É Vital, é imprescindível!

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Por Fábio Palácio de Azevedo

O auditório do Comitê Central do PCdoB acolheu, na noite da última sexta-feira (30), atividade alusiva aos cinquenta anos de militância do veterano dirigente comunista Eustáquio Vital Nolasco. Familiares, amigos, correligionários e parceiros de luta renderam homenagem à trajetória de um militante que, como no célebre poema de Bertold Brecht, pertence à cepa dos que lutaram a vida inteira e são imprescindíveis.

Compuseram a mesa da solenidade, além do próprio Vital Nolasco, Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB; Aurélio Peres, primeiro deputado federal eleito pelo PCdoB na vigência do regime militar; Wagner Gomes, secretário-geral da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB); Jamil Murad, presidente do PCdoB paulistano; Liège Rocha, secretária nacional da Mulher do PCdoB; Padre Luiz, apoiador das greves do final dos anos 1970 e militante em favor dos perseguidos políticos, e João Carlos Gonçalves “Juruna”, secretário-geral da Força Sindical. A solenidade, que ocorreu como parte do Encontro Nacional de Finanças do PCdoB, foi conduzida pelo secretário nacional de Finanças Fábio Tokarski. A celebração teve início com a exibição do vídeo “É Vital, é imprescindível!”, que narra os principais episódios da trajetória militante de Vital Nolasco.

Em seguida à exibição do vídeo, a ex-deputada estadual pelo PCdoB-SP e atual presidente da União Brasileira de Mulheres no estado, Ana Martins, foi a primeira a fazer uso da palavra. “Conheci Vital quando veio de Belo Horizonte depois da greve de Contagem, em 1978”, relembrou. “Naquele momento arranjamos uma família com o perfil dele, composta de negros altos etc., para que ele pudesse ficar com essa família, pois estava fugindo da polícia por ter liderado a greve de Contagem. Como tínhamos participado da greve de Osasco, da Cobrasma, estabelecemos relações. Em 1970 participamos juntos da montagem de uma comissão interfábrica. Depois, quando ele já estava na Metal Leve continuamos na comissão e participamos do Sindicato dos Metalúrgicos. Depois, durante três ou quatro anos ficamos sem notícias. Mais tarde voltamos a participar do Sindicato. Ambos trabalhávamos na Philco: Vital era eletricista e eu trabalhava no transistor. Compusemos a comissão de fábrica. Até que inesperadamente deram as contas dele e não quiseram acertar, dizendo que ele tinha que ir para a Delegacia Regional do Trabalho. Desconfiamos, achamos que podia ser uma armadilha, e de fato era.”

Ana Martins não esconde as emoções quando lembra este e outros episódios de sua militância em conjunto com Vital. “Operário combativo e comunista sério, com forte vínculo com a classe operária. Pode ser exemplo para muitos militantes novos, por sua persistência, dedicação e compromisso”, resumiu.

O ex-deputado federal Aurélio Peres também deixou seu depoimento: “Vital vinha de Minas Gerais fugido da polícia, e uma pessoa dessas a gente não pensa duas vezes. Fomos falar com o Padre Fernando: ‘Padre, neste aqui a gente pode acreditar. Ele não tem medo de bicho feio’. Começava ali uma parceria de 44 anos. Nunca nos separamos: na oposição sindical, nas lutas do partido, nas lutas políticas. É uma vida de dedicação à causa dos trabalhadores, e nos últimos anos eu sei da luta que ele travou cuidando das finanças do partido. Uma homenagem ao vital é uma homenagem merecida”, concluiu Peres.

O presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, destacou a trajetória de Vital desde o período das greves de Contagem, “primeira greve operária de expressão de nosso país, no período da ditadura”. Segundo Rabelo, por sua atuação destacada nas lutas operárias Vital logo foi eleito para a direção nacional da JOC. “Assim era o Vital. O caminho dos militantes mais destacados das juventudes católicas era o ingresso na Ação Popular. Por sua militância de compromisso crescente, no contexto de uma ditadura cada vez mais feroz, Vital passou a sofrer como muitos outros uma vida de perseguição e clandestinidade. A solidariedade e a generosidade era o grande preceito nessa época. Como morar, viver e atuar sem essa solidariedade expressiva? Era o risco da prisão, da tortura e da morte!”, explicou o presidente do PCdoB.

“Por isso essa é uma justa iniciativa que nós, da direção nacional, participamos e apoiamos”, completou Rabelo. “Vital foi militante com ação nesses momentos que exigiam grande abnegação. Ele e sua esposa, Esther, sempre foram marcas de elevada generosidade”.Ao recordar o período mais recente, Rabelo destacou a grande contribuição de Vital à frente da Secretaria de Finanças do Partido. “Vital elevou seu papel de dirigente político na condução desse decisivo trabalho para o partido: a conquista dos meios e dos recursos financeiros para a edificação e o fortalecimento do PCdoB. Na conquista da sede própria teve grande desempenho. Temos afirmado que, definida a política, a questão central passa a ser a dos meios e dos recursos para cumpri-los. Daí a importância central da política de finanças, que Vital soube como ninguém conduzir. Vital, sei que você continuará sua militância. Estará em outra frente, entusiasmado e cheio de paixão. Você está entre os quadros imprescindíveis. Saudações comunistas!”, finalizou Renato.

