Por Luciano Siqueira
Quem lê ‘Ideias e rumos’ (coletânea de textos autorais publicada pela Editora Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois) tem a noção precisa da contribuição marcante de Renato Rabelo para o avanço programático e tático do PCdoB, em ambiente muito desafiante, desde a debacle da URSS e dos regimes populares do Leste da Europa, configurando crise teórica e ingente desafio tático sob nova correlação de forças em plano mundial, à transição da ditadura militar à redemocratização do país.
Também a preservação do PCdoB sobre seus fundamentos estatutários, leninistas, com abertura a adaptações às condições concretas da luta em curso.
Quem conviveu com Renato há de registrar o seu empenho solidário na formação de novos quadros dirigentes do Partido.
Quando do nosso último encontro, cerca de dois anos atrás, em visita a sua residência, acolhido generosamente por ele por Conchita, num dado instante registrei quanto ele me ajudara ao longo da minha militância, sobretudo pela paciência de me ouvir e de me orientar.
Sorrindo, retrucou: “Como eu poderia falar sem antes ouvir?”
Tendo retornado do exílio ao lado de João Amazonas e outros quadros do PCdoB, no Congresso da Anistia, em Salvador, em 1977, foi direto: “Precisamos de você”, referindo-se à reconstrução do PCdoB em Pernambuco.
Durante alguns anos, como tarefa do Comitê Central, acompanhei o Partido na Paraíba e no Rio Grande do Norte; e em alguns momentos também em Sergipe, Piauí e Maranhão. A cada viagem produzia um relatório sucinto e o encaminhava a João Amazonas, então presidente do Partido, e a Renato, secretário de organização.
Impressionava-me a natureza das perguntas que Renato me fazia a propósito dos nossos quadros dirigentes locais — de que modo estavam inseridos na vida partidária e na cena política, como abordavam determinados temas e como lidavam com eventuais contradições internas e assim por diante.
Certa vez, em reunião de membros do Comitê Central atuantes no Nordeste, ao concluir o debate foi muito duro comigo a propósito da ousadia tática que estávamos decididos a praticar em Pernambuco, lançando pela primeira vez nossa camarada Luciana Santos a prefeita de Olinda.
Meses depois, durante reunião do Comitê Central, em São Paulo, me abordou com a atenção de sempre e me pediu desculpas pelo conteúdo e pela forma como me criticara naquela ocasião.
Noutra oportunidade, pela primeira vez me recusara a uma tarefa que me propunha a direção estadual de Pernambuco. Teria que me afastar do mandato de deputado estadual, recém-conquistado nas urnas, para assumir cargo de secretário de Estado no governo do recém-eleito Eduardo Campos.
Decisão pessoal dolorosa, contra a opinião irredutível dos demais integrantes do CC em Pernambuco, pois jamais dissera não a uma missão partidária. Mas tinha razões fortes e fundamentadas.
Posteriormente, em reunião do Comitê Central, em São Paulo, lhe relatei o caso com todas as suas circunstâncias e justifiquei as razões da minha recusa, aguardando — confesso — que me fizesse a crítica ponderada de sempre.
Mas me surpreendeu, solidário: “Que Partido é este que nós estamos passando às novas gerações se um dirigente não tiver a liberdade de recusar uma tarefa por motivações subjetivas fundamentadas, como você acabou de expor!?”
Deu-me razão e, como se costuma dizer, retirou das minhas costas peso até então quase insuportável.
Atribui-se a Gramsci a assertiva de que um dos critérios para avaliar o desempenho de um dirigente é a capacidade que demonstre de formar seus sucessores.
Este é o espírito com que Renato cuidava de todos nós.
Nesses últimos dias de perda e dor, é muito forte a consciência de que Renato permanece presente em nossas mentes e em nossos corações.
