além de ter contracenado com todas as grandes atrizes de sua época.

Para tornar-se conhecido de um público mais amplo, participou de telenovelas Gabriela, Cravo e Canela; Pai Herói; Guerra dos Sexos e Sassaricando; além de minisséries como Hilda Furacão. Em todas elas, conseguiu tornar seus personagens populares.

Em mais de 50 anos de carreira fez cerca de 90 peças, 15 filmes, inúmeras novelas e especiais para a TV.

Em 2006, Paulo Autran estreou seu 90º espetáculo, a peça O Avarento, de Molière, mas teve de interromper a temporada devido aos problemas pulmonares que acabaram por matá-lo.

Maria Antonietta Portocarrero Thedim desde a infância vislumbrava um futuro na ribalta, para desespero da mãe recatada e do lar, Zilda de Farias. Já o pai, o marechal Hermenegildo Portocarrero, costumava ser visto na primeira fila da plateia de suas peças.  Aos 17 anos, casou-se com o diretor de cinema Carlos Arthur Thiré, que em princípio também se mostrou contrário à ideia de ver a mulher atuando. Tônia formou-se em Educação Física em 1941 e chegou a dar aulas no Vasco, mas ao acompanhar o marido em um período de trabalho em Paris decidiu retomar o antigo sonho. Fez vários cursos e, ao retornar ao Brasil, aos 25 anos, estrelou seu primeiro filme, Querida Suzana, de Alberto Pieralise, que trazia nomes como Anselmo Duarte e Nicette Bruno no elenco.

O desempenho chamou a atenção do cineasta Fernando de Barros, que a convidou para trabalhar em Caminhos do Sul (1949) e Perdida pela Paixão (1950). Depois disso, a convite do empresário Franco Zampari, Tônia entrou para a Companhia Cinematográfica Vera Cruz com status de diva de Hollywood. Nos famosos estúdios de São Bernardo do Campo (SP), Tônia protagonizou Apassionata (1952), Tico-tico no Fubá e  É Proibido Beijar (1954), de Ugo Lombardi.  O longa Chega de Saudade (2008), de Laís Bodanzky, marcou a despedida do cinema e rendeu-lhe o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Cartagena. Ainda em 2008, Tônia foi a homenageada do ano do Prêmio Shell.

Ela subiu aos palcos pela primeira vez, em 1949, em Um Deus Dormiu Lá em Casa, pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ao lado de Paulo Autran. A partir daí, participou de várias montagens de textos clássicos como Otelo (1956), de William Shakespeare, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1978), de Edward Albee, e Casa de Bonecas (1971), de Henrik Ibsen.

Em 1968, destacou-se ao interpretar a prostituta Neusa Sueli na peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, com direção de Fauzi Arap. Seu espetáculo derradeiro aconteceu em 2007: Um Barco para o Sonho, de Alexei Arbuzov, produzido pelo produzido pelo filho e dirigido pelo neto, Carlos Thiré.

Na TV, teve grande sucesso como a milionária Cristina Melo de Guimarães Cerdeira de Pigmalião 70, novela levada ao ar pela Rede Globo em 1970. O corte de cabelo da personagem conquistou as ruas e ganhou o apelido de “Pigmalião”. Outro papel de destaque foi o da socialite excêntrica e liberada Stella Simpson de Água Viva (1980), na mesma emissora, pelo qual recebeu o prêmio de melhor atriz de televisão da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e Rebeca, em Sassaricando. O ano de 2004 marcou suas últimas aparições na televisão: como Madame Berthe Legrand, em Senhora do Destino, e interpretando ela mesma na minissérie Um Só Coração, atração produzida pela Globo em comemoração aos 450 anos de São Paulo.

