Ricardo Alemão: As relações entre a China e a Rússia na atualidade


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Por Ricardo Abreu Alemão.

As alianças entre China e Rússia na atualidade são baseados em interesses comuns, políticos, econômicos e estratégicos, e não há um componente político-ideológico,  como existia nos anos 1950 entre a então URSS e a China. Ainda assim, é importante lembrar que o Pacto de Varsóvia (aliança militar) e o Conselho de Assistência Econômica Mútua (Comecom), liderados pela URSS, não contaram com a participação da China.
A partir dos conflitos sino-soviéticos, no século passado, a China buscou um novo tipo de relação com os EUA e o chamado Ocidente, para confrontar o que chamou de “social-imperialismo” soviético. Apesar de argumentos político-ideológicos, consideramos que a principal razão era defender o interesse nacional da China, enquanto país em transição ao “socialismo com particularidades chinesas”, mas fundamentalmente enquanto país.
Os acordos EUA-China de 1972 provocam, para o professor e pesquisador Wanderley Messias da Costa, “a primeira alteração de monta na antiga e rígida estrutura do sistema bipolar com a celebração do acordo bilateral – diplomático, politico e comercial – entre os EUA e a China, um evento que tem sido considerado como um dos mais notáveis das relações internacionais contemporâneas, já que representou a aproximação das duas grandes potências com notórias rivalidades no plano regional asiático e pavimentou, assim, o longo caminho da distensão política mundial e da integração chinesa na economia mundial, processos que se intensificariam a partir da década seguinte”. (COSTA, 2008, p. 30)
Desde então, entretanto, as relações entre os EUA e a China foram de cooperação, mas também de divergências e disputas. Segundo Henry Kissinger, no século XXI, à medida que a China se tornava uma superpotência econômica, com crescente “interdependência econômica” com os EUA, “duas tendências emergiram, em alguns aspectos operando uma contra a outra. Em muitas questões, as relações sino-americanas evoluíram de maneira em grande parte cooperativa. Ao mesmo tempo, diferenças enraizadas na orientação histórica e geopolítica começaram a se tornar aparentes”. (KISSINGER, 2011, p.474)

Em outra passagem de seu livro “Sobre a China”, Kissinger pergunta: “Será possível desenvolver uma parceria genuína e uma ordem mundial baseada na cooperação? Poderão a China e os Estados Unidos desenvolver uma genuína confiança estratégica?”. (KISSINGER, 2011, p. 492)
O geopolitólogo russo Alexandr Dugin argumenta que os EUA se aproximaram da China “com o objetivo de afastar ainda mais a China da URSS e de fortalecer sua própria presença no Extremo Oriente em detrimento da influência soviética”. O autor russo qualifica o “colapso da URSS”, em 1991, como “uma pesada derrota, sem qualquer paralelo na História russa”, e com isso, segundo ele, “o projeto de Mackinder, herdado pela geração subsequente de geopolitólogos anglo-saxônicos, até Z. Brzezinski, foi levado à prática”. (DUGIN, 2014, pp.72-81)
Recentemente a Rússia fez a proposta de uma União Econômica Eurasiática, que aspirava inicialmente abranger a Ucrânia, país importante da região depois da Rússia, com mais de 45 milhões de habitantes e que é berço cultural e histórico da nação russa. De outra parte, ocorrem os planos de expansão da União Europeia e da Otan, sendo que esta última já incorporou 12 novos países membros no Leste Europeu.
Outra organização regional, a Organização de Cooperação de Xangai (OCX, ou SCO na sigla em inglês) é liderada por China e Rússia, criada com esse nome em 2001, e formada ainda por Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Os acordos entre esses países versam sobre temas de segurança e defesa, cooperação econômica e tecnológica, e energia, entre outros. Irã, Índia e Paquistão, que hoje são observadores, pediram ingresso na OCX. Quando isso acontecer, a organização interestatal compreenderá assim, praticamente toda a área definida como “Heartland” pelo geopolítico Halford J. Mackinder, mais os territórios de China, Índia e Paquistão.
Wanderley Messias da Costa, referindo-se às ideias de Mackinder, esclarece que para o inglês, quem controlar o “Heartland” poderá, com esse “domínio terrestre”, “estender a sua influência na Europa Ocidental às demais regiões asiáticas e até mesmo ao Norte da África (…) uma ‘área’, um espaço central, por ele chamado de coração continental. Este, por sua vez, compreenderia as terras localizadas no Centro e no Norte da Eurásia (compreenderia, grosso modo, a antiga URSS), numa área aproximada de 23,3 milhões de km², cuja característica principal é a de permitir mobilidade à sua população, em todas as direções”. (COSTA, 2013, p. 80)
O “Heartland” (Pivot Area) de Mackinder está representado na figura abaixo. Depois veja a figura seguinte, que mostra o território dos membros plenos da OCX, ainda sem o Irã, Índia e Paquistão, que por ora são observadores.

A imagem é do site globalsecurity.org.

O presidente russo Vladmir Putin afirmou, em agosto de 2014, que a cooperação com a China, em várias áreas e inclusive no Conselho de Segurança da ONU, é feita com o objetivo de estabilizar a situação internacional. Putin declarou que a Rússia não quer se envolver em conflitos em grande escala, entretanto advertiu que tem poderosa capacidade nuclear para sua própria segurança nacional.
Hoje, os interesses nacionais de China e Rússia são, em muitos aspectos, coincidentes. Esses interesses comuns em torno da necessidade de uma nova ordem mundial de paz e cooperação para o desenvolvimento, é que motivam, objetivamente, essa parceria estratégica que se desenvolve atualmente. 
Aos dois países interessa a “coexistência pacífica” com os EUA e seus aliados da Otan. A questão é se os EUA, e alguns aliados como Israel, aceitarão, e até quando, uma transição “pacífica” da ordem mundial, um declínio suave, lento e gradual de sua hegemonia, com uma reacomodação de forças numa possível ordem internacional mais democrática e multipolar, ou se o imperialismo estadunidense acabará provocando novos conflitos e guerras entre superpotências para tentar assegurar a sua atual hegemonia.

Referências bibliográficas

COSTA, Wanderley Messias da. A Relevância do Pensamento Geográfico para o Estudo das Relações Internacionais. Texto–base para concurso de Professor Titular no Departamento de Geografia da FFLCH da USP. São Paulo, mimeo, 2008.

______________________. Geografia Política e Geopolítica: Discursos sobre o Território e o Poder. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2013, 2ª edição.

DUGIN, Aleksandr. A Geopolítica da Rússia Contemporânea. São Paulo: Versila, 2014.
KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos – das rebeliões da Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, 1ª edição.

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