EUA, China e Rússia: nova Guerra Fria?


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Por Ricardo Alemão Abreu*

O objetivo deste primeiro de uma série de artigos, é analisar os atuais conflitos na Síria e na Ucrânia, a partir dos posicionamentos de EUA, China e Rússia em relação a eles, tendo como pano de fundo a transição na ordem mundial que está em curso. Tais conflitos somente podem ser compreendidos a partir de uma visão global dos conflitos geopolíticos e econômicos, pois não são fenômenos estritamente nacionais.

No atual sistema de poder internacional, desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos da América (EUA) são a única super-potência mundial. A principal potência imperialista está no vértice do sistema e exerce a sua hegemonia em aliança com as potências europeias (principalmente a Alemanha, mas também o Reino Unido e a França) e o Japão, articuladas no G-7 e na Otan. Para Samuel Pinheiro Guimarães, no “sistema internacional moderno, existe um condomínio de grandes potências, sob a hegemonia imperial americana consagrada no sistema das Nações Unidas”.

Segundo o especialista em Geopolítica Wanderley Messias da Costa, no contexto do capitalismo imperialista, a partir do final do século XIX até hoje, emergiram as potências mundiais e “as estratégias dessas potências tornaram-se antes de tudo globais, isto é, ‘projetos nacionais’ tenderam a assumir cada vez mais um conteúdo necessariamente internacional.”

Na coalizão liderada pelos EUA, obviamente há contradições, em especial com a Alemanha a França, que lideram a União Europeia, mas a força relativa dos EUA nas áreas econômico-financeira, tecnológica, político-diplomática e sobretudo militar, é tão grande que inibe possíveis dissensões e confrontos entre os membros da coalizão, fruto das contradições inter-imperialistas. As divisões entre as potências imperialistas durante o século XX, evoluindo para graves conflitos de interesse e depois guerras, estiveram na gênese das duas guerras mundiais.

No pós-Guerra Fria, todas as principais potências imperialistas fazem parte da mesma coalizão, amalgamada pela supremacia estadunidense. Talvez essa seja a principal razão, ao lado do “equilíbrio do terror” que a capacidade militar nuclear e de armas de destruição em massa de vários países cria, para não haver hipótese plausível de uma Terceira Guerra Mundial hoje.

Em termos geopolíticos, econômicos e militares, acelera-se a transição em curso nas relações de poder no mundo. Porém, a supremacia dos EUA ainda é muito grande, e a transição atual não está dada, é uma tendência, um movimento entre uma ordem global unipolar e uma possível nova ordem multipolar, que provavelmente terão os EUA e a China como futuras super-potências, e novos pólos como a União Eurasiática e a América do Sul integrada. Todavia, esse trânsito pode ser abortado por esforços de contenção, conflitos e guerras, a fim de se manter o status quo da ordem mundial.

O movimento de transição em direção à multipolaridade, apesar de reversível manu militari, deverá ser complexo e prolongado, contudo é uma tendência com direção, cujo ritmo e intensidade têm se acelerado e se intensificado nos últimos anos. Segundo James N. Rosenau, “uma ordem global nova ou reconstituída pode muito bem levar décadas para amadurecer”.

Em um contexto de crise capitalista internacional, os EUA e a União Europeia ampliam a ofensiva econômica e militar para tentar reverter a tendência ao declínio relativo de sua hegemonia. Assim, objetivamente, adensa-se a disputa entre os EUA e os países líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por um lado, e a China, a Rússia, os demais BRICS e países em desenvolvimento, inclusive da América Latina, por outro. Essa tendência da atualidade não é inexorável e eterna, como também não o é nenhuma ordem mundial.

O conflito na Síria, seguido pelas disputas político-militares na Ucrânia, marca uma nova etapa, no qual os Estados Unidos, a União Europeia e a Otan podem muito, mas não podem tudo. De 1989, ano da “queda do Muro de Berlim”, a 2012-2015 foram quase 25 anos de supremacia quase completa do chamado Ocidente, principalmente nos temas de segurança internacional. Agora essa situação começa a se alterar.

Os dois vetos seguidos de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU, em 2012 e 2013, somados ao conflito entre a Rússia e a Georgia, que terminou com uma resposta militar russa e o reconhecimento de Moscou à independência da Abkházia e da Ossétia do Sul, em 2008, podem ser caracterizados como ações políticas de Rússia e China que indicam um possível novo equilíbrio de poder em formação. A paralisação do Conselho de Segurança, em temas tão relevantes para os EUA, o Reino Unido e a França, quanto os conflitos na Síria e na Ucrânia, é algo inédito desde o fim da União Soviética.

Para Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr., “as formas globais de equilíbrio de poder, multipolares, bipolares, ou a condição unipolar, afetam diretamente a maneira pela qual os organismos internacionais realizam os princípios e valores que adotam”. Os autores associam “a relação bipolar na Guerra Fria e a paralisação do Conselho de Segurança”, dizendo que uma das principais evidências da nova ordem mundial pós-Guerra Fria é que “estaria superado, aí sim, um defeito do sistema anterior, justamente o bloqueio dos mecanismos multilaterais pelo impasse permanente no Conselho de Segurança” da ONU.

