Irã: o alvo perfeito?


Começo de forma direta a responder a questão proposta: sim! O Irã é o alvo perfeito para o próximo capítulo da tentativa de retomada da hegemonia americana no mundo, iniciada ainda no governo de Barak Obama no ano de 2013. Pouco importa os imensos riscos de uma empreitada militar que pode ser muito mais onerosa do que imaginamos.

por Elias Jabbour

Como e onde entra o Irã nesta grande jogada estratégica, de tipo “tudo ou nada”, lançada em meio à grande crise financeira internacional? Em primeiro lugar, o Irã está no meio do caminho entre o médio mediterrâneo, o Líbano (leia-se Hezbollah), a Síria (vitoriosa em uma guerra fratricida), o próprio Irã e a China – sendo o último o alvo estratégico, o inimigo a ser batido.

O Irã está engasgado na garganta dos Estados Unidos desde a Revolução Islâmica de 1979, momento aquele em que a política externa de Jimmy Carter foi posta em xeque e nem o patrocínio norte-americano ao Iraque em uma guerra fratricida contra o Irã (1980-1988) foi capaz de derrubar o regime dos aiatolás.

Desde então, tentativas de cerco ao país persa combinaram diversas formas de ataque: desde a expulsão da Síria do Líbano em 2005, passando pela “Primavera Árabe”, o insuflamento de manifestações como as ocorridas no Brasil em junho de 2013 e a recente quebra do acordo nuclear assinado por Obama em troca de terríveis sanções econômicas que estão a dizimar a economia iraniana.

Por seu turno, o Irã participou ativamente do combate ao Estado Islâmico em território sírio, ampliou seus laços políticos e econômicos com a Federação Russa e, principalmente, com a República Popular da China. A importância estratégica do Irã aos interesses chineses na região vem em uma crescente desde o lançamento da iniciada “Um Cinturão, Uma Rota”, em 2013.

Por exemplo, desde 2017 o Irã está se concentrando na expansão de sua rede ferroviária para que possa se alinhar melhor à estratégia de logística chinesa voltada à Ásia Central. Este casamento estratégico entre os dois países tem sido crucial para alcançar duas prioridades comerciais chinesas – expandir o comércio com a Turquia e ampliar o acesso de mercadorias chinesas aos portos iranianos perto do Estreito de Ormuz.

A China tem se permitido ser um elo pelo qual o Irã se utiliza para burlar as sanções comerciais, sendo ponto de partida para muitos navios iranianos exportarem, sob bandeira chinesa, petróleo mundo afora. Desde 2018, a China tornou-se o principal parceiro comercial do país islâmico e projeta-se, na presente década, trocas comerciais e investimentos da ordem de US$ 600 bilhões. 

Os Estados Unidos tem-se utilizado de um instrumento letal, chamado dólar. É muito pouco notado, mas mudanças institucionais levadas à cabo pelo governo Obama reorganizou as relações entre Estado e mercado dentro do país. A operação de salvamento do sistema financeiro norte-americano teve como contrapartida a proibição pelos bancos privados de impressão do dólar, papel que voltou a ser exclusivo do Federal Reserve. Esta reorganização interna elevou, de forma substancial a capacidade de intervenção do imperialismo no mundo.

Com o Estado domando, agora em enésima potência, a moeda de reserva internacional, a letalidade das sanções contra países como o Irã, Venezuela, Síria e Coreia do Norte é exponencial. A possibilidade de congelamento de ativos em dólar é o canto de réquiem para economias sem diversificação industrial. O roteiro é de fácil percepção: cria-se um profundo problema econômico, mobiliza-se – via whaatsap – manifestações internas, até abrir possibilidade de “regime change”.

Podemos dizer que a China está a salvar a economia iraniana. Por outro lado, apelos eleitorais trumpistas e a adicção pela intervenção externa por parte de um país que não vive, desde 1776, sem uma guerra fora de suas fronteiras por mais de dez anos, forma o caldo perfeito para mais uma aventura de grande risco para o Oriente Médio e o mundo.

A gota d’água ocorreu na semana passada com as manobras militares e navais conjuntas entre Irã, Rússia e China. O mundo anda por demais perigoso com os Estados Unidos, a romper com os princípios da “globalização” por ele mesmo criada. A diferença hoje é o reconhecimento por parte de Trump da legitimidade das aspirações nacionais de outros países.

Mas deixando muito claro que nesta babel de aspirações distintas existe um ponto zero (o poder americano). E, desde esse ponto zero, as diferenças devem ser resolvidas de uma única forma: pela força e retrocedendo a formas de relações internacionais pré-Westphalia (1648), momento aquele em que a luta entre religiões foi deixada de lado no contexto europeu.

O Irã é o alvo perfeito diante deste mar de confusão que está a transformar o Ocidente desde o fim da utopia liberal que vivemos atualmente.

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Elias Jabbour, doutor em Geografia Humana (FFLCH/USP), é professor da FCE/UERJ e membro do Comitê Central do PCdoB

1 comentário

  1. Faltou o doutro geógrafo a fazer um breve relato (das possibilidades iranianas)!

    Não obstante, todo poderio militar e econômico dos EUA, é certo que o Irã tem outros acordos com a China e a Rússia, entre eles, militares!.

    O “risco é grande” mas os EUA pretendem (peitar), mas, contudo, e, aí???

    Podem (dar com os burros n’água)!

    A Rússia, quase que sozinha, evitou a queda da Síria nas mãos do Império do Mal…

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