Por Raul Carrion
Em 22 de novembro de 1910, há exatos 115 anos, os marinheiros (na sua maioria negros) da então poderosa Armada do Brasil – que recentemente havia adquirido na Inglaterra as mais modernas e poderosas belonaves do mundo –, rebelaram-se, expulsaram dos navios os oficiais e, sob o comando do negro gaúcho de Encruzilhada do Sul, João Cândido Felisberto, manobraram com maestria a esquadra na Baia da Guanabara e, ao mesmo tempo que ameaçavam bombardear o Rio de Janeiro, exigiram do governo o fim da chibata e dos castigos físicos na Marinha, condições dignas de trabalho e anistia aos revoltosos. Impotente, o governo cedeu e o Senador Rui Barbosa apresentou um projeto de anistia, o compromisso de abolir o castigo da chibata e melhores condições de trabalho na Marinha. A anistia foi aprovada com celeridade no Senado e na Câmara dos Deputados. Vitoriosos, os insurretos arriaram em 26 de novembro a bandeira vermelha e os navios foram devolvidos na mais perfeita ordem. Imediatamente, as oligarquias dominantes começaram a tramar a repressão aos anistiados. Um decreto autorizou a expulsão de qualquer marinheiro _“cuja permanência se tornar inconveniente à disciplina”._ Mas, o pior estava para vir. Em 9 de dezembro, foi instigada uma nova revolta – sem qualquer participação de João Cândido e dos líderes da Revolta da Chibata. Rapidamente, os rebelados foram massacrados, o Estado de Sítio foi decretado, as principais lideranças dos marujos foram mortas ou enviadas para a Amazônia, para serem escravizadas pelos donos de seringais. No início de 1911, foi mil marinheiros foram expulsos. João Cândido e outros 17 líderes foram encerrados em uma masmorra sem ventilação e asfixiados com cal viva. Dezesseis morreram, só sobreviveram João Cândido e “Pau de Lira”. Alquebrado, João Cândido foi internado em um Hospital para Loucos. Quando conseguiu sair, foi preso. Só 18 meses depois, defendido gratuitamente por Evaristo de Moraes, foi absolvido. Com os pulmões tomados pela tuberculose, foi expulso da Marinha e impedido de trabalhar como marinheiro. Convidado a trabalhar como informante da polícia, recusou com altivez, e sobreviveu como vendedor de peixe, no cais do porto. Alguns anos depois, foi descoberto pelo escritor comunista Edmar Morel, que relatou a sua história no livro _A revolta da Chibata_, publicado em 1963. Por esse "crime", após o golpe de 1964, Morel foi punido com a dispensa compulsória e a cassação dos seus direitos políticos... Goulart havia concedido a João Cândido uma humilde pensão, mas esta lhe foi retirada pela ditadura militar. O _“Almirante Negro”_ – como ficou imortalizado – faleceu em 1969, aos 89 anos de idade, na penúria. Em 2008, o Presidente Lula concedeu anistia póstuma a João Cândido e seus companheiros de rebelião. Em 20 de novembro de 2008, o “Almirante negro teve a sua estátua inaugurada na Praça XV, no Rio de Janeiro, com a presença do Presidente Lula. Antes, em 22 de novembro de 2002, por iniciativa do então vereador de Porto Alegre Raul Carrion, do PCdoB, com o apoio da PMPA, foi inaugurado no Parque Marinha do Brasil– na Av. Borges de Medeiros, em frente ao Shopping Praia de Belas e à Praça Itália – o busto de João Cândido Felisberto, tirando do papel a lei do ex-vereador comunista Lauro Hageman, que havia sido obstaculizada pela Marinha, que não aceitava que um negro fosse homenageado como “Almirante” no Parque Marinha. Esse busto, reproduzido, foi uma criação do escultor comunista gaúcho Vasco Prado. Ainda falta incluir João Cândido Felisberto no _“Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”..._ Ignorado pela maioria dos historiadores oficiais, a sua luta mudou o Brasil e acabou com a infâmia do chibateamento de negros e brancos pobres no Brasil. O exemplo de João Cândido Felisberto germinará nas novas gerações de combatentes pela liberdade e pelo socialismo! Para quem desejar conhecer mais detalhes sobre esta importante luta do povo brasileiro, comparto o artigo que escrevi em 22 de novembro de 2015, há exatos 10 anos.
