Um mês sem Augusto Buonicore. O tempo passa rápido, a saudade nunca passa.


No dia onze de março completou-se um mês de ausência do Augusto em nossas vidas.
Ele gostava de efemérides. No início do ano fazia sempre sua

listinha com datas significativas e para algumas delas preparava artigos
visando lembrar fatos e pessoas, em geral ligados às lutas dos povos.
Era seu modo de afirmar que a memória é um potente instrumento para
reaquecer e cultivar o movimento incessante pela transformação do mundo.
Fico imaginando que para ele devia ser mais fácil escrever sobre fatos
em que os trabalhadores haviam se saído vitoriosos. Muito mais fácil do
que escrever sobre as histórias dolorosas de injustiças e violências
como foi o Massacre da Lapa, sobre o qual eu e ele editamos uma vez um
pequeno vídeo para mantermos viva a denúncia. Escrever pensando que sua
morte vai se distanciando no tempo é muito doído. Pois vamos medindo
todo o tempo pelo qual já não o temos mais ao nosso lado. Mas escrever
sobre ele é também cultivar sua memória e reaquecer nossos corações. Por
isso resolvi compartilhar com seus amigos e camaradas algumas palavras.
Breves fragmentos sobre o modo como o olhávamos aqui de perto. Palavras
soltas, que não tenho a habilidade que ele tinha com a escrita.Conheci Augusto como aluna de um curso de formação política do PCdoB
em Campinas, em 1986. Eu concluindo o ensino médio, ele concluindo a
graduação em História. Ele já tinha a postura e gestual que viriam a ser
conhecidos de todos vocês, que tiveram a oportunidade de conviver com
ele nas reuniões do PCdoB, nos cursos, nas palestras pelo Brasil afora.
Seus braços e mãos seguiam a entonação da fala, como modulando as
palavras, estendendo-se e voltando ao peito, pontuando no ar o que
desejava fazer penetrar na consciência, ou melhor, na vontade, do
ouvinte. As pernas sempre trançando um pé frente ao outro, parecendo
querer mais desequilibrar do que equilibrar o corpo sobre o chão. O
cabelo farto, já com a pequena mecha branca, que foi se espalhando
durante esses 34 anos de convivência. Suas aulas naquele curso, voltado a
militantes de movimento estudantil, movimento de mulheres e operários,
tratavam da formação da sociedade brasileira e ele enfatizava: “A
sociedade brasileira foi fundada sobre bases latifundiária, escravagista
e patriarcal”. O conteúdo tratado era de meu conhecimento, obviamente,
mas a diferença ali era que a análise da história apontava para as
permanências observadas no Brasil da década de 1980 e, principalmente,
para a necessidade de transformar a realidade injusta e arcaica. O
conhecimento para o Augusto só tinha importância se servisse para
transformar os homens e a sociedade. E para que esse conhecimento
chegasse a um maior número de pessoas acreditava ser importante cuidar
da escrita e das estratégias de divulgação. Por isso deu atenção não
apenas à publicação de livros, mas também às revistas sindicais, aos
cursos e palestras dedicados à militância dos movimentos sociais e, mais
recentemente, aos jornais virtuais e redes sociais. Penso que deste
modo conseguiu o que desejava. Chegou a um número grande de pessoas. Em
seu velório havia um rapaz novinho, sentado sozinho, quieto. Procuramos
saber quem era e se tratava de um professor de história do ensino
fundamental, da Rede Municipal de Ensino de Campinas. Nunca conhecera
Augusto pessoalmente, nem era militante de organizações políticas. Lia
seus artigos e acompanhava seus debates nas redes sociais. Soubera de
sua morte pelo facebook e estava ali prestando-lhe homenagem. Achei
muito simbólica a presença deste jovem professor, por mostrar como
Augusto chegava a tantos militantes anônimos, que movimentam a
história nos microcosmos da vida social, como por exemplo as escolas.

Augusto com a prima Maria Helena. Desde cedo amava a leitura. (Foto: Arquivo Pessoal)

O amor à leitura lhe foi iniciado logo na infância, pela mãe que
apesar da pouca escolaridade lia para ele e presenteava com livros e
gibis. Ainda muito novinho ganhou da tia uma coleção que tratava da vida
de filósofos. Também criança leu toda a Enciclopédia Disney, onde
aprendeu sobre a vastidão do mundo, os grandes conquistadores, as
curiosidades da ciência e a beleza das artes. No entanto, a experiência
íntima com a leitura não lhe garantiu uma relação fácil com a escola,
como os pedagogos costumam supor. Assim como outras personalidades tidas
por geniais Augusto teve suas dificuldades com a escola quando criança.
Repetiu duas vezes o ano, sofria com a matemática e não suportava a
modorra das lições e exercícios repetitivos. Dizia que só conseguiu ver
sentido no conhecimento escolar quando, no ensino médio, iniciou sua
militância política. Licenciado em História, assumiu aulas em uma escola
pública de ensino fundamental, mas a experiencia durou um único dia.
Durante a aula, os alunos, na idade entre dez, onze anos, pediam para
sair para ir ao banheiro ou tomar água. Ele, apesar de perceber a
malandragem, pois também fora aluno um dia, autorizava sem questionar.
De repente, a diretora da escola surge na porta da sala de aula,
trazendo o bando de alunos de volta e dizendo: “Professor, você não pode
deixá-los sair da sala”. Augusto então desistiu das aulas. Em sua
concepção os alunos não poderiam ser obrigados a ficar na sala de aula
se não desejavam. Essa ânsia pela liberdade de escolher seus caminhos
nos estudos faria também, anos mais tarde, com que abandonasse o
doutorado em Ciência Política. Queria poder pesquisar e escrever sem a
tutela, por vezes rígida e limitante, que faz a academia.

