Vasco homenageia Renato Rabelo, comunista e torcedor


Na noite de quinta-feira (12), sob as luzes de São Januário, o futebol vestiu-se de história. Enquanto o Vasco buscava sua primeira vitória no Brasileirão contra o Palmeiras, algo acontecia nos corações da torcida: a homenagem póstuma a José Renato Rabelo, ex-presidente nacional do PCdoB, vascaíno de alma, militante de vida inteira.

Não foi apenas um minuto de silêncio. Foi um adeus solene da arquibancada a quem dedicou sua trajetória à luta por um Brasil melhor — e nunca deixou de vibrar com a camisa cruzmaltina.

Antes do apito inicial do Campeonato Brasileiro de Futebol entre Clube de Regatas Vasco da Gama e Sociedade Esportiva Palmeiras, o telão exibiu a fotografia de Renato Rabelo. O locutor anunciou seu nome e o estádio mergulhou em um minuto de silêncio.

Era uma homenagem póstuma a um torcedor ilustre — e a um dos dirigentes políticos mais conhecidos da esquerda brasileira, que presidiu por anos o Partido Comunista do Brasil.

A iniciativa partiu de Luis Fernandes, presidente do conselho de beneméritos do Vasco e secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

“Renato sempre se identificou como vascaíno. Conversávamos muito sobre o clube e sobre a vida política do Vasco”, recorda.

A iniciativa, aparentemente simples, carrega um peso simbólico imenso: reconhecer que a identidade de um clube de futebol transcende as quatro linhas. Renato não era sócio, mas sua relevância política e sua paixão pelo Vasco falaram mais alto. “Eles abriram uma exceção”, diz Luis. “Um reconhecimento.”

Vascaíno da velha guarda

Para quem conviveu com ele, o amor de Renato pelo Vasco vinha de uma época em que o futebol carioca atravessava o país pelo rádio. Era o tempo em que o Vasco, clube de subúrbio, de origem popular, carregava nas costas a esperança de quem via no esporte um espelho de suas lutas.

Mesmo sendo baiano, Renato pertenceu a uma geração que cresceu acompanhando os jogos transmitidos pela Rádio Nacional, quando o campeonato do Rio tinha projeção nacional.

“Era comum no Nordeste torcer para times do Rio. O Renato era dessa geração”, conta Fernandes.

Não estava sozinho. Entre comunistas históricos, o cruz-maltino tinha vários admiradores — como João Amazonas, outra figura histórica do PCdoB.

Um clube que nasceu popular

A identificação entre Renato e o Vasco não era apenas futebolística. Havia também uma afinidade histórica.

O clube ficou marcado por enfrentar o preconceito social no futebol brasileiro. Em 1923, quando conquistou seu primeiro campeonato, o Vasco desafiou as elites esportivas ao escalar jogadores negros e operários.

A reação dos clubes tradicionais foi tentar excluí-lo criando uma nova liga com regras discriminatórias. O Vasco se recusou a aceitar e enfrentou o bloqueio, episódio conhecido como a Resposta Histórica do Vasco da Gama de 1924.

Quando Fluminense, Flamengo, Botafogo e América criaram uma nova liga com cláusulas de preconceito social para excluir atletas de origem popular, o Vasco enfrentou. E venceu. Em 1924, a pressão da torcida e a força do povo forçaram a reunificação sem as cláusulas excludentes. O Vasco não apenas ganhou um campeonato; ajudou a mudar o futebol brasileiro.

“Foi um clube que abriu as portas para trabalhadores e gente do povo”, lembra Fernandes.

Essa marca popular fez de São Januário também um espaço simbólico da história nacional. Foi ali que Getúlio Vargas realizou grandes manifestações cívicas após a Revolução de 1930 no Brasil — e onde anunciou a Consolidação das Leis do Trabalho em 1943.

O estádio, assim, tornou-se símbolo de encontros entre esporte, política e povo. Renato Rabelo, que acompanhou e discutiu a vida política do clube com Luis Fernandes, conhecia bem essa história. Sabia que vestir a camisa do Vasco era, de certa forma, vestir a camisa da luta por dignidade.

O telão e a memória

A homenagem a Renato não foi protocolar. Foi afetiva. “A imagem dos homenageados aparece no telão do estádio e o locutor lê o nome”, descreve Luis. “Ele fez a leitura do nome do Renato, a foto apareceu lá no telão.” Para quem conhece a força das arquibancadas, sabe: quando o nome de um torcedor é anunciado em São Januário, ele deixa de ser apenas um nome. Vira parte da memória coletiva.

Para quem estava no estádio, foi um gesto simples — mas simbólico. Um instante em que a história do país, a política e o futebol dividiram o mesmo gramado.

“Fiquei feliz com isso. A morte de Renato é uma perda enorme que nós tivemos, então, homenageá-lo, acho que era o mínimo que a gente poderia fazer”, diz Luis. E é exatamente isso: o mínimo, mas também o máximo. Porque em um país onde a memória muitas vezes é apagada, lembrar Renato Rabelo — militante comunista, dirigente político, vascaíno — é um ato de resistência.

Uma vitória com gosto de lembrança

Depois do silêncio, a bola rolou.

O Vasco venceu o Palmeiras por 2 a 1, de virada, com gols de Thiago Mendes e Cuiabano. A vitória quebrou um jejum de dez anos sem derrotar o adversário paulista.

Nas arquibancadas de São Januário, mais de 17 mil torcedores celebraram.

O Vasco venceu. Renato Gaúcho estreou com vitória no comando. O Palmeiras, campeão paulista, saiu de campo derrotado. Mas, ao final, o que ficou não foi apenas o placar. Ficou a certeza de que o futebol, quando abraça sua essência popular, pode ser mais que entretenimento: pode ser tributo, pode ser legado, pode ser abraço.

Renato Rabelo não está mais entre nós, desde o domingo de carnaval. Mas, naquela noite em São Januário, sob o céu do Rio, sua presença foi sentida. No telão, no silêncio respeitoso, no coração de cada vascaíno que entende que torcer é também guardar memória.

Entre cantos e bandeiras, talvez poucos soubessem a trajetória completa de Renato Rabelo. Mas, por alguns segundos, o estádio inteiro conheceu seu nome.

E naquele instante silencioso — raro no futebol — a torcida fez aquilo que o Vasco sempre soube fazer: transformar memória em povo.

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