Nas artes plásticas, o centenário é de Aldemir Martins. Pintor, gravador, desenhista, ilustrador. Em 1941, participa da criação do Centro Cultural de Belas Artes, em Fortaleza, um espaço para exposições permanentes e cursos de arte. Aldemir Martins produz desenhos, xilogravuras, aquarelas e pinturas. Atua também como ilustrador na imprensa cearense. Em 1945, viaja para o Rio de Janeiro, e, menos de um ano depois, muda-se para São Paulo, onde realiza sua primeira individual e retoma a carreira de ilustrador. Entre 1949 e 1951, freqüenta os cursos do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP e torna-se monitor da instituição. Estuda história da arte com Pietro Maria Bardi (1900-1999) e gravura com Poty Lazzarotto (1924-1998). Durante o curso, produz o álbum de gravuras Cenas da Seca do Nordeste, com prefácio de Rachel de Queiroz (1910-2003). Em 1956, sua carreira atinge o ápice ao ser premiado como melhor desenhista internacional na 28ª Bienal de Veneza e expor em diversas partes do mundo. Na década de 1960, trabalha muito com arte aplicada a objetos comerciais. Em 1962, cria cenário para o 1º Festival da MPB, da TV Record, e elabora estampas para tecidos da Rhodia Têxtil. Faz ilustrações dos aparelhos de jantar da série Goyana de Cora. A partir da segunda metade dos anos de 1960, Martins faz esculturas de cerâmica e acrílico, além de jóias em ouro e prata. Em 1969, ilustra bilhetes de loteria. Seis anos mais tarde cria a imagem de abertura da telenovela Gabriela, da rede Globo. Em 1981, repete a experiência na abertura da telenovela Terras do Sem Fim. Nos anos 1980, ilustra jogos de mesa, camisetas e latas de sorvete da Kibon.

No rádio, a festa é para o centenário de Marlene e de Dircinha Batista.

Tendo gravado mais de quatro mil canções em sua carreira, Marlene foi um dos maiores mitos do rádio brasileiro em sua época de ouro. Sua popularidade nacional também resultou em convites para o cinema (onze filmes depois de Corações sem Piloto, de 1944) e para o teatro (cinco peças após Depois do Casamento, em 1952), tendo também trabalhado em cinco revistas depois de Deixa Que Eu Chuto (1950). Suas atividades internacionais incluíam turnês pelo Uruguai, Argentina, Estados Unidos (onde se apresentou no Waldorf-Astoria Hotel e em Chicago) e na França (apresentando-se por quatro meses e meio no Olympia em Paris, a convite de Édith Piaf, sendo a primeira cantora brasileira a pisar nesse palco sagrado da música. Compositora bissexta, teve seu samba-canção A Grande Verdade (parceria com Luís Bittencourt) gravado por Dalva de Oliveira, em 1951.

Por muitos anos as irmãs Linda e Dircinha Batista foram as vencedoras do título de Rainha do Rádio. Este torneio era coordenado pela Associação Brasileira de Rádio, sendo que os votos eram vendidos e a renda era destinada para a construção de um hospital para artistas. Então, em 1949, Marlene venceu o concurso de forma espetacular. Para tal, recebeu o apoio da Companhia Antarctica Paulista. A empresa de bebidas estava prestes a lançar no mercado um novo produto, o Guaraná Caçula, e, atenta à popularidade do concurso, pretendiam usar a imagem de uma nova cantora, ainda desconhecida pelo grande público, e Marlene que cantava no Copacabana Palace, foi a escolhida, desbancando todas as outras cantoras e sendo eleita a Rainha do Rádio. Marlene foi eleita com 529.982 votos. A eleição para Rainha do Rádio ainda lhe rendeu um programa exclusivo na Rádio Nacional, intitulado Duas majestades, e um novo horário no programa Manuel Barcelos, em que permaneceu como estrela até o fechamento do auditório da Rádio Nacional.

Criança prodígio, Dircinha Batista começou a se apresentar nos palcos aos seis anos de idade. Apresentava-se nos shows de seu pai Batista Junior, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1930, aos oito anos, gravou seu primeiro disco com Borboleta Azul e Dircinha, pela gravadora Columbia. Cantou no programa de Francisco Alves, grande cantor da época, na Rádio Cajuti, onde ficou até os dez anos de idade. Depois transferiu-se para a Rádio Clube do Brasil. Sua vida profissional durou mais de 40 anos e teve inúmeros sucessos. Todos os compositores importantes da época davam músicas para Dircinha e sua irmã Linda gravarem, pois era certeza de sucesso. E assim ela gravou músicas de Ary Barroso, Chiquinha Gonzaga, Jair Amorim, Garoto, David Nasser, Wilson Batista, João de Barro, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins e Lourival Faissal, entre outros. Em 1948, foi coroada Rainha do Rádio.

Sua filmografia também é enorme. Atuou em 30 filmes, tendo sido o primeiro em 1935, de nome Alô Alô Brasil. Em 1936, fez Alô Alô Carnaval. E assim continuou, aparecendo todos os anos em produções nacionais. Fez sucesso em 1940, com Laranja da China. Em 1947, com Fogo na Canjica. E assim fez Carnaval Barra Limpa; 007 e Meio no Carnaval;  Entrei de GaiatoE de ChuáMetido a BacanaTira a Mão Daí e Carnaval no Fogo.

