Reposicionar o Real


real

Por ELIAS JABBOUR.

Ao que tudo indica a presidenta Dilma começa a romper o cordão sanitário do isolamento, tentando retomar a iniciativa política numa semana decisiva para os destinos do governo. Isso é bom e devemos dar mão à palmatória. O vice-presidente Michel Temer tem sido essencial nesse processo. Assim como a própria presidenta que assimila o momento e se movimenta a ponto da notícia de rebaixamento do grau de investimento do Brasil pela agência Moody`s não ter tido o impacto que muitos esperavam e apostavam.

Por outro lado, a crise econômica que se prolonga continua nos dando oportunidades nada pequenas. Se a desvalorização do real incide em pressões inflacionárias, também tem feito bem para nossa balança comercial, nos propiciando saldo positivo no ano, de US$ 4,6 bilhões. Empresas começam a se animar a retirar da gaveta projetos de investimento. Mas a incerteza ainda assusta, pois ninguém sabe se o que está acontecendo é uma ação da mão invisível tão somente ou se tem o dedo do governo, também. Acredito que existe muito de mão invisível e um pouco de ação governamental sustando as tradicionais operações de swap.

A taxa de câmbio deveria ser a variável da vez a ser administrada. Percebe-se um jogo contra a inflação somente pela via da manipulação da taxa SELIC, pois o câmbio está ajustado por induções externas que devem aumentar com a atual desvalorização do yuan – a moeda chinesa — e a possibilidade de aumento da taxa de juros nos EUA. Neste sentido, honestamente não devemos ter grandes ilusões com a possibilidade de juros menores. Até o dia em que a inflação voltar ao centro da meta, a guerra dos juros estará perdida e qualquer batalha em torno dela é energia gasta de forma desnecessária. O mesmo se aplica às contestações em torno do ajuste fiscal que antes de qualquer crítica, deveria ser motivo de estudos profundos sobre a natureza do financiamento do investimento no Brasil. Mas isso é outra história.

A taxa de câmbio não está blindada. É objeto de pouca polêmica hoje e está longe do raio de ação do discurso golpista. Seria o momento de o governo mover-se no sentido de uma pequena mudança institucional. Um piso para a taxa de câmbio, algo capaz de desidratar a incerteza e iniciar um processo de formação de ambiente ao investimento. E o tempo é propício a aproveitar a proximidade de uma taxa de câmbio próxima do dito “equilíbrio industrial”, ainda mais num momento em que a China aposta em mais agressividade exportadora e bloqueios, via câmbio, de determinadas importações. E o Brasil é afetado diretamente por isso.

O pano de fundo é passar pela tormenta política com ações claras de redução de danos, como os investimentos de cerca de R$ 180 bilhões na cadeia de energia e transmissão anunciados, recentemente, pela presidenta Dilma. A este caminho se junta o ajuste fiscal que poderá nos dotar de alguma margem de manobra fiscal no médio prazo. E a própria taxa de câmbio. É também aprendizado. Não se reduz taxa de juros de forma inepta, tendo de entregar inflação no teto de alguma meta nos próximos meses. O problema da taxa de juros não vai ser solucionado de forma voluntarista, e sim com a mudança da temporalidade ao cumprimento das metas de inflação. Esse é o centro estratégico do debate. E temos de reconhecer outro dado da realidade: este debate está perdido no médio prazo. O momento político não nos dá tempo para teses de como as coisas deveriam ser ou terem sido. Não escolhemos o ambiente para fazer história.

Mas guarda importância estratégica. Mesmo a defensiva possibilita frestas de ação. É assim na política, é assim na economia. Na política, o antídoto é a amplitude que isola o inimigo. Na economia, num país periférico, portanto sensível às ondas externas, é de fora que muitas vezes vem o recado. A desvalorização do real veio em bom momento. A grande questão é se o deixaremos oscilar, perdendo a oportunidade de alguma mudança institucional ou “acertaremos por equívoco”, algo muito comum em nossa história. Que o diga o papel de manutenção ao investimento anexo ao instituto da correção monetária, abrindo condições para o “milagre” da década de 1970.

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