As relações entre os EUA e a Rússia na atualidade


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Por Ricardo Abreu Alemão

Este o terceiro de uma série de artigos sobre as relações entre os EUA, a China e a Rússia.

A Rússia é atualmente a segunda maior potência militar do mundo e recentemente decidiu alargar a projeção de sua influência além da Europa Oriental e da Ásia Central, ampliando para o Pacífico, o Índico e a América Latina.

Alexandr Dugin, geopolitólogo russo, afirma que a prioridade geopolítica da Rússia é o Nordeste da Eurásia, justamente a região na qual se localizam os países que fazem parte da União Econômica Eurasiática.

O “condomínio de grandes potências”, liderado pelos EUA, é uma coalizão que teve variações. Talvez a mais significativa variação nas últimas décadas tenha sido a inclusão, e depois exclusão, da Rússia, que sucedeu a URSS no Conselho de Segurança da ONU, participou do G-8 e colaborou com a Otan na década de 1990 e durante parte dos anos 2000.

Ainda que a Rússia tenha demonstrado efetivamente disposição para colaborar, os EUA não detiveram a sua política de cercar, sitiar e enfraquecer a Rússia, levando a União Europeia (UE) e a Otan e seu escudo anti-mísseis até a fronteira russa, apesar de vários acordos nos quais os EUA se comprometiam a fazer o contrário, e respeitar os interesses estratégicos da Rússia no espaço pós-soviético. Ficou demonstrado pelos fatos que a Rússia não tinha interesse em disputas que pudessem levar a uma “nova Guerra Fria”, e o mesmo não pode ser dito das atitudes – que não corresponderam às palavras e compromissos acordados – dos EUA, da UE e da Otan.

Dugin analisa a política externa de Putin/Medvedev como ambígua, contraditória e com posições “mutuamente exclusivas” ao longo dos anos 2000 até 2011. O autor russo observa que em 2007, em um marcante discurso em Munique, no qual Putin afirmou os interesses estratégicos russos, e criticou a ordem mundial unipolar. Tal discurso levou uma série de analistas da política internacional a falar em uma “renovação da ‘Guerra Fria’”. Logo depois, a partir do final de 2008, durante a presidência de Medvedev, a Rússia “anunciou uma política de relações mais estreitas com o Ocidente e em primeiro lugar com os EUA” e a Otan.

Em contrapartida, diz Dugin, apesar da nova atitude da Rússia, os EUA continuaram com o programa de mísseis antibalísticos para tentar anular o equilíbrio estratégico com a Rússia, e apoiaram “revoluções coloridas” e o avanço da UE e da Otan rumo às fronteiras russas. O vice-presidente dos EUA foi à Rússia em 2011 para tentar convencer Putin a não ser candidato a presidente novamente. Putin é lançado candidato a presidente, e no dia 3 de outubro de 2011 apresenta a proposta da União Eurasiática.

Em um processo de escalada, após a posição firme do governo russo em relação aos conflitos da Síria e da Ucrânia, e em função de sua recente postura mais independente no cenário regional e mundial, a Rússia foi punida com a sua expulsão do G-8, que voltou a ser G-7 como originalmente era (EUA, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Japão, mais a representação da União Europeia). As sanções são uma forma de guerra econômica contra a Rússia, utilizando o poderio do capital financeiro que circula instantaneamente em somas equivalentes a trilhões de dólares pelo globo, impondo restrições aos investimentos, às importações e exportações russas.

O chanceler russo Sergey Lavrov, em dicurso na ONU, protestou contra as sanções impostas à Rússia, afirmou que a Rússia nunca desistiu de harmonizar os projetos de integração da Europa e da Eurásia, e associou a política externa russa a uma nova ordem mundial para o século XXI. Para Lavrov “ a total falta de qualquer sentido e a natureza contraproducente de sanções unilaterais são óbvias, se se considera o exemplo do bloqueio que os EUA fazem contra Cuba.(…) A política dos ultimatos e a filosofia da supremacia e do domínio não combinam adequadamente com o que o século 21 exige de nós; e trabalham contra o objetivo de desenvolver-se uma ordem mundial policêntrica democrática.

O ex-diplomata e analista internacional indiano, M. K. Bhadrakumar, argumenta que o presidente Putin, em seu discurso anual à Assembleia da Federação Russa para tratar das políticas do estado russo, em 2014, diz “claramente que a Ucrânia é mais um sintoma de uma estratégia mais ampla dos EUA, que tem o objetivo de complicar as relações da Rússia com seus vizinhos. A Ucrânia foi o álibi para as sanções ocidentais contra a Rússia, mas a agenda real que se vem desenrolando ao longo das últimas décadas sempre foi ‘tentar conter as crescentes capacidades da Rússia’”.

De acordo com Bhadrakumar, Putin delineou uma política externa em várias frentes. O especialista indiano prevê que a Rússia não cairá na “armadilha de uma nova Guerra Fria”. Ao citar as frentes da política externa de Putin, ele diz que “Numa delas, a Rússia manterá resolutamente a mesma trajetória de política externa independente que projeta há muito tempo e que visa a promover e a proteger ‘a diversidade do mundo’. Equivale a dizer que as políticas russas promoverão ativamente uma ordem mundial multipolar, baseada em estrita obediência à lei internacional e à Carta da ONU, contra a hegemonia dos EUA. (…) Noutra frente, a Rússia não se deixará prender na armadilha de uma nova Guerra Fria, e não permitirá que seja bem-sucedida a tentativa dos EUA para ‘criar uma nova cortina de ferro em torno da Rússia’.

O Mar Cáspio e a Ásia Central, no “pivô geográfico” da Eurásia segundo o geopolitólogo inglês Halford J. Mackinder, são regiões estratégicas do ponto de vista da geopolítica da energia. Pela região, rica em petróleo e gás, passam enormes gasodutos e há outros planejados ou em construção.

No mesmo discurso ao parlamento russo, referido acima, o presidente Vladimir Putin discorre sobre a importância dos novos gasodutos em parceria com a China, e demonstra força diante das necessidades de energia da Europa e da Ucrânia, destacando que será possível recanalizar o gás em outra direção, para o oeste e para a China por exemplo, de acordo com o “mercado internacional” e, acrescente-se, o interesse estratégico russo. Putin afirma: “poderemos conectar um ao outro os sistemas ocidental e oriental de gás, e rapidamente recanalizar recursos numa direção, ou noutra, conforme o mercado internacional. Isso é muito importante. Sem isso, nunca conseguiríamos conectar o leste e o extremo leste da Sibéria ao sistema de distribuição do gás.

Um grande acordo de cooperação em energia entre Rússia e China, para fornecer gás à Europa, baseado no mantra sino-russo da cooperação pacífica com benefícios mútuos, independente do controle dos EUA e das demais potências europeias, era algo difícil de prever há alguns anos, e é mais um movimento geoeconômico com importantes consequências geopolíticas.

Referências bibliográficas

BHADRAKUMAR, M. K. Rússia desafia a estratégia de contenção dos EUA. In: Strategic Culture , 06/12/2014 – http://goo.gl/Z5FCfZ

DUGIN, Aleksandr. A Geopolítica da Rússia Contemporânea. São Paulo: Versila, 2014.

LAVROV, Sergey, Ministro das  Relações Exteriores da Rússia, Discurso à ONU, em  27/09/2014. Vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=H5WWbONObuQ&feature=player_embedded , acesso em 15/10/2014, texto transcrito em http://www.informationclearinghouse.info

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos – das rebeliões da Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, 1ª edição.

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