Durante os nove meses de tratamento do linfoma, diagnosticado em
junho de 2019, Augusto esteve internado inúmeras vezes para as
quimioterapias ou para acompanhar pequenas intercorrências que surgiam.
No ritual de arrumação da mala os livros eram cuidadosamente escolhidos.
Claro que os livros despertavam curiosidade entre os profissionais do
hospital e Augusto tinha então a oportunidade de falar um pouquinho dos
assuntos que lia. Lucas, um rapazinho de 18 anos, técnico em enfermagem,
ao saber que atendia ali um historiador, contou que gostava de temas
relativos à Segunda Guerra Mundial. Augusto, então, lhe indicava livros e
filmes, o que lhes rendia boas conversas. Escreveu três artigos durante
o tratamento e planejava outros dois. As temáticas do totalitarismo e
do identitarismo o provocavam. Estes temas já estavam presentes em
vários de seus escritos, mas dizia querer avançar na teoria. Penso que
sua experiência de paciente de hospital por certo também contribuía para
esse interesse. Augusto se afligia ao perceber que no hospital perdia
toda a autonomia e privacidade. Por mais cuidadosos e respeitosos que os
profissionais fossem com ele, era notória a condição de submissão do
doente, como é a do prisioneiro, e podemos dizer, dos alunos na escola.
Foucault foi revisitado por ele nestes meses de internações.

Essa sua forte relação com a linguagem ia além da escrita. Embora
tímido e ansioso quando se preparava para falar em público, empolgava os
ouvintes. Acompanhei de perto a dedicação do Augusto ao movimento
sindical. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores
Municipais de Campinas, em 1988. Por uma década atuou na sua diretoria,
destacando-se como uma liderança extremamente respeitada e com um
potencial de comunicação incrível. Nas assembleias tensas, por vezes com
mais de cinco mil trabalhadores em greve, o silêncio era absoluto
quando ele iniciava seus discursos. Percorria os locais de trabalho da
Prefeitura para conversar com trabalhadores, gostava de conversar com as
pessoas, especialmente ouvi-las. Inúmeras vezes pude vê-lo lendo os
boletins do sindicato para os trabalhadores dos serviços braçais, em
grande número analfabetos, naquele início da década de 1990. Augusto
era conhecido como um hábil mediador dos conflitos, políticos ou
interpessoais, tão comuns entre os diretores do Sindicato e nos
enfrentamentos com a oposição sindical. Certa vez, dois homens armados
chegaram ao Sindicato anunciando um assalto. As mulheres começaram a
gritar, os ladrões entraram em pânico e o Augusto foi quem acalmou a
todos. Essa era uma das histórias, que passado o stress acabavam se
tornando engraçadas, contadas por seus companheiros para exaltar sua
capacidade de mediação. Penso que essa sua habilidade se devia ao seu
modo como se pautava pela racionalidade, afetividade, lealdade e um
profundo respeito pelas pessoas, compreendidas por ele sempre em
processo de mudança.

Já na UTI, estando ele bastante debilitado, nossas últimas conversas
foram sobre cinema. Eu contando que fora com nossa filha ver o filme
Parasita e ele dizendo que o Oscar havia sido injusto com o Coringa, que
ele considerou sensível e genial. Depois disso, a dificuldade de nos
entendermos só foi crescendo. A fala ficando fraquinha em decorrência da
insuficiência respiratória causada pelo choque séptico que sofreu no
pós transplante de medula. A angústia por não poder compreender o que
ele dizia, foi das maiores angústias que senti na vida. Quando precisou
ser sedado e receber oxigênio por respirador mecânico cessou de vez
nossa experiência de vida juntos. Então já não havia mais diálogo. A
palavra desapareceu. Num monólogo triste e desesperado resolvi levar
todos os dias músicas para ele. Cartola, Maria Bethânia, Chico Buarque,
Edu Lobo, Elis Regina, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, encerrando com
Sérgio Ricardo em minha última visita. Faltou Frank Sinatra para
completar sua lista de artistas preferidos. Augusto era muito romântico e
carinhoso. Pronto a relevar todos os meus defeitos. Suspeito que tenha
sido a mulher mais amada deste mundo. Durante todo o período de
tratamento jamais lamentou ou se vitimou, enfrentou com coragem e até
bom humor. O que tornava mais fácil para nós que o acompanhamos. Também
não conversávamos sobre a morte. Embora soubéssemos da gravidade da
doença e percebêssemos que ela nos rondava, nunca planejarmos o que
fazer em relação a tantas coisas e decisões que preciso tomar agora, sem
ele.