Daí autores como Luiz Alberto Moniz Bandeira fazerem referência a uma “segunda Guerra Fria”. Para Moniz Bandeira – que escreve em seu livro “A Segunda Guerra Fria” antes do agravamento do conflito na Ucrânia –, há uma “nova guerra fria” em curso, e “a Síria converteu-se Major Theater War [maior teatro de guerra] (MTW) da segunda guerra fria, evidenciando mais nitidamente a confrontação de dois blocos, conformados, de um lado, por Estados Unidos, União Europeia, petromonarquias do Golfo Pérsico, Turquia e Israel, e, do outro, por Rússia, China e Irã, não obstante a diversidade e as contradições de interesses”.

Nos próximos artigos discutiremos as relações entre EUA, China e Rússia, e como estas se manifestam nos atuais conflitos envolvendo a Síria e a Ucrânia.

 

*ECONOMISTA, MEMBRO DO COMITÊ CENTRAL E DA COMISSÃO POLÍTICA DO PCdoB, NA TAREFA DE SECRETÁRIO NACIONAL DE ORGANIZAÇÃO

5 comentários

  1. A partir de 1 minuto e meio deste Youtube (link abaixo), claramente se vê o helicóptero apache dos EUA que escolta / protege umas 200 caminhonetas Toyota Hilux equipadas com armas para os terroristas do EI/ISIS/ISIL/DAESH que ameaçam toda humanidade, não só o Iraque e a Síria; isso seria o começo; mas a Rússia se antecipou aos fatos; graças a Deus! Em 30/09/15, iniciou a derrota do EI.

    “Vídeo mostra helicóptero Apache dos EUA escoltando caravana de terroristas.

    Se o os principais governos do Ocidente prestassem, haveria sanções contra os países receptadores do petróleo contrabandeado pelo “estado islâmico”.

    Enquanto os corpos de dezenas de franceses ainda sangravam nos ataques terroristas em Paris, um vídeo revelado pela agência dos Emirados Árabes Hour News mostrou um helicóptero Apache dos Estados Unidos da América escoltando e protegendo uma caravana de aproximadamente 200 Toyotas Hilux equipadas com armas modernas doadas pelo governo dos EUA aos terroristas do Estado Islâmico entrando no território da Síria, vindos da Jordânia.

    O vídeo é mais uma prova entre centenas de outras provas de que o governo dos Estados Unidos da América é o principal financiador e protetor dos terroristas do Estado Islâmico, que luta para derrubar o governo da Síria e tentar colocar um fantoche na presidência para obedecer aos planos do sionismo israelense no domínio daquela região.

    Com a apresentação deste vídeo, será que o governo da França vai honrar suas palavras de se vingar dos terroristas e atacar os EUA? É claro que não! Será mais um jogo de mentiras, hipocrisia e traições, para enganar a opinião pública mundial enquanto o povo francês paga com vidas de inocentes a covardia do governo da França.

    Assista o vídeo e veja que o papel do helicóptero norte-americano é proteger os terroristas enquanto eles adentram ao território sírio para destruir cidades, vilas e aldeias, enquanto Barack Obama posa de membro da Coalizão Internacional para combater o Estado Islâmico, ou, faz pronunciamento em solidariedade às vítimas de atentados em Paris, vítimas dos terroristas que o governo dos EUA financia e protege. Estão chamando os povos do mundo inteiro de idiotas e imbecis.”

    Existência maldita: – Harry Truman ordenou os ataques com bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki… Bush ordenou a destruição do Afeganistão e do Iraque… Obama ordenou a destruição da Líbia… Os EUA gastaram mais de cinco bilhões de dólares para desestabilizar a Ucrânia… E a Síria ? E o Vietnam ? E a Coreia ? E o Yemen, a Somália e o Sudão ? E as ditaduras na América Latina nos anos 60, 70 e 80 ? E as mil bases militares assassinas pelo mundo afora ? E Guantánamo ? E Abu Graib ? Aff… Hitler é fichinha… – Isso é indefensável !…

    Para consolidar a certeza da ação do império do mal basta ler estas duas frases abaixo entre aspas, que são do 33º. Presidente dos EUA em 1945 e foram lembradas por Oliver Stone e Peter Kuznick, no bestseller The Untold History of United States, quando Harry Truman assim se referiu a Hiroshima: “Este grandioso acontecimento da história da humanidade”. Acrescentando: “Informar a explosão foi a mais feliz declaração feita em toda minha vida”. Quem torce pelos EUA está desinformado ou de má fé. Uma opinião qualquer, certa ou errada, é apenas uma simples opinião; mas quando nós apresentamos fatos históricos concretos, reais, verdadeiros, ninguém pode contestar. É por esta razão que as mentiras ocidentais se desmoralizam a cada dia que passa. A humanidade, felizmente, caminha firme para um Mundo multipolar !

    Não consigo concordar com essa frase da mídia ocidental: “Bashar al-Assad não é nenhum santo”… E por acaso existe ou existirá um ser humano que seja santo ? Quem ? Onde ? Quando ? Por outro lado, não tenho lido nem ouvido elogios ao GLORIOSO EXÉRCITO SÍRIO !?! Este, sob o comando de Assad, luta todo santo dia contra ordas de degoladores financiados pelos EUA, França, Reino Unido, Israel, Arábia Saudita, Qatar e Turquia.

    http://br.sputniknews.com/mundo/20151118/2801043/Russia-aviacao-estado-islamico.html

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