Ao final do ato, o público presente pôde ouvir as palavras do próprio homenageado, Vital Nolasco. Ele iniciou sua fala lembrando “todos aqueles que não estão mais entre nós, mas fizeram parte dessa luta. Evoco essas pessoas na figura de dois expoentes: João amazonas, ideólogo e construtor do PCdoB, e Sandro Dias da Silva, operário metalúrgico assassinado pela ditadura”.
O veterano dirigente partidário reverenciou também a figura dos padres José Miranda, “que me engajou na Juventude Operária Católica”, e Michel, que, “junto aos padres dominicanos e carmelitas, forneceram importante apoio à nossa luta, quer no movimento operário, quer na solidariedade em meio aos embates contra a ditadura”. Vital citou ainda lideranças nacionais da JOC, como Luizinho e Euripes, e demais companheiros e amigos. Fez menção especial “ao grande camarada Rogério Lustosa”.
Ao lembrar suas origens, Vital destacou: “Minha trajetória é a de um filho da classe operária, vindo de uma família de onze irmãos que, como a maioria de nosso povo, enfrentou dificuldades para sobreviver. Meu pai dizia que não tinha herança para deixar aos filhos: tudo o que podia fazer era nos incentivar a estudar. De fato, aprendi muito seja nos bancos escolares, seja na escola da vida.”

O veterano dirigente lembrou cronologicamente diversos fatos marcantes de sua trajetória militante, como as grandes greves operárias de Contagem em 1968 – “e suas grandes lideranças, como Enio Seabra, Mário Bento, Mário de Castro e tantos outros” –, a experiência com os operários do ABC, no mesmo período em que Lula entrou na diretoria do sindicato, as madrugadas preparando pichações e panfletagens, as torturas sofridas nas dependências do Doi-Codi, a Chacina da Lapa, a participação no Movimento contra a Carestia, a contribuição inestimável às eleições de Irma Passoni e Aurélio Peres, as grandes greves operárias de 1979, o assassinato do operário Sandro Dias, a luta pela anistia, as duas eleições para vereador em São Paulo, ambas “baseadas no apoio dos operários, tendo como base principal os trabalhadores da Metal Leve”.

Referindo-se ao período mais recente, Vital comentou a vinda para o secretariado nacional do PCdoB, primeiro como secretário de movimentos sociais, depois como secretário de finanças. Nesse período, destacou a grande batalha, “que envolveu todo o coletivo partidário”, voltada à aquisição de recursos para a compra da sede própria. “Para um revolucionário a luta não termina nunca, nem depois de morto. Tenho a convicção de que nosso povo, que foi capaz de derrotar a ditadura e impor importantes derrotas ao neoliberalismo, será capaz de construir uma nova sociedade. De nossa parte continuaremos a construir esse importante instrumento das lutas dos trabalhadores: o Partido Comunista do Brasil”, finalizou Vital.

Segundo Fábio Tokarski, atual secretário nacional de Finanças do PCdoB e idealizador do evento, Vital é um operário que teve uma trajetória sofrida e digna no enfrentamento do regime militar. “Tortura é algo deplorável, mas assistir a uma irmã ser torturada apenas porque morava na mesma casa é algo que expressa a trajetória de alguém que sofreu com a tortura e teve os familiares torturados. O PCdoB, pela história, pela densidade das relações sociais construídas pelo Vital – o que, aliás, ficou expresso no ato –, teve muito brilho ao trazer para os dias atuais a trajetória de um construtor do partido. Foi um evento cheio de significados. Os indivíduos também jogam papel na construção das lutas coletivas, e isso deve ser destacado, ainda mais no caso de um militante como Vital”, afirmou.

Trajetória de Vital Nolasco

Eustáquio Vital Nolasco nasceu na cidade de Belo Horizonte em 16 de dezembro de 1946, segundo dos onze filhos (um deles adotivo) do padeiro Orlando e da lavadeira Diva. Já aos dez anos começava a trabalhar. Caminhava dez quilômetros para levar leite até a vila onde morava. Aos doze anos vendia legumes e verduras durante o dia e estudava à noite. Durante a juventude, participou do movimento secundarista em Belo Horizonte. Em 1964, ano do golpe militar, entrou decididamente para a militância política através da Juventude Operária Católica. Após o endurecimento do regime, em 1968, foi eleito para a Direção Nacional da JOC. Nessa mesma época entra para o Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem. Apesar da dura repressão, esta seria uma época de acirramento das lutas operárias. Muitas greves agitam a capital mineira e Vital Nolasco participa de todas elas.

Pouco após, Vital adere à Ação Popular e muda-se para São Paulo por causa da perseguição dos militares. Em 1971 casa-se com sua companheira Esther, também uma abnegada militante comunista. No mesmo ano entra para a direção da AP. Mais tarde, em 12 de março de 1974, já como militante do PCdoB, é preso e levado para o DOI-CODI. Durante 20 dias seria barbaramente torturado, sem nada revelar aos algozes do povo. Após ser inocentado, procurou a direção do PCdoB, mas em 16 de dezembro de 1976 ocorreria a Queda da Lapa, que impediria esse contato até 1978. Mesmo assim, Vital mantém a sua militância no movimento sindical.

Nos princípios da década de 1980 participa ativamente, com sua companheira, Esther, da campanha de filiação para legalizar o PCdoB. Na mesma época preside o Centro de Cultura Operária, entidade criada para dar voz ao pensamento do partido que continuava na ilegalidade.

De 1983 a 1987 Vital foi segundo-secretário da direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Em 1988 foi eleito vereador na chapa encabeçada por Luiza Erundina, e em 1992 seria reeleito. No 8º Congresso do PCdoB, em 1992, é eleito membro do Comitê Central, cumprindo diversas funções. Em 2001 participa da comissão de busca dos desaparecidos do Araguaia. No mesmo ano é indicado Secretário Nacional de Finanças do PCdoB. Durante sua gestão à frente da Secretaria, o partido adquire sua primeira sede própria.

Em 2013, Vital é eleito para mais um mandato no Comitê Central do PCdoB.

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