As relações entre os EUA e a China: a política chinesa do “desenvolvimento pacífico”


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Por Ricardo Abreu Alemão

Este é segundo artigo de uma série que discute as relações geopolíticas entre EUA, China e Rússia na atualidade.

A política chinesa de “desenvolvimento pacífico” e de cooperação com benefícios mútuos (“win-win”) realmente reflete os interesses estratégicos da China. O objetivo estratégico chinês é de carpe diem, que na tradição greco-romana é “colher o dia”, aproveitar o momento para fortalecer-se, explorar a oportunidade estratégica, o atual período de paz, para desenvolver ao máximo a economia e a sociedade chinesa; desenvolver a sua influência cultural e diplomática no mundo, além é claro de suas capacidades tecnológicas, militares e de defesa, preparando-se para uma possibilidade de guerra no futuro, quando a luz do dia poderá ser apagada pela noite da guerra.

O objetivo de continuar seguidamente fortalecendo-se como país, em todas as áreas, no qual a China vem tendo notável êxito nas últimas décadas, inevitavelmente elevou o status do país no sistema de poder internacional. Se a China ainda não é uma potência global do porte dos EUA, ou do porte da URSS enquanto ela existiu, também não é mais somente a potência regional dos anos 1980 e 1990.

A China é a mais nova potência militar mundial, é a segunda em dispêndio militar entre todos os países, e objetiva projetar sua influência para além da Ásia, em direção ao Pacífico, ao Índico e à América do Sul.

A renovação da política externa e de defesa dos EUA, anunciada como nova doutrina pelo presidente Barack Obama, orienta a prioridade para a Ásia, visando a hegemonia na região, compreendendo o oceano Pacífico e o oceano Índico. A competição com a China na região asiática, a competição com Pequim em termos econômicos, comerciais, científico-tecnológicos e militares, e a necessidade de reindustrializar e promover mais a inovação nos EUA, foram batizados por Obama como o “momento Sputnik” da atual geração de estadunidenses, referindo-se à competição nessas áreas com a URSS nos anos 1950.

Segundo o geopolítólogo Wanderley Messias da Costa, a mudança na política externa e da geoestratégia dos EUA “revela que sob todos os pontos de vista, é inquestionável o fato de que a Ásia Continental, a Ásia-Pacífico e, mais recentemente, a África Sub- Saariana e a sua Costa Oriental, constituem o seu novo contexto geopolítico prioritário”.

O presidente chinês, Xi Jinping, em novembro de 2014, fez importante discurso sobre a política externa da China no novo contexto mundial e de seu próprio país, em um encontro denominado “Central Conference on Work Relating to Foreign Affairs”,  no qual afirma que as relações da China com o resto do mundo estão passando por profundas mudanças, já que a China “should develop a distinctive diplomatic approach befitting its role of a major country” e que a China tem defendido a construção de um novo tipo de relações internacionais.

Segundo a chancelaria chinesa, Xi Jinping ressaltou no discurso a importância da cooperação win-win nos campos político, econômico, securitário e cultural. O discurso caracteriza a China como “major country” e defende que, baseada no princípio do não-alinhamento, a China deve fortalecer relações de cooperação principalmente com outros grandes países em desenvolvimento.

O principal dirigente chinês anuncia uma política externa ajustada ao novo papel e à nova dimensão da China no mundo. Propõe realizar uma ampla rede global de parcerias e alianças, com grandes potências, grandes países em desenvolvimento e demais países em desenvolvimento; manejar bem as relações com outros “major countries”; expandir a cooperação com os grandes países em desenvolvimento, como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul); e ampliar as relações de amizade e cooperação, mas sem alinhamento, mantendo a estratégia do desenvolvimento pacífico rumo a um mundo multipolar.

Os EUA dizem que também estão de acordo com essas diretrizes, mas na prática agem em defesa de sua supremacia e tentam conter e isolar a China, por exemplo com a promoção de duas iniciativas econômico-comerciais de vulto: a Parceria Transpacífica, e o acordo comercial EUA-União Europeia.

Mesmo estando aliada à Rússia em várias temáticas, na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), no G-20 e nos BRICS, a China não tem interesse em eventuais conflitos envolvendo os EUA, pois sabe que os riscos geopolíticos nesse caso seriam reais.  No entanto, prepara-se para qualquer eventualidade no futuro.

Ricardo Abreu Alemão é secretário nacional de Organização do PCdoB

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