A Física Brasileira Perde um de seus Membros Mais Ilustres


Em uma grande perda para a ciência brasileira, o físico Herch Moysés Nussenzveig (1932-2022), professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, faleceu neste sábado, 05 de novembro de 2022. Filho de pais judeus que emigraram para o Brasil para escapar do antissemitismo na Europa, Nussenzveig fez graduação e doutorado física na Universidade de São Paulo da década de 1950 e desenvolveu uma carreira de excelência, com grandes contribuições para a pesquisa, ensino e para a institucionalização da ciência e formação da comunidade brasileira de físicos.
Em grande medida, sua trajetória refletiu as vicissitudes históricas que marcaram o desenvolvimento da física Brasileira na segunda metade do século XX. Quando Nussenzveig entrou para o curso de física em 1951, a física estava no auge de seu prestígio, dado seu papel crucial no desenvolvimento de armas e energia nuclear, e a jovem comunidade brasileira de físicos, que já havia alcançado prestígio internacional, soube utilizar este prestígio para criar e ampliar instituições voltadas para o desenvolvimento de pesquisa em física. O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas foi talvez o resultado mais notável deste processo e foi lá que Nussenzveig iniciou sua carreira como professor e pesquisador em 1956.
Quando Nussenzveig terminou sua graduação, em 1954, o Brasil ainda não tinha um sistema de pós-graduação institucionalizado, mas a USP contava em seu quadro de professores com a presença do físico alemão Guido Beck, que havia emigrado para a América Latina antes da segunda guerra mundial, escapando do nazismo. Beck foi um dos muitos estrangeiros que ajudou a formar as primeiras gerações de físicos brasileiros. Comprometido com a formação de novos pesquisadores, Beck reconheceu o talento de Nussenzveig e se prontificou a orientá-lo em uma tese sobre um problema de ótica, campo no qual Nussenzveig ganharia reconhecimento internacional e ao qual dedicaria a maior parte de sua carreira. Além disso, Beck cuidou para que, após defender sua tese de doutorado em 1957, Nussenzveig complementasse sua formação em estágios de pós-doutorado na Europa. Entre 1958 e 1960, ele passou pelas universidades de Eindhoven e Utrecht, na Holanda, pelo Instituto Nacional de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra.
Nussenzveig retornou ao CBPF no começo da década de 1960 com a experiência acumulada na interação com alguns dos grandes físicos da época para dar início a sua própria linha de investigação. Entretanto, a crise econômica que assolou o Brasil no começo daquela década tornou demasiadamente árdua a tarefa de fazer pesquisa no país. Juntamente com sua esposa, Micheline, também professora do CBPF, Nussenzveig decidiu emigrar para os EUA onde conseguiu o emprego de professor visitante da Universidade de Nova Iorque. O casal Nussenzveig juntou-se aos muitos cientistas brasileiros que nos primeiros anos da década de 1960, por razões econômicas, se viram impelidos a deixar o país em busca de melhores condições para a pesquisa, o que gerou um fenômeno conhecido como evasão de cérebro. Mas o que para eles seria uma estadia curta, até que a situação econômica do Brasil melhorasse, com o golpe civil-militar de 1964, agora por motivações políticas, acabou se estendendo por mais de uma década.
Mesmo tendo decidido por ficar nos EUA, Nussenzveig continuou atento aos acontecimentos no Brasil e comprometido com a formação da comunidade de físicos no Brasil. Em 1964, ele tornou-se professor visitante do Instituto de Estudos Avançados de Princeton e em 1965 mudou-se para a Universidade de Rochester, sede de um dos mais famosos e mais importantes institutos de ótica do mundo, onde tornou-se professor titular. Em Rochester, Nussenzveig acompanhou de primeira mão a revolução na física promovida pela invenção do laser, um dispositivo que produz radiação com propriedades nunca antes observadas e que foi crucial para o surgimento de novos campos de pesquisa como a ótica quântica e ótica não-linear.
Nussenzveig não foi apenas testemunha dos processos que levaram à criação e consolidação destes campos. Foi também ator importante. Primeiro porque ministrou os primeiros cursos de Ótica Quântica na América do Sul; um na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1968, e outro na Escola Latino-Americana de Física em La Plata, Argentina, em 1970. Segundo porque as notas de aulas daqueles cursos deram origem ao livro Introduction to Quantum Optics (1973), um dos primeiros livros didáticos que ajudaram na formação de pesquisadores para trabalhar nestes novos campos. Estes cursos e notas de aulas estimularam pesquisadores como Nicim Zagury e Sérgio Resende a fazer pesquisas pioneiras em ótica quântica.
Em termos políticos, Nussenzveig foi parte de uma rede de solidariedade que se formou nos Estados Unidos em prol dos cientistas e estudantes perseguidos pelo regime militar brasileiro. Um de seus atos que teriam grande impacto na história subsequente foi acolher na Universidade de Rochester um talentoso estudante que havia sido expulso da PUC por meio do Decreto 477 do governo de Arthur Costa e Silva em 1969. Dentre outras coisas, o decreto resultou na expulsão de estudantes considerados subversivos das universidades brasileiras. O Agente 477, como o estudante ficou conhecido, era o físico Luiz Davidovich, que concluiu seu doutorado em 1975 sob orientação de Nussenzveig e se tornaria uma liderança internacional em ótica quântica e uma grande liderança institucional da ciência brasileira, inclusive presidindo a Academia Brasileira de Ciências.
Nussenzveig retornou ao Brasil em 1975 e desde então foi professor pesquisador no Instituto de Física da USP (1975-1983), do departamento de física da PUC-RJ (1983-1994) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994-2022). Neste período, ele continuou sua pesquisa em ótica e deu início a uma nova linha de pesquisa em biofísica, publicando e formando pesquisadores em ambas as áreas. Retornando ao Brasil em um período de expansão do sistema universitário, Nussenzveig dedicou-se também à melhoria do ensino de física em nível de graduação e escreveu a coleção Física Básica que foi vencedora do prêmio Jabuti em 1999 e tornou-se uma das principais referências dos cursos de física básica nas universidades Brasileiras. Ele contribuiu ainda para a divulgação científica e ensino básico por meio de projetos como a criação de kits científicos para atrair jovens do ensino médio para carreiras em ciência.
Membro atuante de várias instituições científicas como Sociedade Brasileira de Física, a Academia Brasileira de Ciências e a União Internacional de Física Pura e Aplicada, Nussenzveig contribuiu para estabelecer diálogo e cooperação entre físicos da América Latina e teve papel importante no acordo de não-proliferação de armas nucleares entre Brasil e Argentina. Por sua atuação multifacetada como pesquisador, professor, gestor e divulgador da ciência, ao longo de sua carreira Nussenzveig acumulou uma grande lista de distinções como a eleição como fellow da American Physical Society, da Optical Society of America e da Academia Mundial de Ciências TWAS, e prêmios como o Prêmio Max Born da Optical Society of America e a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Além de tudo, Nussenzveig foi um grande defensor da ciência e democracia brasileira até seus últimos dias.
Climério Paulo da Silva Neto
Professor Adjunto do Instituto de Física da UFBA

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