Alguns milhares de livros, coleções de revistas nas quais colaborou
como autor ou editor ao longo destes 40 anos, encadernações da Tribuna
da Classe Operária, caixas e mais caixas de textos selecionados e
meticulosamente organizados em suas pesquisas. A única certeza que tenho
é que ele gostaria que esse material estivesse em locais onde de fato
sejam úteis, para pesquisas e ampla divulgação.

Augusto durante lançamento de um de seus livros (Foto: Arquivo Pessoal)

Augusto tinha ainda muitos planos. Assim que adoeceu organizou um
conjunto de artigos e ensaios que escreveu sobre a história do Partido
Comunista do Brasil ao longo da vida e remeteu a mim e a colegas da
Fundação Maurício Grabóis. Em suas palavras sobre tais textos “Alguns
carregam uma carga de pesquisa maior (inclusive em arquivos públicos) e
trazem resultados inéditos-originais até à época de sua publicação, como
o da relação da Internacional Comunista e o movimento negro (no Brasil e
no mundo), relação dos comunistas e o tenentismo (prestismo), relação
PCdoB com Cuba entre 1962 e 1966 e sobre a história das mulheres no PCB
(escrito com o Fernando). Resgatam acontecimentos e personagens que
estavam quase esquecidos, como Minervino Oliveira, Claudino Silva,
Genny Gleizer e Elisa Branco. Mesmo os mais simples deles – marcando
efemérides – exigiram certa pesquisa bibliográfica. Creio que seja um
rico material para pesquisas futuras. Se possível, batam um olho no
sumário da obra. Sugiro publicá-lo no próximo aniversário do Partido
numa versão física, caso tenhamos recursos, ou virtual”. Já tinha
intitulado o livro: “Retalhos Vermelhos: histórias comunistas”. Outro
material que deixou pronto para publicação é a biografia de Dynéias
Aguiar, militante do PC do B que faleceu com 81 anos em 2013. Buscarei
viabilizar essas publicações. Em especial a biografia, bela homenagem ao
Dynéias, homenagem que Augusto sempre quis prestar a todos os
militantes históricos e como o fez retratando em livro a vida de João
Amazonas.

Alguns outros projetos que acalentou podem ser realizados por quem
tiver interesse e prazer em fazê-lo. Ele queria retratar a história dos
Tribuneiros, referência aos que divulgavam a Tribuna da Classe Operária,
jornal comunista que circulou entre 1979 e 1988. Publicou inclusive
depoimento sobre sua própria experiência como um tribuneiro. Esse
depoimento pode ser acessado em
https://tribunadalutaoperaria.blogspot.com/2009/12/augusto-buonicore-fala-da-experiencia_15.html
e sabemos que sobre esse assunto há algumas iniciativas de resgate
histórico já circulando em Universidades e nas páginas do próprio PCdoB.
Ele tinha muita vontade de documentar a história da UCES (União
Campineira dos Estudantes Secundarista de Campinas), de cuja
reorganização pós ditadura militar ele participou. Algum material
inicial sobre essa experiência deixou aqui arquivado. Ficou também em
suspenso a produção de um documentário sobre o golpe militar de 1964 em
Campinas. Neste projeto são parceiros colegas do Museu da Imagem e do
Som de Campinas, onde trabalhava como historiador. Nos últimos anos foi
realizada uma série de entrevistas com homens e mulheres que à época
eram estudantes, políticos e líderes sindicais na cidade. Esse material
pode ser retomado e concluído.

Temo, porém, que a dor da separação seja para sempre inconclusa.
Nunca mais ouviremos suas ponderações, não o veremos mais sentado na
sala rindo com Friends, The big bang theory ou Porta dos Fundos. Não
brigaremos mais por seus sapatos jogados pela casa, que esse era o
grande defeito do Augusto, aos meus olhos. De resto, era só amor e
companheirismo. Ainda não sei em que a dor da separação irá se
transformar. Por ora é só dor e saudade. E Saudade, como enfatiza a
Nereide, querida companheira dele na Escola Nacional do PCdoB, é amor
que fica. Encerro, então, com Alceu Valença, que Augusto adorava e que
foi a sua última pesquisa no google no hospital, para ouvir música no
celular.

Amor que fica (Alceu Valença)

Fica o dito e não dito
Fica o dedo e fica o dado
Fica o feito e o desfeito
O carinho e o cuidado
Fica a chama, fica a vela
Fica a casa e fica a rua
A toalha na janela
Linda, caminhavas nua
Amor que fica é amor que fica
Fica a cama, fica o quarto
Um retrato e uma figa
Duas mãos e não mais quatro
Duas vidas divididas

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