O futebol, é claro, não poderia ficar de fora dessa festa e, em 2022, comemora o centenário de Cláudio Cristovam Pinho, o Gerente. Cláudio foi o maior artilheiro da história do Corinthians, com 305 gols. Com Luizinho e Baltazar formava o ataque mais famoso da década de 50, conhecido como Os Três Mosqueteiros. Revelado no Santos, teve uma passagem rápida pelo Palmeiras, onde marcou o primeiro gol do ex-Palestra Itália com o novo nome, em 1942, no mesmo ano ganhou o título paulista pelo clube alvi-verde. Porém, dentro de um ano, retornou a Vila Belmiro. O Corinthians foi buscá-lo em 1945, para fazer dele um dos maiores ídolos do clube. Foi o líder de uma equipe considerada genial, que marcou mais de 100 gols no início dos anos 50, que tinha Luizinho, Baltazar, Rafael, Simão e Carbone. Era rápido, habilidoso e um excelente cobrador de escanteios, faltas e pênaltis. Pela seleção foi campeão do Sul-americano de 1949.

E como tudo acaba em samba, em 2022 se comemora o centenário de três grandes nomes do samba –  Dona Ivone Lara, Guilherme de Brito e Casquinha da Portela.

Dona Ivone Lara, conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba, foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a fazer parte da ala de compositores de uma escola, a Império Serrano, com um samba-enredo comumente listado entre os melhores de todos os tempos, Os Cinco Bailes da História do Rio (1965). Formada em Enfermagem e Serviço Social se consagrou como cantora e compositora, desempenhou importante papel como enfermeira na reforma psiquiátrica no Brasil, ao lado da médica Nise da Silveira, dedicando-se a essa atividade durante mais de trinta anos, antes de se aposentar e dedicar-se exclusivamente à carreira artística. Gravou 15 álbuns e compôs inúmeras canções. Suas composições, como Sonho Meu e Acreditar, foram interpretadas por grandes nomes da Música Popular Brasileira.

Originário do bairro de Vila Isabel, Guilherme de Brito ainda menino aprendeu cavaquinho, estimulado pelo pai e a irmã, que tocavam violão. Com a morte do pai, em 1934, abandonou a escola para trabalhar, empregando-se dois anos depois como office-boy da Casa Edison. Iniciou-se como compositor em 1938, com o samba Calça balão, mas só na década de 1950 suas músicas começaram a ser gravadas. Atuou como cantor, estreando na antiga Rádio Vera Cruz, no Programa Aurora. Trabalhou com outros parceiros, entre os quais Pedro Caetano e Renato Gaetani, até o dia em que, num botequim do subúrbio carioca de Ramos, conheceu o sambista Nelson Cavaquinho, ainda em 1955.  Compondo juntos, a princípio esporadicamente, acabaram por formar uma parceria responsável por grandes sucessos, como os sambas Pranto de poeta, de 1956, A flor e o espinho (com Alcides Caminha), de 1957.  A partir do início da década de 1960, quando se afirma o êxito de suas composições com Nelson Cavaquinho, passa a apresentar-se em televisão e shows, especialmente no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro. Na década de 1980 gravou um LP solo, Guilherme de Brito, no Estúdio Eldorado, que incluía outro grande sucesso da dupla com Nelson Cavaquinho, Folhas secas.

Nascido em 1º de dezembro de 1922, em Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte, Casquinha da Portela é autor de clássicos do samba como Recado, que compôs com Paulinho da Viola, e A Chuva Cai, com Argemiro Patrocínio. Um de seus principais parceiros musicais foi Candeia. A convite de Candeia, passou a frequentar os ensaios da Portela, onde despontou como compositor reconhecido e atuante. Na década de 1960, fez parte do grupo Mensageiros do Samba, com Bubu, Arlindão, Jorge do Violão, Candeia, David do Pandeiro e Picolino. Integrante da Velha Guarda da Portela desde o lançamento do primeiro disco do grupo, em 1970, consagrou-se, ainda, como representante do samba sincopado e do partido-alto.

2022 é mesmo um ano fundamental para festejar a brasilidade.

(Moacyr de Oliveira filho é diretor da ABI

O que você achou desta matéria?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.